terça-feira, 29 de novembro de 2011

A frase do dia: a Guarda e a Beira, no séc. XVIII, o amor à Cultura e as Inquisição a espreitar, torturar, matar, apagar... à esquina

Cítara




“[Ribeiro Sanches] Conservou-se em casa dos pais até aos 13 anos, e frequentou a escola de latim, manifestando uma grande inclinação para a leitura. (...) Feitos os 13 anos, o pai mandou-o para a Guarda “para aprender a tocar cítara, etc.” Nesta cidade morava sua tia materna Leonor Mendes, viúva do sapateiro António Rodrigues (...). Em casa dela o encontrou anos depois seu segundo primo Diogo Nunes. (...) Este recomendou-o a um seu amigo, já entrado em anos, e muito dado à leitura; era um cristão-novo que tinha passado pela inquisição mas que resumia as suas convicções neste pensamento digno de Montaigne: Verdade e caridade bastam para ser homem de bem. Foi este homem que, no mesmo tempo que lhe fazia ler e repetir a Crónica de D. Manuel de Goes, lhe começou a falar na distinção entre cristãos velhos e cristãos novos (...) Três ou quatro anos se demorou Sanches na Guarda, tempo que evidentemente não foi consagrado apenas a aprender o poético instrumento que levara o pai a afastá-lo de si. Provavelmente completaria os seus estudos de latim (...)”

Maximiano Lemos, in RIBEIRO SANCHES, A SUA VIDA E A SUA OBRA, Eduardo Tavares Martins editor, Porto, 1911

p.s. não resisto a sublinhar: há mais de duzentos anos, a formação de um jovem -de um homem- passava pelo estudo aprofundado das humanidades e das artes –e, no convívio com elas, se formariam e revelariam as vocações.

Vocações? Que é feito delas, hoje? E as humanidades? As artes?

A Cultura?

Pobre país o nosso que tão vertiginosamente precipitam na ignorância!

A nova inquisição, que tanto perseguiu a família de Sanches e o obrigou a emigrar, sendo, longe da pátria, sempre amada, uma das personalidades mais respeitadas da Europa do tempo e médico consideradíssimo, a nova polícia, que nos castra e joga na miséria chama-se plutocracia -mercado, capitalismo selvagem.

E que importa, a esses salteadores, a Cultura, o Homem realizado na plenitude do seu ser -quando eles próprios, predadores, a esquecem e gozam, da curta viagem da vida, o superficial, o gratuito, o inconsequente?

Só quando a foice assobia, caminho deles, se espantam de não a terem nunca comprado... ou liquidado...    

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