“O romance escrito em
seguimento daquele foi o Amor de Perdição.
Desde menino eu ouvira contar a triste história de meu tio paterno, Simão
António Botelho. Minha tia irmã dele, solicitada por minha curiosidade
romanesca, estava sempre pronta a repetir o facto, aligado à sua mocidade.
Lembrou-me naturalmente na cadeia, muitas vezes, meu tio, que ali devera estar
inscrito no livro das entradas, e no das saídas para o degredo. Folheei os
livros desde os de 1800, e achei a notícia com pouca fadiga, e alvoroços de
contentamento, como se em minha alçada estivesse adornar-lhe a memória, como
recompensa das suas trágicas e afrontosas dores em vida tão breve. Sabia eu que
em casa de minha irmã estavam acantoados uns maços de papéis antigos, tendentes
a esclarecer a nebulosa história de meu tio. Pedi aos contemporâneos, que o
conheceram, notícias e miudezas, a fim de entrar com consciência naquele
trabalho. Escrevi o romance em quinze dias, os mais atormentados da minha vida.
Tão horrorizada tenho deles a memória, que nunca mais abrirei o Amor de Perdição, nem lhe passarei a
lima sobre os defeitos nas edições futuras, se é que não saiu tolhiço
incorrigível da primeira. Não sei se lá digo que meu tio Simão chorava, e menos
sei se o leitor chorou com ele.”
in Memórias do Cárcere, citado por José Viale Moutinho no seu precioso e
apaixonante Camilo Castelo Branco,
Memórias Fotobiográficas, Editorial Caminho, 2009

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