sexta-feira, 15 de maio de 2009

O voo cego...



...ao nada... Era o que dizia Reinaldo Ferreira, nos belíssimos versos a Rosie: que partout, everywhere, em toda a parte,/ A vida égale, idêntica, the same,/ É sempre um esforço inútil,/ Um voo cego ao nada. Talvez. Mas de qualquer maneira é um voo, asas abertas, a subir em direcção ao nada, que também poderá ser a inconcebível realidade do infinito. O infinito não é concreto e nós não conseguimos viver com aquilo que não reduzimos, racionalizamos -metemos e fechamos dentro da nossa estreitinha razão. Voar? Cada vez mais só as aves. Cada vez mais nos agarramos ao rasteiro, cada vez mais imitamos os vermes, pressurosos, apressados, a fugir, e gordinhos. Mais ou menos gordinhos, conforme a venda de nós próprios. Ou dá ou não dá. Não voamos, rastejamos. Quem disse que o infinito é nada? E quem perdeu a coragem, já não ama os abismos? Régio, que se entregou a eles, citava Nietzsche, em epígrafe de Biografia, com a crueza que era a sua: Quando se ama o abismo, é preciso ter asas. As nossas asas mirraram. E deixámos de exigir ao nada que se revelasse, que nos explicasse se, dentro, não levava, de facto (e como todos nós sonhámos), o absoluto: a tal coisa a mais que resolve a chateza dos dias.

Os dias são chatos conforme. Depende da volta que se lhes dá. Tomaz de Figueiredo aconselhava que saíssemos para a rua com uma rosa ao peito. Além de ser mais bonito, era uma aventura: mas o que é que diriam os outros? Por isso, deixamos a rosa em casa, a murchar na jarra, e preferimos sair de “executivo”, com dívidas, ou sem elas, desasados, à maneira de todos. Saímos também murchos: “normalizados”. Pior: anestesiados. Não queremos as nossas dores -voar é, realmente, um risco- nem as dores de ninguém. E quem é que nos anestesia? A catadupa de “informações” que nos atiram para cima televisões e jornais. Essa avalanche absolve o nosso egoísmo: “Oh!, coitados, que injustiça!” E viramos a página ou mudamos de canal, como quem muda de restaurante. O que nos servem são desgraças bastantes para sofrermos um bocadinho e passar adiante. Um dos empregados do café onde vou, provado por essa realidade, que não é fácil, a propósito de uns clientes bem instalados na vida, que desancavam tudo, comentou, para mim: “É muito fácil ser revolucionário, com a barriga cheia....” Pois é: não custam os bons sentimentos, quando não se dá mais do que... bons sentimentos...

Gente dessa sobra, no inferno... Mas o inferno é aqui -já denunciava Camilo. Não porque nos matamos uns aos outros, isso é o trivial. O inferno é aqui porque nos matamos a nós, desistindo do tal voo. O meu cão Zac, no último dia da sua vida, ainda espreitou, procurou e, naturalmente, cheirou.













O dia de hoje...


É uma confusão mansa. Uma intriguinha de escada. Uma campanha que nem é alegre –mas, sempre, queiroziana. Não escrevemos as páginas do Pobre homem de Póvoa do Varzim (afinal, talvez, quem sabe?, de Vila do Conde...). Mas, no fim e ao cabo, já estávamos lá, na tal Campanha Alegre, que o Eça escreveu n’As Farpas... Essa, sim, é alegre, faz rir, faz bem à gente, ajuda a digestão. Esta aflige: medíocre, pequenina, caseira –de porteira e mirone à janela, como se Portugal fosse só cinco letras... Anda por aí o desemprego, o susto, depressões e angústias, ninguém sabe do dia de amanhã. Vai haver pão? E as reformas??? E hospitais, urgências??? Os professores fogem, os professores minguam, os professores foram proibidos de pensar, ensinar... As crianças vão aprender a ler? E o banco não paga, a empresa faliu, o café fechou... E, agora, o Algarve? Mataram as férias? Mataram o verão, os fins de semana????
E o que preocupa os jornais, o que apregoam os noticiários radiotelevisivos é que Vital Moreira incomodou Sócrates...

