...ao nada... Era o que dizia Reinaldo Ferreira, nos belíssimos versos a Rosie: que partout, everywhere, em toda a parte,/ A vida égale, idêntica, the same,/ É sempre um esforço inútil,/ Um voo cego ao nada. Talvez. Mas de qualquer maneira é um voo, asas abertas, a subir em direcção ao nada, que também poderá ser a inconcebível realidade do infinito. O infinito não é concreto e nós não conseguimos viver com aquilo que não reduzimos, racionalizamos -metemos e fechamos dentro da nossa estreitinha razão. Voar? Cada vez mais só as aves. Cada vez mais nos agarramos ao rasteiro, cada vez mais imitamos os vermes, pressurosos, apressados, a fugir, e gordinhos. Mais ou menos gordinhos, conforme a venda de nós próprios. Ou dá ou não dá. Não voamos, rastejamos. Quem disse que o infinito é nada? E quem perdeu a coragem, já não ama os abismos? Régio, que se entregou a eles, citava Nietzsche, em epígrafe de Biografia, com a crueza que era a sua: Quando se ama o abismo, é preciso ter asas. As nossas asas mirraram. E deixámos de exigir ao nada que se revelasse, que nos explicasse se, dentro, não levava, de facto (e como todos nós sonhámos), o absoluto: a tal coisa a mais que resolve a chateza dos dias.
Os dias são chatos conforme. Depende da volta que se lhes dá. Tomaz de Figueiredo aconselhava que saíssemos para a rua com uma rosa ao peito. Além de ser mais bonito, era uma aventura: mas o que é que diriam os outros? Por isso, deixamos a rosa em casa, a murchar na jarra, e preferimos sair de “executivo”, com dívidas, ou sem elas, desasados, à maneira de todos. Saímos também murchos: “normalizados”. Pior: anestesiados. Não queremos as nossas dores -voar é, realmente, um risco- nem as dores de ninguém. E quem é que nos anestesia? A catadupa de “informações” que nos atiram para cima televisões e jornais. Essa avalanche absolve o nosso egoísmo: “Oh!, coitados, que injustiça!” E viramos a página ou mudamos de canal, como quem muda de restaurante. O que nos servem são desgraças bastantes para sofrermos um bocadinho e passar adiante. Um dos empregados do café onde vou, provado por essa realidade, que não é fácil, a propósito de uns clientes bem instalados na vida, que desancavam tudo, comentou, para mim: “É muito fácil ser revolucionário, com a barriga cheia....” Pois é: não custam os bons sentimentos, quando não se dá mais do que... bons sentimentos...
Gente dessa sobra, no inferno... Mas o inferno é aqui -já denunciava Camilo. Não porque nos matamos uns aos outros, isso é o trivial. O inferno é aqui porque nos matamos a nós, desistindo do tal voo. O meu cão Zac, no último dia da sua vida, ainda espreitou, procurou e, naturalmente, cheirou.



