D. Quixote: estaremos vivos enquanto acreditarmos na sua luta
Em Dezembro de 1960, António José Saraiva, exilado político em França, publicou um livro, Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes, imediatamente retirado do mercado pela censura salazarista.
É dessa obra, admirável e actualíssima, que transcrevo as seguintes passagens, arrumadas no capítulo Juventude:
“A sua atitude [da juventude] implica a condenação de uma sociedade que amputa e atrofia as virtualidades do indivíduo e traduz-se por vezes no anseio de uma sociedade mais perfeita, encomendada e construída à medida do homem, organizada para o seu florescimento, e não para o seu sacrifício e mutilação.
(...) neste seu sentimento a juventude não fala apenas por si própria, antes pela totalidade dos homens, inclusive aqueles que já se resignaram à mutilação, e a sua voz é um protesto de espontaneidade da Natureza contra as servidões desumanas.”
E aborda os deveres da pedagogia:
“O educador tem a função de desenvolver as virtualidades do educando, como se o preparasse para a liberdade. Isto só pode agravar o traumatismo da adaptação do jovem a um mundo regido pelo princípio da sujeição. Mas, por doloroso que seja este choque, não há que evitá-lo, porque, entre outras razões, a educação para a liberdade é um factor de transformação da sociedade. Quero dizer que há que fomentar na juventude o seu sentimento de disponibilidade; há que a fortificar na sua utopia; há que conservar o seu potencial transformador.”
E conclui:
“O diálogo entre a juventude e os adultos só teria sentido se uns e outros colaborassem na transformação da realidade social de modo que esta deixe de ser a negação das virtualidades e promessas do jovem. Mas justamente encontramo-nos numa sociedade que condena o jovem a assassinar a sua utopia antes de aceder aos postos donde poderia realizá-la, com ela enterrando a sua juventude. O diálogo não é possível, em condições normais, nesse mundo em que os adultos são cadáveres de jovens.”
***** António José Saraiva dedica o livro a outro exilado, esse, exilado do interior, como tantos, no tempo da peste: António Sérgio, grande esquecido; e explicita que o dedica porque admira nele "a indelével acção pedagógica, a claridade intelectual e o heróico exemplo".
***** António José Saraiva dedica o livro a outro exilado, esse, exilado do interior, como tantos, no tempo da peste: António Sérgio, grande esquecido; e explicita que o dedica porque admira nele "a indelével acção pedagógica, a claridade intelectual e o heróico exemplo".

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