quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O drama da Freira de Beja



Denúncia ou Mariana e o Outro


Há dois livros que me impressionaram muito: Lettres Portugaises, atribuídas à freira de Beja, Mariana Alcoforado, e Esta Cidade!, de Irene Lisboa.

Cheguei a eles na seguinte ordem: em 1960, a obra de Irene Lisboa, que comprei na Feira do Livro; em 1961, as cartas de Mariana.

Mas devo sublinhar o seguinte: em Esta Cidade!, arrebatou-me um dos capítulos, O Amante, novelinha, ou long short story, talvez uma das obras-primas da nossa Literatura.

De que tratam Irene Lisboa e Mariana?

Descrevem o sofrimento de duas mulheres -Helena e Mariana-  vítimas de dois casanovas, dois amantes sem escrúpulos e sem paixão.

Ou, se quiserem, duas mulheres vítimas do secular machismo que continua a existir, talvez, hoje, mais obsessivamente do que nunca.

Imperando na literatura, no cinema e na publicidade quotidiana, recorre ao uso do corpo da mulher, diz-se erotismo e não passa de pornografia que, precisamente, falsifica o erotismo, deforma-o, adultera-o.

É o erotismo um valor?

Com certeza –mas não cabe debatê-lo, neste brevíssimo ensaio.

Está presente, ou subjaz, o erotismo na narrativa de Irene Lisboa e nas cartas de Mariana? Sim, mas nada tem de pornográfico: integra-se na paixão e no grande sofrimento assinalado.

Não que o amor -a paixão- obrigue ao sofrimento; acontece, nessas histórias, serem os dois amantes masculinos tudo menos amantes: o da novelinha de Irene Lisboa cujo nome ela omite e o oficial francês, Noel Bouton, conde de Saint-Léger, inconsciente carrasco da freira de Beja.

Admitindo -porque a polémica, em torno de quem escreveu as Lettres Portugaises, confiadas ao livreiro parisiense Claude Barbin, no dia 28 de Outubro de 1668, para publicação e editadas sem nome de autor***, é uma polémica que se arrasta há séculos-, aceitando Mariana Alcoforado como autora, cativou-me na freira de Beja, para lá da poesia e da profundidade do texto, a força do seu grito, denúncia de uma fraude.

Irene Lisboa narra alguns instantes da relação de Helena e do amante; bem a seu estilo, a afirmá-la impressionista única da nossa Literatura, pedaços de vida, dolorosos para a mulher, sangue que brota, perante a indiferença do homem, triunfante, emproado, a saborear e a abusar da conquista premeditada, conseguida e desenvolvida.

Ao contrário de Noel, o amante de Helena tem consciência do mal que faz; Noel limitou-se a divertir-se, seguindo regras generalizadas no seu meio.

Deparamos com dois sedutores desmascarados: Noel Bouton e um anónimo, que nem por ser anónimo deixou de existir (Irene Lisboa nunca, em nenhuma das suas narrativas perdeu de vista a violência da vida).

Mas de quem falo, em Mariana e o Outro, -monólogo, algumas, poucas vezes, interrompido por Mariana- é de Noel Bouton. Tento esboçar o seu retrato.

Aquilo que se diz ou se escreve desvenda quem fala ou escreve, e de nada serve enrolar-se, mascarar-se, nas palavras.

De Noel Bouton, porém, não consta nenhuma resposta às cartas de Mariana.

Fui eu quem inventou as suas palavras. Talvez não. A verdade é que as cartas de Mariana, poéticas e de grande qualidade literária, ultrapassam o romantismo da história e assentam em crua, implacável realidade.

Recriam e realizam -tornam real, de carne e osso- a pessoa do amante que a abandonou.

Eu recebi o seu discurso e, dele, tirei conclusão.

***assim o assinala António Belard da Fonseca, na obra fundamental A Freira de Beja e as “Lettres Portugaises”, imprimida nas Oficinas Gráficas da Imprensa Portugal-Brasil, em Maio de 1966

(segue e termina amanhã...)

4 comentários:

  1. Fico então à espera de poder ler o resto.

    Um beijinho e continuação de boa semana:)

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  2. Interessante. Gosto de Irene Lisboa.
    Aguardarei pelo que falta. :))
    Agora venho à medida que posso.
    Beijinho.

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  3. Isabel, atrasei-me... mas a vida não é simples, durante estes dias... Um abraço!

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  4. Ana, desculpe as minhas omissões... os dias não têm sido simples, com a operação e convalescença da Maria João...

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