terça-feira, 7 de outubro de 2014

A decadência da nossa Literatura e o medo que têm os leitores de julgarem por si



Queixam-se alguns -poucos- da decadência do romance português: referem esses poucos a industrialização das obras, para que as editoras (quantas ainda há?), transformadas em pequenas indústrias, os publiquem; queixam-se, no fim e ao cabo (evitemos o espanholismo “ao fim e ao cabo” e respeitemos a nossa língua tão rica!…), da decadência da Cultura, em Portugal.

E têm razão.

Poderiam queixar-se -e alguns queixam-se- do desaparecimento de páginas culturais nos jornais.

E com razão.

Há dias, comprei, num alfarrabista saltimbanco, de rua, a primeira edição, já muito maltratada, é certo, do livro de João Gaspar Simões, Pântano, por 1 Euro.

Lançada pela saudosíssima Editorial Inquérito, em 1940, com segunda e última reedição, sempre da Inquérito, em 1946.

Quem o leu? Quem sabe o que esse romance existe, o que vale?

João Gaspar Simões não foi só o maior crítico literário português, foi, também, um romancista e novelista do melhor que tem a nossa Literatura contemporânea.

Mas um bando de ressentidos -não lhe perdou nunca a exemplar independência- obstinou-se em desacreditá-lo; nos anos 60, um jovem-croquete e sus muchachos imitaram-no: abaixo Gaspar Simões!

E a coisa pegou: digamos, na tola preocupação de acompanhar a modernidade (como se houvesse modernidade e antiguidade gasta, na Literatura e na Arte em geral! Sófocles é de hoje, Miguel Ângelo, idem, tal qual idem para Camões, Nobre, Sá-Carneiro, Afonso Duarte… Camilo, Aquilino, Régio, etc.), os literatos e os aprendizes de literatos não se atrevem a admirar, sequer a ler Gaspar Simões…

Mas vamos ao osso: Pântano, além de um excelente romance, é um retrato apaixonante da Lisboa dos anos 40 e dos artistas dessa época.

Aqui vos deixo a chave (que o autor me cedeu):

Judite é Maria Helena Vieira da Silva; Levi, Mário Eloy; António Eusébio, António Navarro; José Acúrcio, José Bacelar; Aires Dias, José Osório de Oliveira… Francine, uma francesa que fugira aos nazis e procurara abrigo em Portugal…

Em suma: há, depois, a recriação de todo o ambiente desse tempo.

Olha: se tiveres a sorte de topar Pântano, não o deixes fugir.

E lê os seus livros de crítica, as suas magistrais biografias de Eça e de Pessoa!

Lê-o, aprende como eu procuro aprender: volto aos seus livros, constantemente e eles sempre me ensinam mais alguma coisa.

Endireita a espinha: escolhe por ti!

4 comentários:

  1. Sim, um grande romance desconhecido da maioria. De facto, perguntas bem: "Quem o leu? Quem sabe o que esse romance existe, o que vale?"
    O aspecto positivo é saber que, por outro lado, muita gente continua aberta e tenho a certeza de que muita gente vai tentar encontrar o livro! Não esqueçam a Livraria Lumière on line .- a Cláudia consegue milagres!

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  2. Eu até já me envergonho de dizer que ainda não o li. Há tanto tempo que o tenho...
    Mas em compensação, li há poucos dias e gostei muito do Tonio Kroger (outro dos que me recomendou). Trouxe-o da biblioteca, porque andei atrás dele muito tempo e não consegui arranjá-lo e agora por acaso descobri-o numa livraria onde vou de vez em quando...e comprei-o, claro!

    Um beijinho grande :)

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  3. Isabel, parabéns pelo Tonio Kröger! E... leia o "Pântano", aprenderá muito. Um beijo.

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  4. Manuel,
    É sem dúvida um belíssimo e excelente autor.
    A edição que tenho e li é exactamente esta!
    Ando a ler a correspondência de GSimões com Jorge de Sena. Que recomendo.

    Maria João, acertou; tenho a obra disponível para venda e... nesta edição!

    Beijinhos para os meus três amigos.:))

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