
Está dito e redito, provado e contraprovado, que o regime pluvial duma região é condicionado acima de tudo pela sua arborização. Mas não é tudo. A árvore com o seu reticulado subterrâneo reprime a água, disciplina-a de modo que, mercê da sua acção moderadora, nem estalam as madres das nascentes que arrasam os campos, nem os rios correm a monte levando pontigos e alpodras. A árvore, além de condensador ideal, é um repartidor exímio (...). Ora estes derradeiros tempos tem-se desarborizado desalmadamente sem rei nem roque. Oiteiros, outrora vestidos do verde movediço e espumoso dos bosques, estão hoje hediondamente nus. A falta de combustíveis por um lado, aa construção intensiva por outro, levou ao despovoamento das matas. Em breve os castanheiros serão tão raros como na fauna marítima o é a baleia, e os velhos pinheiros, donde era grato ouvir as rolas, e os carvalhos, onde pousavam os gerifaltes ufanos, são derrubados para sulipas e aplicações rendosas.
(...) O homem de hoje procede como se o mundo acabasse amanhã. Quão longe em seu ânimo daquele felá que aos cem anos andava a plantar árvores, com espanto do califa! A Lusitânia devia ter sido uma bela terra, habitada por gente ágil, esperta, valente e formosa, quando era floresta pegada desde o Minho ao Algarve. Hoje o que se vê são narizes tortos, os semblantes da vil tristeza.”
Aquilino Ribeiro, in Aldeia, Terra, Gente e Bichos, 1946
Tanta verdade no que diz Aquilino...
ResponderEliminarEstá bem actualizado.
ResponderEliminarPodia ter sido escrito agora.
Um abraço
Isabel: o nosso país tem vindo a ser esquartejado e desertificado, dia a dia.
ResponderEliminarGostei muito de ler este trecho, há tanta verdade, lamentavelmente, em tudo o que Aquilino escreveu.
ResponderEliminarAbraço!