Queixam-se alguns -poucos- da decadência do romance
português: referem esses poucos a industrialização das obras, para que as editoras (quantas
ainda há?), transformadas em pequenas indústrias, os publiquem; queixam-se, no
fim e ao cabo (evitemos o espanholismo “ao fim e ao cabo” e respeitemos a nossa língua tão rica!…), da decadência da Cultura, em Portugal.
E têm razão.
Poderiam queixar-se -e alguns queixam-se- do desaparecimento
de páginas culturais nos jornais.
E com razão.
Há dias, comprei, num alfarrabista saltimbanco, de rua, a
primeira edição, já muito maltratada, é certo, do livro de João Gaspar Simões, Pântano, por 1 Euro.
Lançada pela saudosíssima Editorial Inquérito, em 1940, com segunda e última reedição, sempre
da Inquérito, em 1946.
Quem o leu? Quem sabe o que esse romance existe, o que vale?
João Gaspar Simões não foi só o maior crítico literário português, foi, também, um romancista e novelista do melhor que tem a nossa Literatura contemporânea.
Mas um bando de ressentidos -não lhe perdou nunca a exemplar
independência- obstinou-se em desacreditá-lo; nos anos 60, um jovem-croquete
e sus muchachos imitaram-no: abaixo
Gaspar Simões!
E a coisa pegou: digamos, na tola preocupação de acompanhar a
modernidade (como se houvesse
modernidade e antiguidade gasta, na Literatura e na Arte em geral! Sófocles é
de hoje, Miguel Ângelo, idem, tal qual idem para Camões, Nobre, Sá-Carneiro,
Afonso Duarte… Camilo, Aquilino, Régio, etc.), os literatos e os aprendizes de
literatos não se atrevem a admirar, sequer a ler Gaspar Simões…
Mas vamos ao osso: Pântano,
além de um excelente romance, é um retrato apaixonante da Lisboa dos anos
40 e dos artistas dessa época.
Aqui vos deixo a chave (que o autor me cedeu):
Judite é Maria Helena Vieira da Silva; Levi, Mário Eloy; António Eusébio, António Navarro; José Acúrcio, José Bacelar; Aires
Dias, José Osório de Oliveira… Francine,
uma francesa que fugira aos nazis e procurara abrigo em Portugal…
Em suma: há, depois, a recriação de todo o ambiente desse
tempo.
Olha: se tiveres a sorte de topar Pântano, não o deixes fugir.
E lê os seus livros de crítica, as suas magistrais biografias
de Eça e de Pessoa!
Lê-o, aprende como eu procuro aprender: volto aos seus livros,
constantemente e eles sempre me ensinam mais alguma coisa.
Endireita a espinha: escolhe por ti!

Sim, um grande romance desconhecido da maioria. De facto, perguntas bem: "Quem o leu? Quem sabe o que esse romance existe, o que vale?"
ResponderEliminarO aspecto positivo é saber que, por outro lado, muita gente continua aberta e tenho a certeza de que muita gente vai tentar encontrar o livro! Não esqueçam a Livraria Lumière on line .- a Cláudia consegue milagres!
Eu até já me envergonho de dizer que ainda não o li. Há tanto tempo que o tenho...
ResponderEliminarMas em compensação, li há poucos dias e gostei muito do Tonio Kroger (outro dos que me recomendou). Trouxe-o da biblioteca, porque andei atrás dele muito tempo e não consegui arranjá-lo e agora por acaso descobri-o numa livraria onde vou de vez em quando...e comprei-o, claro!
Um beijinho grande :)
Isabel, parabéns pelo Tonio Kröger! E... leia o "Pântano", aprenderá muito. Um beijo.
ResponderEliminarManuel,
ResponderEliminarÉ sem dúvida um belíssimo e excelente autor.
A edição que tenho e li é exactamente esta!
Ando a ler a correspondência de GSimões com Jorge de Sena. Que recomendo.
Maria João, acertou; tenho a obra disponível para venda e... nesta edição!
Beijinhos para os meus três amigos.:))