quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O drama da Freira de Beja -II



A história fabulosa, em todo o sentido da palavra


Quem era Mariana?

Nasceu a 22 de Abril de 1640, em Beja, filha segunda de Leonor Mendes, do mesmo lugar, e Francisco da Costa Alcoforado, originário da Vila de Cortiços, comarca de Torre de Moncorvo, Trás-os-Montes.

Três anos depois, nasce o irmão Baltazar (1645) *** o mais velho de três filhos dos sete -três rapazes e quatro raparigas- de  Francisco e Leonor. Baltazar teve um papel relevante no drama de Mariana, como veremos adiante.

Essa, aos 11 anos, entra para o Real Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, e, aos 16, professa. Ali viverá até à morte, a 28 de Julho de 1723, com 83 anos. Da sua vida pessoal, quase só nos resta aquilo que sucedeu em 1667: um breve e tumultuoso encontro.

Noel Bouton (1636-1715), conde de Saint-Léger, futuro Marquês de Chamilly, era capitão de cavalaria, às ordens do conde de Schomberg, Frederic Armand von Schomberg, por sua vez, às ordens do rei de França, Luís XIV, que o mandara comandar um corpo de exército francês, destinado a apoiar Portugal na demorada Guerra da Restauração. Ao que sei Noel era o mais velho de seis irmãos: além dele, outro também militar, um frade e três irmãs freiras.  

Chega Noel Bouton a Beja em 1666 e junta-se a um grupo de pândegos sem regras, amigos, camaradas, entre os quais… Baltazar Alcoforado, depressa seu amigo íntimo que reforçou o amor de Noel por Mariana.

A velha Pax Julia romana, destacava-se, ainda, no século XVII. Raul Proença, no volume do Guia de Portugal dedicado ao Alentejo, editado em 1927, sublinha que “nos sítios de Esquível e do Ulmo os palácios brasonados, as janelas quinhentistas e as rótulas de gelosias evocam a lembrança da vetusta cidade rural que foi assento de príncipes, cunhou moeda, teve dentro dos seus muros o mais rico convento do Alentejo, e viu passar nas suas calçadas as cavalgadas brilhantes de Briquemault e Chamilly [Noel Buton]”. Mas Beja não era a mesma nem o tal Convento muito rico, antes pelo contrário, ao aparecer o capitão de cavalaria, o fidalgo francês Noel Bouton.

Que levou Mariana (“a grande amorosa Mariana Alcoforado, glória eterna do sentimento português”, escreve Brandão no texto já referido) e Noel a conhecerem-se?

Janela da Porta de Mértola, no Convento da Conceição

Aquilo que viria a ocupar lugar vitalício na Literatura aconteceu do modo mais natural: descobriram-se quando ela assomou à janela do convento sua preferida, a da Porta de Mértola, e ele surgiu, a exibir-se num cavalo de raça, e a viu.

Como se apaixonaram?

Uma mulher de 26 ou 27 anos, inexperiente, segregada, longe do mundo desde os 11 anos, viu um oficial garboso, um estrangeiro, um homem diferente.

Noel, no marasmo da província portuguesa, tão pobre comparada ao esplendor de Paris, de Versailles, topa uma beleza que o deslumbra –e ela própria, numa das suas cinco cartas enviadas para França, lhe recorda: “Encontrará, talvez, agora, uma vasta variedade de belezas (então [quando se amavam, em Beja], disseste- me que eu era invulgarmente bela)”.

Mais terra à terra: a monotonia do convento e o quotidiano insípido da pequena cidade soltam, deitam fogo a duas almas ansiosas por que alguma coisa aconteça. Era a aventura, que Mariana buscava e Noel cultivava.

O cavaleiro inesperado

Mariana deu-se, Noel divertiu-se.

Mero divertimento? De certo que não: Mariana tomou posse de Noel, prendeu-o por dentro.

Para o aristocrata rico, frequentador da corte de Versailles, habituado a amores que não passam de jogos –Mariana revela-se uma força, que o assusta.

Não calculara, fria e amoralmente mais um jogo -e lembro o amante da novela de Irene Lisboa, a crueldade gratuita a torturar Helena, ele a gozar esse poder-, não, isso não, Noel entusiasmara-se com a brincadeira.

Mas, a dado momento, a brincadeira, destinada a preencher o vazio de Beja, que prostitutas e álcool, divididos com Baltazar, amigo e proxeneta, não compensavam, transformou-se: Noel viu-se entalado naquilo que não queria nem podia querer: o dealbar da paixão que o ligaria a uma plebeia de um país pobre e quase desconhecido. Regressar a Paris acompanhado de uma freira raptada seria um desastre, seria o descrédito, seria queimar o futuro ambicionado.

E sacudiu a manta. Arreou o cavalo e abalou.

Depois de mil promessas de amor, de fidelidade, talvez sinceras, tanto crescera o entusiasmo.

Mas aquele sítio e aquela mulher não eram o que desejava. Ele queria a corte, Versailles, benesses e uma esposa rica, nobre, bonita ou feia, que importava? Uma mulher à sua altura.

Sofreu a escolha? Terá sofrido mas breve e superficialmente.

Abusara dela? Chegou-lhe, alguma vez, essa dúvida? Talvez haja existido esse remorso, ferida impertinente e incómoda, que logo procurara curar.

O doce Cupido é, porém, luciferino e não deixa em paz aqueles que lhe cederam e o acolheram.

De volta aos salões de Versailles, procurou, sistematicamente, apagar a memória de Mariana; também, justificar-se, diante dos valores do meio de que viera e a que regressava.

Um trabalho fácil: aos olhos da corte de Versailles, a freira de Beja não podia deixar de aparecer senão como leviana,  pecadora, igual a mulher da vida.

Noel Bouton contribuiu para essa imagem? Sim, contribuiu não reagindo à publicação das cartas nem aos comentários às mesmas, guardando o silêncio e, dizem, acabando por as destruir.

Destruí-las beneficiava-o a dois níveis: o próprio, uma vez que eliminava a presença da freira de Beja e enterrava a aventura tida com ela e cuja memória tanto o incomodava, tantas dúvidas ressuscitava; o público, pois, assim, desaparecia a prova de que Mariana as escrevera e a ligação, que ele não podia negar, fora mais que um passatempo, fora uma paixão cheia de podres.

Os anos correram, Noel Bouton teve as honrarias desejadas e o reumatismo físico e mental inevitável, esqueceu e enriqueceu; Mariana salvou-se guardando, bem guardada, a memória do único e breve momento em que amou, em que viveu.

       Mariana Alcoforado, litografia de Matisse

*** “Segundo declaração do próprio que vimos num processo do Santo Ofício em que foi testemunha” cito Manuel Ribeiro, no livro Vida E Morte de Madre Mariana Alcoforado,1940, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa. Para mim, a origem judaica dos pais de Mariana é uma questão em aberto. 

2 comentários:

  1. Muito interessante.
    Gostei bastante de ler; era uma personagem enigmática. Não sabia que tinha morrido com essa idade, pensava que tinha muito menos idade. Até porque não devia ser muito comum naquele tempo, uma tal longevidade.

    A imagem (já conhecia) é muito bonita.

    Um beijinho e desejo-lhe um bom fim-de-semana

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  2. Isabel, já leu as Cartas? Sim, não se vivia tanto... mas ainda bem! Ou erro? Aquela mulher viu-se "atirada" para um convento aos 11 anos... Não é justo.

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