sábado, 18 de outubro de 2014

Páginas de um Diário Público


Pormenor de uma obra de Miguel Ângelo, na Capela Cistina, Vaticano

Não interessa ser seguido: o que importa é ajudar a abrir ao outro a janela do seu caminho.

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Hoje, no jornal Le Monde, topo um artigo a propósito de Jacques Derrida.

Confesso -e estendo a mão à palmatória- que pouco dele li, apenas páginas, passagens.

De filosofia, sempre me interessaram aqueles a quem se usa chamar filósofos puros: de Platão a Kierkgaard, a Montaigne, ou seja, aos que nos abrem, recriando-a, através da linguagem viva, a dúvida provocada pela consciência de existir.

Simplificando: confrontam o mistério de serem, confrontam o facto de ignorarem de onde vêm e para onde vão e, tal qual Gauguin, em uma das suas obras-primas, interrogam-se: “De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?”

Não me parece -e muito provavelmente isso resulta do meu desconhecimento da obra- que Derrida seja um deles.

O que, agora, importa é uma sua frase, que traduz angústia e desespero, e o articulista, Jean Birnbaum, cita.

Sublinhe-se que, hoje, o filósofo francês, ao que Birnbaum denuncia, está morto e enterrado, esquecido (em dez anos, o canibalismo literato tê-lo-á apagado da cena).

Mas vamos ao osso: numa derradeira entrevista a Le Monde, consciente da morte que lhe bate à porta, Jacques Derrida desabafa:

“De cada vez que deixo partir alguma coisa, vivo a minha morte no que escrevo. Prova extrema: entregamo-nos sem saber a quem confiamos o que deixamos. Quem vai herdar e como? Haverá, realmente, herdeiros?”

Que importa?

Eis o que não me aflige ou angustia.

Não passei de uma pedra mais, de uma pedrinha, em imensa galáxia.

Recordo ter visto, em Moscovo, no teatro, um adolescente ser o primeiro a levantar-se, para aplaudir Tchekhov.

A vida continua, apesar da morte.

Uma pessoa -uma só pessoa que seja- garante a continuidade da procura.

Se eu trouxe alguma coisa, trouxe uma pedrinha –e nada mais.

Não, não trouxe o ensino nem o que escrevi vale mais do que isso: acrescentei uma palavra.

Não, eu não vim salvar o mundo, vim -que remédio!- interrogar o mundo.  E, quando me for, ainda não terei resposta.

As minhas dúvidas, as minhas convicções não passam de janelas que empurro e me levam à incerteza -janelas que, por sua vez, sem tirar eu os pés da terra, me levam... à dúvida constante.

Nunca quis que me seguissem. 

Aliás, é impossível ou uma fraude: cada um abraça a própria descoberta, sempre no fio da navalha –da navalha que ameaça desacreditar as nossas descobertas e ameaça obrigar-nos, mais uma vez, a confrontar o vazio.

A confrontar o absurdo de sabermos que vivemos, chegamos de algum sítio desconhecido e vamos a caminho de mais algum sítio desconhecido.


Cada palavra, cada linha que atiramos, às cegas, é um estender de mão, em busca de todos os outros –outros como nós, nem mais nem menos do que nós.              

1 comentário:

  1. gostei, eu gosto do Derrida desde os 20 anos, ele é que não sabe :) . Claro que o meu mais que tudo é o Platão, paixão antiga e primeira com quase 2.400 anos, mas lembrada quase todos os dias, até porque eu já vou com 899 anos ;-)

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