domingo, 25 de novembro de 2012

Memória de um dia de anos


"Cantigas, Para Minha Mãe No dia dos seus anos, José Maria dos Reis Pereira, 6 de Junho de 1925"

O nº 4-5, Junho-Dezembro de 1999, boletim do Centro de estudos regianos, editado pela Câmara Municipal de Vila do Conde, intitula-se Trinta Anos, José Régio (1901-1969) e apensa o caderninho cuja capa reproduzo acima.

Aqui te deixo as seis quadras manuscritas que o poeta de Cântico Negro ofereceu a sua mãe:


1.

Ser poeta é achar deleite
Nas suas próprias feridas.
Ai dos seios que* dão leite
As bocas tão iludidas!

2.

Que o filho lhe mal pagava
Queixou-se-me certa mãe.
-Nem a vida lhes chegava,
Se os filhos pagassem bem!...

3.

Quem tem um filho apartado,
Sofre com dois corações:
Um, tem-no em si bem fechado;
Outro… lá longe aos baldões.

4.

Se me lembro de morrer,
Certa voz me apazigua:
Ouço minha mãe dizer:
“-Essa vida não é tua…”

5.

Cria uma mãe seu menino:
Cresceu… seguiu novos trilhos.
-E é para êsse destino
Que as mães dão azas aos filhos!

6.

Minha mãe, se eu te perder,
Farei de branco o meu luto:
Que é Santa toda a mulher
Que dá poetas por fruto!

Coimbra, 1925
José Régio ainda jovem

*no original manuscrito, Régio coloca um til sobre a letra q; o meu computador esquivou-se a fazê-lo.

3 comentários:

  1. São lindas as quadras(já conhecia) de um grande poeta. Gosto especialmente da quinta.
    Um beijinho

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  2. Isabel, a quadra que prefere é das mais fortes, talvez, dolorosa. Boa noite e uma boa semana. Um grande abraço.

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