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
Linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,

......................................................

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...



assim poetava, com azia a roer-lhe o estômago, Alexandre O´Neill, há 44 anos...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um soneto de Nunes Claro, que nasceu, em Lisboa, no ano de 1878 e faleceu, em Sintra em 1949

Vieste tarde, meu amor! Começa
em mim caindo a neve devagar;
morre o sol, o Outono cai depressa
e o Inverno, finalmente, vai chegar;


e se hoje andamos juntos, na promessa
de caminharmos toda a vida a par,
daqui a pouco, o teu amor tem pressa
e o meu, daqui a pouco, há-de cansar.


Dentro em breve, por trás das velhas portas,
dando um ao outro só palavras mortas,
que rolam mudas pelas nossas vidas,


ouviremos, nas noites desoladas:
tu, a canção das vozes desejadas;
eu, o chorar das vozes esquecidas.
é provável que desse poeta discreto pouco mais fique do que este belo soneto...

O dia de hoje...



Alguém se lembra desta peça? Alguém se lembra deste autor? Eu não me refiro aos estudiosos, aos especialistas, esses lembram-se, com certeza. Penso no leitor comum, no espectador comum... Tão raramente vejo citado Bernardo Satareno, vejo no teatro A Promessa! Já sabemos que o canibalismo se instalou na feira literata: a famosa e vergonhosa arte do arreda: ‘chega p´ra lá que o lugar é meu...’ A técnica do silêncio, de enterrar o próximo cuja sombra se teme, vivo ou morto... A táctica de má língua ou da nenhuma língua.

Bernardo Santareno é um dos nossos melhores dramaturgos. Por acaso, foi meu amigo. Conheci-o, nos idos de 1956, na Pastelaria Paraíso, Rua de Alexandre Herculano, em Lisboa. Apresentou-me o meu irmão Eurico. Desse grupo de jovens idealistas, fazia parte Graça Pina de Morais. Idealistas; anteriores, pois, aos cinzentos produtos daquilo a que se chama, hoje, post-ideologia... Artistas desejosos de se verem publicados e, naturalmente, admirados... Graça Pina de Morais estava apaixonada por Santareno, que não correspondia, se bem muito a estimasse –e, infelizmente, toda a vida ela viveu e sofreu essa paixão. Santareno era um homem encantador, simples, generoso e culto. Com ele aprendi muita coisa. Não era um literato, era um homem profundamente humano. Aliás nisso residia a diferença positiva daqueles jovens: não olharem para a Arte como uma “carreira”, verem-na como vocação, missão. Eram anti-literatos.

Rcordo a ida ao Norte, onde estreou, em 1957, no Teatro Experimental do Porto, A Promessa, encenada por António Pedro e com dois actores extraordinários: Dalila Rocha e João Guedes. A peça foi um sucesso –e, imediatamente, nasceu a inveja, o escárnio e o mal dizer... O pior que se pode fazer a um autor é insinuar-lhe parentescos: “É do género do Tchekov... é do género do Claudel... cheira, tresanda a Brecht...”, e por aí adiante. Ora logo descobriram os despeitados que Santareno era... filho do Lorca. A resposta de António Pedro foi de mestre: arrasadora: ‘Mais vale ser filho do Lorca do que filho da puta!”

Mas não arrasou nada: o assassínio, o silenciamento de Bernardo Santareno prossegue. Devagarinho, subtil, encapotado –porque os frustrados e os canibais são manhosos e covardes.

Páginas de um Diário Público



De vez em quando, volto a abrir Apontamentos, de Irene Lisboa. Não sei se é uma edição de autor. Ela tinha dificuldade em arranjar quem a editasse. Nunca foi -alguma vez será?- uma autora de sucesso. Hoje, muito menos poderá sê-lo. Não porque as pessoas tenham ficado menos capazes de apreciar os livros, o que aconteceu é que a arte se transformou num “produto”, que se explora como se explora a venda de sapatos.
E, daí, talvez, pouco a pouco, o público vá piorando, nele definhe a exigência, vítima de uma avalanche de vulgaridade que o deforma. Olho à volta: o ensino prepara alguém para alguma coisa? Esta geração sobreviverá, culturalmente, à vertiginosa decadência do ensino?
A educação: nisso, o 25 de Abril falhou –e é trágico que falhasse. E, com este governo de socialismo capilé, de neo-liberalismo mal disfarçado, em que uma ministra da educação incompetente, irresponsável, desprestigiou professores e currículos –o que ficará, mais do que o acumular de títulos académicos sem nenhum valor?
Porque o valor não está nos títulos; esses arranjam-se, inventam-se, fabricam-se; está naquilo que cada um sabe. E os alunos acumulam títulos e ignorância. O ensino tornou-se a escola da ignorância.

