domingo, 15 de janeiro de 2012

O livro do dia: na câmara ardente




Sim, eu sei que foi Miguel Torga quem escreveu Câmara Ardente, mas isso não quer dizer nada, porque Américo Rodrigues não é filho de Torga, nem discípulo. A sua poesia nasceu de nascimento natural: consigo. E diante do mundo. Américo, tal qual o cidadão comum, hoje e aqui –ontem e ali, onde quer que for-, vive dentro de uma câmara ardente. E o livro, ora publicado, acidente poético fatal, bem o diz: revela o fogo que queima:

no centro da ilha
há um vulcão
no centro do vulcão
há uma ilha

A alma que é feita do fogo e da lava do vulcão é a realidade violenta, dolorosa, incontornável, colada a nós e de que só na morte nos libertamos.

E mesmo isso é dubitativo; e transcrevo, agora, Reinaldo Ferreira:

Já me não basta morrer;
Tanto me falta a certeza
Que paro todo de ser
Na Vida sem mim ilesa.

A alma perdura?

No desespero -na raiva?-, Américo Rodrigues informa:

vendo alma
usada
gorda
luzidia
imune à influência de deus

Afinal, o deus que procurou, em vão...:

ligou para
deus
não posso atender
isto é uma
gravação
deixe a sua mensagem
após o sinal
..................................
ligou para
Deus
Adeus!

Américo Rodrigues não precisa de ‘antepassados’, nem de Torga, a que o ligará a paixão à terra; nem de Reinaldo Ferreira; nem de Régio que, no entanto, algures explica por que é que Américo dispensa antepassados: aquilo que ele é -um artista poliforme- veio-lhe no sangue;

ora oiçam o poeta de Deus e do Diabo:

[trata-se de] dom natural, pessoal, misterioso, -que se não adquire, nem transmite, nem aprende.

Mas o poeta Américo não escapa a Reinaldo Ferreira, uma vez que confirma esta sua, dele, Reinaldo, frase:

Sem emoção, toda a poesia é nada.

A poesia de Américo é um grito; é emocionante. E cai no nosso tempo -neste nosso dia de hoje, que pode ser, exactamente, o dia 15 de Janeiro de 2012 e amanhã o dia 13, e depois o dia 14, e por aí adiante até que se dê a transfiguração-, no nosso momento absurdo, insuportável, infame da morte/ dos vivos/ em vida –como denuncia Américo.

De alma a arder no seu, nosso tempo, Américo, órfão do deus que não responde ao telefone e anda em parte incerta; da beleza que a mesquinhez da horda de mortos-vivos lhe rouba; da simplicidade sagrada, que existe, apesar de parecer que não –ironiza, tragicamente:

Os rapazes da aldeia onde nasci
tinham o péssimo hábito
de se matar
antes de fazerem 18 anos
(...)
Os rapazes da aldeia onde nasci
tinham o péssimo hábito
de se matar
antes de se matarem
digamos em coro
paroquial:
naturalmente.

E, naturalmente, no tal hoje e aqui e muito por todo o lado, os rapazes têm, ‘naturalmente’, o péssimo hábito de se matarem, enforcando-se ou cumprindo o projecto de vida possível, descrito por Américo, na poesia Projecto:

estar sentado nesta
cadeira
contar as moscas que mato
e voltar a assobiar
é o meu projecto
de vida.

Mas a sua escolha foi outra e Américo Rodrigues assume-a:

lá está o poeta
sentado
a um canto
a
lutar contra
o seu tempo
escreve sobre o sofrimento
a mentira
a dor original

E eis que salta da morte um ‘parente’ inesperado (?), um jovem de há 50 anos. Que se matou, naturalmente, numa auto-estrada, ao volante de um bólide, a 200 à hora, em contramão: James Dean.

O James Dean de A Leste do Paraíso –do Paraíso Perdido; o jovem de há 50 anos, às voltas com a dor original, no fim e ao cabo, a dos cabos estragados, a dos fios telefónicos gastos, que não nos trazem de volta nenhum Deus e muito menos o Homem, o tal que referiu Miguel de Unamuno, quando lembrava que, para ser um Homem basta sê-lo, ter a coragem de o ser e quebrar as grades da câmara ardente.

E da mentira.


Dean foi uma figura emblemática e o seu drama atravessou facilmente, meio século, brilha ainda –repete-se.

As coisas demoram a resolver-se e, na raiz, talvez nunca se modifiquem totalmente

Onde isso nos levaria!

Américo Rodrigues constata, numa poesia cruel, escrita com vitríolo, que “morre-se melhor/ em portugal”; quer ele dizer: hoje, o nosso país tende a mimar a casa mortuária.

E logo se topa o desespero de Nobre: “que desgraça nascer em Portugal”; a revolta de Alexandre O’Neill: “ó Portugal se fosses só três sílabas.../ Portugal/ meu remorso/ remorso de todos nós...”

Não falta à chamada Mário de Sá-Carneiro, exilado voluntário, que se mata para não voltar e cuja transparente confissão dos próprios tropeções regressa na limpidez da arte de Américo.

Américo Rodrigues escreve poesia com os pés bem assentes na terra nossa –mas a desvendar a tragédia que vive o mundo.  

acidente poético fatal -eis um livro actualíssimo, pertinente, verdadeiro.

Sem comentários:

Enviar um comentário