Denúncia ou Mariana e o
Outro
I
Há dois livros que me impressionaram
muito: Lettres Portugaises,
atribuídas à freira de Beja, Mariana Alcoforado, e Esta Cidade!, de Irene Lisboa.
Cheguei a eles na
seguinte ordem: em 1960, a obra de Irene Lisboa, que comprei na Feira do Livro;
em 1961, as cartas de Mariana.
Mas devo sublinhar o
seguinte: em Esta Cidade!, arrebatou-me
um dos capítulos, O Amante, novelinha,
ou long short story, talvez uma das
obras-primas da nossa Literatura.
De que tratam Irene
Lisboa e Mariana?
Descrevem o sofrimento
de duas mulheres -Helena e Mariana- vítimas
de dois casanovas, dois amantes sem
escrúpulos e sem paixão.
Ou, se quiserem, duas
mulheres vítimas do secular machismo que continua a existir, talvez, hoje, mais
obsessivamente do que nunca.
Imperando na
literatura, no cinema e na publicidade quotidiana, recorre ao uso do corpo da
mulher, diz-se erotismo e não passa de pornografia que, precisamente, falsifica
o erotismo, deforma-o, adultera-o.
É o erotismo um valor?
Com certeza –mas não
cabe debatê-lo, neste brevíssimo ensaio.
Está presente, ou
subjaz, o erotismo na narrativa de Irene Lisboa e nas cartas de Mariana? Sim, mas nada tem de pornográfico: integra-se na paixão e no grande sofrimento
assinalado.
Não que o amor -a
paixão- obrigue ao sofrimento; acontece, nessas histórias, serem os dois amantes
masculinos tudo menos amantes: o da novelinha de Irene Lisboa cujo nome ela omite
e o oficial francês, Noel Bouton, conde de Saint-Léger, inconsciente carrasco
da freira de Beja.
Admitindo -porque a polémica,
em torno de quem escreveu as Lettres
Portugaises, confiadas ao livreiro parisiense Claude Barbin, no dia 28 de
Outubro de 1668, para publicação e editadas sem nome de autor***, é uma
polémica que se arrasta há séculos-, aceitando Mariana Alcoforado como autora,
cativou-me na freira de Beja, para lá da poesia e da profundidade do texto, a
força do seu grito, denúncia de uma fraude.
Irene Lisboa narra
alguns instantes da relação de Helena e do amante; bem a seu estilo, a
afirmá-la impressionista única da nossa Literatura, pedaços de vida, dolorosos
para a mulher, sangue que brota, perante a indiferença do homem, triunfante, emproado,
a saborear e a abusar da conquista premeditada, conseguida e desenvolvida.
Ao contrário de Noel, o
amante de Helena tem consciência do mal que faz; Noel limitou-se a divertir-se,
seguindo regras generalizadas no seu meio.
Deparamos com dois sedutores desmascarados: Noel Bouton e
um anónimo, que nem por ser anónimo deixou de existir (Irene Lisboa nunca, em
nenhuma das suas narrativas perdeu de vista a violência da vida).
Mas de quem falo, em Mariana e o Outro, -monólogo, algumas,
poucas vezes, interrompido por Mariana- é de Noel Bouton. Tento esboçar o seu
retrato.
Aquilo que se diz ou se
escreve desvenda quem fala ou escreve, e de nada serve enrolar-se, mascarar-se,
nas palavras.
De Noel Bouton, porém,
não consta nenhuma resposta às cartas de Mariana.
Fui eu quem inventou as
suas palavras. Talvez não. A verdade é
que as cartas de Mariana, poéticas e de grande qualidade literária, ultrapassam
o romantismo da história e assentam em crua, implacável realidade.
Recriam e realizam
-tornam real, de carne e osso- a pessoa do amante que a abandonou.
Eu recebi o seu discurso e, dele, tirei conclusão.
***assim o assinala António
Belard da Fonseca, na obra fundamental A
Freira de Beja e as “Lettres Portugaises”, imprimida nas Oficinas Gráficas
da Imprensa Portugal-Brasil, em Maio de 1966
(segue e termina amanhã...)
(segue e termina amanhã...)

Fico então à espera de poder ler o resto.
ResponderEliminarUm beijinho e continuação de boa semana:)
Interessante. Gosto de Irene Lisboa.
ResponderEliminarAguardarei pelo que falta. :))
Agora venho à medida que posso.
Beijinho.
Isabel, atrasei-me... mas a vida não é simples, durante estes dias... Um abraço!
ResponderEliminarAna, desculpe as minhas omissões... os dias não têm sido simples, com a operação e convalescença da Maria João...
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