"Nu", 1939, óleo de Victor Brauner (1903-1966)
Um quadro de Brauner
Brauner põe-se a pintar
a procura o fundo apego
do homem à pele do medo
Desfaz as linhas do corpo
como se linhas das mãos
dá ao sexo o lugar
que dá à flor
Brauner pinta com a língua
ou outro órgão do amor
o que o braço não podia
tanto é a cor mais dura
com o peso da sabedoria
Mostrar um pássaro na mão
é o que Brauner consegue
mas tão-somente essa mão
pica no pássaro que a fere
Mostrar o orifício oco
da orelha colocada
no lado onde a sentimos
ouvir e morrer calada
sobre o veneno do bico
tentando beijá-lo abri-lo
tentando ouvi-lo escutá-lo
O ser que pode ser
aquilo que Brauner não quer
move-se na tela com o medo
de quem perdeu a sombra
num deserto ao meio-dia
uma claustrofobia
do espírito dentro da luz
Luíza Neto Jorge (1939-1989) in Terra Imóvel, 1964

Um conjunto harmonioso entre a poesia e a tela.
ResponderEliminarBeijinho.