Pormenor de uma obra de Miguel Ângelo, na Capela Cistina, Vaticano
Não interessa ser seguido: o que importa é ajudar a abrir ao outro a janela do seu caminho.
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Hoje, no jornal Le Monde, topo um artigo a propósito de Jacques Derrida.
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Hoje, no jornal Le Monde, topo um artigo a propósito de Jacques Derrida.
Confesso -e estendo a mão à palmatória- que pouco dele li, apenas páginas, passagens.
De filosofia, sempre me
interessaram aqueles a quem se usa chamar filósofos
puros: de Platão a Kierkgaard, a Montaigne, ou seja, aos que nos abrem,
recriando-a, através da linguagem viva, a dúvida provocada pela consciência de
existir.
Simplificando:
confrontam o mistério de serem, confrontam o facto de ignorarem de onde vêm e para onde vão e, tal
qual Gauguin, em uma das suas obras-primas, interrogam-se: “De onde viemos? O
que somos? Para onde vamos?”
Não me parece -e muito
provavelmente isso resulta do meu desconhecimento da obra- que Derrida seja um
deles.
O que, agora, importa é
uma sua frase, que traduz angústia e desespero, e o articulista, Jean Birnbaum,
cita.
Sublinhe-se que, hoje,
o filósofo francês, ao que Birnbaum denuncia, está morto e enterrado, esquecido (em
dez anos, o canibalismo literato tê-lo-á apagado da cena).
Mas vamos ao osso: numa derradeira entrevista a Le Monde, consciente da morte que lhe
bate à porta, Jacques Derrida desabafa:
“De
cada vez que deixo partir alguma coisa, vivo a minha morte no que escrevo. Prova
extrema: entregamo-nos sem saber a quem confiamos o que deixamos. Quem vai
herdar e como? Haverá, realmente, herdeiros?”
Que importa?
Eis o que não me aflige
ou angustia.
Não passei de uma pedra
mais, de uma pedrinha, em imensa galáxia.
Recordo ter visto, em
Moscovo, no teatro, um adolescente ser o primeiro a levantar-se, para aplaudir
Tchekhov.
A vida continua, apesar
da morte.
Uma pessoa -uma só
pessoa que seja- garante a continuidade da procura.
Se eu trouxe alguma
coisa, trouxe uma pedrinha –e nada mais.
Não, não trouxe o
ensino nem o que escrevi vale mais do que isso: acrescentei uma palavra.
Não, eu não vim salvar
o mundo, vim -que remédio!- interrogar o mundo. E, quando me for, ainda não
terei resposta.
As minhas dúvidas, as
minhas convicções não passam de janelas que empurro e me levam à incerteza -janelas que, por sua vez, sem tirar eu os pés da terra, me levam... à dúvida constante.
Nunca quis que me seguissem.
Aliás, é impossível ou uma fraude: cada um abraça a própria descoberta, sempre no fio da
navalha –da navalha que ameaça desacreditar as nossas descobertas e ameaça obrigar-nos, mais uma vez, a confrontar o vazio.
A confrontar o absurdo
de sabermos que vivemos, chegamos de algum sítio desconhecido e vamos a caminho
de mais algum sítio desconhecido.
Cada palavra, cada
linha que atiramos, às cegas, é um estender de mão, em busca de todos os outros
–outros como nós, nem mais nem menos do que nós.

gostei, eu gosto do Derrida desde os 20 anos, ele é que não sabe :) . Claro que o meu mais que tudo é o Platão, paixão antiga e primeira com quase 2.400 anos, mas lembrada quase todos os dias, até porque eu já vou com 899 anos ;-)
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