"O semeador, ao pôr do sol", 1888, óleo de Van Gogh
Fui dos que deram o pontapé de saída à saudosa revista O Tempo e o Modo -e honro-me disso. Logo no número 1, com a crítica ao romance O Manto, de Agustina Bessa-Luís.
Tenho aqui à minha frente o primeiro exemplar da revista, datado de Janeiro de 1963 –há 48 anos!-, e não resisto a transcrever o final desse ensaiozinho:
“E para além de todos os defeitos, todos os desequilíbrios, todos os excessos, Agustina Bessa-Luís permanece o caso mais importante da nossa actual literatura em prosa de ficção e um dos casos mais sérios da nossa literatura de sempre a exigir projecção internacional que só a língua portuguesa lhe tem negado.”
Hoje, Agustina consolidou o seu lugar indisputável na Literatura Portuguesa, ultrapassou fronteiras e é conhecida e admirada, pelo mundo.
Foi na redacção d’ O Tempo e o Modo que conheci, brevemente, Cristovam Pavia –e lembrá-lo me trouxe, afinal, aqui.
Tão breve aconteceu o nosso estranho encontro que nos limitámos e apertar as mãos e a dizermos “muito prazer”, no gabinete do Pedro Tamen, onde nos cruzámos.
O seu olhar foi igualmente breve, mas intenso, amável e... incompleto.
Enquanto eu falava com Tamen, Cristovam Pavia ia e vinha, a murmurar o inaudível, em passos rápidos, de cá para lá da sala. Seguia-o com o olhar, a tentar perceber.
O que lhe fervia dentro? O que quereria dizer? Comunicar? O que o inquietava? O torturava? Lhe pesava, o sufocava?
Olhos fitos no chão, de cá para lá...
Uma sombra viva, ensimesmado e angustiante.
Nunca mais voltei a vê-lo.
O seu suicídio não me surpreendeu: doeu-me.
Naquela tarde, ele preanunciava-o. E eu nada fizera para o impedir. Depois, outros terão também falhado. O combate de Cristovam Pavia deu-se em zonas infelizmente inatingíveis, tragicamente, pessoais.

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