sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Há 37 anos, Pier Paolo Pasolini era assassinado, nos arredores de Roma


Pier Paolo Pasolini, em 1964, durante as filmagens d' O Evangelho Segundo São Mateus



No dia 2 de Novembro de 1975 (há 37 anos), o corpo sem vida de Pier Paolo Pasolini foi encontrado, algures, em Óstia, lugar do litoral romano.

Um corpo massacrado, trucidado, humilhado.

Das 16 às 18 horas, do dia anterior, o poeta-romancista-cineasta, concedera, ao velho amigo e jornalista Furio Colombo, aquela que viria a ser a última entrevista.

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L´’ultima intervista di Pasolini, publicada por Avagliano Editore, 2011, constitui um documento de arrepiante actualidade, um grito, uma denúncia, que emociona, indigna e responsabiliza.

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As razões do assassinato de Pasolini, conhecemo-las: desmascarava, incomodava, assustava, a “situação”, o establishment, a besta gananciosa –o sistema neo-liberal (o capitalismo financeiro) que um conservadorismo mesquinho e sovina e uma Igreja ambígua e tendencialmente passiva recebiam de braços abertos, sendo-lhe servos imorais.

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O “pecado” de Pasolini consistia, especialmente, em denunciar essa “situação”.

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A recusa foi, sempre, um gesto essencial, um gesto santo”, disse Pasolini, a Furio Colombo.

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Vistas as razões da linchagem de Pasolini e conhecido um dos assassinos ou, apenas, a isca, desconhecem-se os mandantes, provavelmente para sempre anónimos.

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Furio Colombo intitulou a humaníssima e desassombrada entrevista (discurso em carne viva): “Siamo tutti in pericolo”.

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Todos nós estamos em perigo: está em perigo a nossa identidade, a nossa humanidade, a verdade dos nossos destinos, ameaçados de ancilose e formatação.

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Transcrevo três passagens da última e lúcida, actualíssima entrevista de Pier Paolo Pasolini, que aponta a corda bamba, o trapézio dos pobres condenados, o inferno do nosso quotidiano:

“O que é a tragédia? A tragédia é não existirem já seres humanos, existirem máquinas estranhas que se destroem umas às outras.”

“A primeira desgraça: a educação colectivista, obrigatória e falhada, que nos atira para o redondel onde se deve ter tudo, a todo o custo. E, nessa arena, tangem-nos como se fossemos um rebanho ou um exército monstruoso em que alguém é o dono dos canhões e outro é o dono dos bastões. Escolha clássica é estar ao lado dos mais fracos. Mas todos nós somos fracos porque todos nós somos vítimas. E todos nós somos culpados porque todos nós aceitamos esse jogo de massacre.”

“… sinto nostalgia da revolução pura e directa da gente oprimida, a única revolução que a poderia libertar e torná-la senhora  de si própria.”

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Talvez tenha começado, nesse dia, o processo de destruição das conquistas sociais do após-guerra, do Estado Social, e o retorno e recomposição do capitalismo selvagem, carrasco da Cultura e da liberdade espiritual e promotor da nova escravatura.

Aliás, já somos, hoje, como temia Pasolini, novos escravos, condenados  à acefalia e à triste figura do cachorro de Pavlov.


Capa da edição francesa do opúsculo, que respeita o título de uma das edições italianas

9 comentários:

  1. Com certeza uma das figuras-chave da literatura italiana, do cinema e da Cultura contemporânea. Uma voz corajosa que alguns "precisaram" de calar...
    Apoio a escolha desta lúcida entrevista!

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  2. Sem dúvida, muito actual.
    Felizmente a sua força e a sua obra ficaram para fazer jus ao nome, à sua luta, à sua coragem.
    Conseguiram "calar" um Pasolini mas não conseguem calar a humanidade!
    Justamente lembrado.

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  3. gostei muito que tivesse colocado aqui esta entrevista, bem como da oportunidade de o ter feito. Obrigada.

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  4. Nada a acrescentar, bem hajam pelo modo generoso como leram este post.

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  5. lenço de papel, sou eu quem lhe agradece a atenção. Admiro muito PPP e foi uma das grandes descobertas da minha vida, quando cheguei a Roma, em Janeiro de 1975. À altura, campava no Corriere dalla Sera, uma polémica apaixonante, entre PPP e Italo Calvino. A Itália fervia. Tempos inesquecíveis. Por lá fiquei 15 anos. Um abraço.

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  6. Lúcida e muito actual.
    Continuamos a cometer os mesmos erros.

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  7. Um post lúcido e actualíssimo.
    (Pelos vistos, a teia já estava a ser tecida há muito tempo)
    Não tenho comentado, mas agradeço-lhe a resistência e a lucidez, verdadeiro exemplo de cidadania.

    Abraço

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  8. Obrigado pelas suas palavras. Um grande abraço!

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  9. Isabel, infelizmente, o que levou ao assassínio de PPP é o que hoje destrói o nosso país, a Europa, ameaça o mundo: a ganância do capitalismo financeiro. Um grande abraço!

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