sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Nos 150 anos de "Amor Perdição": o que disse Camilo

Cartaz do filme realizado por António Lopes Ribeiro, 1943


“O romance escrito em seguimento daquele foi o Amor de Perdição. Desde menino eu ouvira contar a triste história de meu tio paterno, Simão António Botelho. Minha tia irmã dele, solicitada por minha curiosidade romanesca, estava sempre pronta a repetir o facto, aligado à sua mocidade. Lembrou-me naturalmente na cadeia, muitas vezes, meu tio, que ali devera estar inscrito no livro das entradas, e no das saídas para o degredo. Folheei os livros desde os de 1800, e achei a notícia com pouca fadiga, e alvoroços de contentamento, como se em minha alçada estivesse adornar-lhe a memória, como recompensa das suas trágicas e afrontosas dores em vida tão breve. Sabia eu que em casa de minha irmã estavam acantoados uns maços de papéis antigos, tendentes a esclarecer a nebulosa história de meu tio. Pedi aos contemporâneos, que o conheceram, notícias e miudezas, a fim de entrar com consciência naquele trabalho. Escrevi o romance em quinze dias, os mais atormentados da minha vida. Tão horrorizada tenho deles a memória, que nunca mais abrirei o Amor de Perdição, nem lhe passarei a lima sobre os defeitos nas edições futuras, se é que não saiu tolhiço incorrigível da primeira. Não sei se lá digo que meu tio Simão chorava, e menos sei se o leitor chorou com ele.”

in Memórias do Cárcere, citado por José Viale Moutinho no seu precioso e apaixonante Camilo Castelo Branco, Memórias Fotobiográficas, Editorial Caminho, 2009  

Sem comentários:

Enviar um comentário