Quem não sabe é como quem não vê... ou a nossa incultura cívicaAs palavras do Cardeal Patriarca sobre os políticos, cuja eventual venalidade generaliza, parecem-me não só excessivas -por generalizadoras- como infelizes.
Não é por elas que venho, ainda que ilustrem o que me preocupa e, mais uma vez, aqui me traz.
Antes do essencial, transcrevo o que diz Gérard Courtois, colunista de Le Monde (13/09/11), abordando, aliás, aquilo que tenho por básico.
Depois de assinalar o aumento, em França, da abstenção aos actos eleitorais (de 54% a 60%), alerta:
“De que modo evitar que o combate político não surja aos olhos da maioria como um teatro de sombras, um jogo de falsários. À boca do palco, ouvem-se aparatosas tiradas acerca da “república intocável”, dos compromissos irrevogáveis, das virtudes orçamentais, do esforço de todos e juramentos de trabalhar para o bem comum. Nos bastidores, acontece a guerra sem mercê, em que os fins justificam todos os meios e todos os golpes baixos, desde que se trate de poder e dinheiro.”
Assinala Courtois o afastamento, a distância progressiva, entre os cidadãos e os políticos; acena à luta, sem escrúpulos pelo poder e pelo dinheiro.
E refere a França.
Lá como cá, sem dúvida, a corrupção tem minado a política, realmente e com frequência, tornada em comédia, em jogo, que acontece numa esfera alheia ao cidadão comum.
O que não quer dizer que, desde o 25 de Abril de 1974, todos os políticos tenham sujado as mãos e enchido os bolsos, com a sua actividade.
Aquilo que me preocupa é verificar o alarmante cavar e alargar de um fosso, entre cidadãos e políticos.
A França é um país de grandíssima tradição democrática e corrigirá, facilmente, o desvio.
Portugal renasceu para a democracia há 37 anos, saído de uma ditadura ancilosante e castradora, que durou quase 50 anos.
De uma ditadura que sonegou direitos cívicos e desenvolveu a ignorância.
País de gente pouco informada dos seus deveres e obrigações cívicas, do que possa ser um Contrato Social, um Estado, acontecer, nele, o divórcio dos cidadãos e da política é abrir a porta ao populismo, ao retrocesso, à desdemocratização do viver em comum.
Para o evitar, os partidos políticos deveriam ter presente essa realidade, essa situação muito grave.
Os seus lugares não podem ser à margem.
Os partidos não podem assumir-se como clubes nem escolas onde se conseguem carreiras rendosas e... elitistas.
Os seus deputados têm de conhecer quem os elege e debater com os eleitores as decisões a tomar –não pode ser deputado por um lugar quem nunca lá viveu ou, pura e simplesmente, o desconhece.
Os políticos têm de estar na rua, de encontrar as pessoas, de ouvir e responder -têm de se explicar.
As velhas “sessões de esclarecimento” deveriam ser recuperadas.
Elas ajudariam a diminuir a ignorância política do povo português.
Tudo isso recuperará a honra e a dignidade da política -que é, afinal, a discussão livre da organização da sociedade, a escolha e defesa de um contrato social.
O exercício da política é, há milhares de anos, a defesa da democracia, a defesa dos direitos e o cumprimento dos deveres dos cidadãos.
Da política sem mácula.
E o Cardeal Patriarca, generalizando a eventual desonestidade dos políticos, empurrou os cidadãos para a indiferença suicida:
para não quererem saber do governo, dos deputados... dos políticos... dos seus direitos e deveres...
...e entregarem a chave da casa a desconhecidos, eventualmente a vigaristas especializados no roubo, no autoritarismo, no abuso do mais fraco.
Parecia a lenga lenga do nobre fernando de má memória.
ResponderEliminarUm abraço,
mário