Há, por detrás disso, interesses económicos? Se os há, são interesses suicidas. Alarga-se a ignorância e perde a sociedade qualidade. Governa-se mais facilmente uma sociedade imbecil, que se contente com a superficialidade –não pense, gaste a vida na compra e uso de coisas? Ela convém, a uma minoria exploradora, a maioria inconsciente e irresponsável, sugadora? Convém –mas chega, inevitavelmente, o dia em que a maioria alienada se transforma em massa inútil: perde cultura, conhecimento, qualidade intelectual; não inventa, não cria, perde o mínimo de poder económico que lhe permita continuar a assegurar o “mercado” em que as minorias apostaram tudo e onde chupam o dinheiro. O suicídio das minorias não me preocupa; inquieta-me ver que ele arrasta a agonia das maiorias exploradas, escravizadas, comandadas. E estou a ver.

Irene Lisboa, Apontamentos... Reabro o livro e retomo uma conversa que faz pensar. Por exemplo: a beleza? A maravilha do mundo, que nos emociona? Que nos arrebata... Que nos reconforta... Diz Irene: ‘A cor diversa do chão, as linhas de divisória, as árvores, os caminhos batidos... A curva de uma certa estrada entre vinhas dava-me tanto gosto! Vê-la, do meu ponto de mira, era o mesmo que ajudar à criação de um mundo de formas... Inaplicadas, certamente, apenas interessantes pela força de não sei que arrebatamento do espírito. Apenas belas!’

Inaplicadas? Inúteis? "Improdutivas"? Apenas belas graças à recriação da sua, da nossa força espiritual –os tesouros da Terra, a poesia do Universo? Ao interrogar-se, Irene parece insegura. Em 1943, a obrigação de fazer arte "empenhada", a ditadura da arte socialmente útil, do realismo socialista, ia-se impondo. Entre nós, o jadnovismo (que gerou medíocres escritores neo-realistas) pesou, até há pouco tempo. Durante o salazarismo, foi uma censura paralela.
Mas Irene Lisboa, hesitante, levantava uma questão essencial: a do Espírito e da sua relação com a matéria; a da realidade (ou existência) da matéria, sem o Espírito. Fala de um mundo adormecido, que nós arrancamos ao silêncio e animamos dentro da nossa alma. A frieza, o gelo do Universo, o silêncio da Terra –como seria ele, sem as criaturas de Deus: nós e os mais, esses mais que encantaram o santo de Assis?... Não somos nós, criaturas de Deus, que emprestamos beleza ao Universo? E não é graças a nós que essa beleza existe? Eles não voltam a morrer, cada vez que alguém morre, e não renascem, quando outro alguém abre os olhos para eles?

É de Raul Brandão, o protesto (perplexidade): ‘Morrer é não conceber mais nada. O que me custa é deixar a outra vida que só concebo nesta vida -é a discussão- é o sim e o não, oh talvez! –é a personalidade e o sonho.’

Sonhamos, interiorizamos a vida, descobrimos (inventamos?) o outro lado da vida e ela passa a ter sentido. Sem o nosso sonho, tudo seria absurdo.



quarta-feira, 13 de maio de 2009

Memória de Vitorino Nemésio, poeta clandestino




As minhas primeiras imagens de Vitorino Nemésio devem ter mais de quarenta anos, no largo que separa as Faculdades de Letras e Direito, em Lisboa -desde logo, imagem diferente para o que era, professor universitário. E foi-o sempre: especial, singular. Nem poderia deixar de sê-lo, se pensarmos nas obras que deixou: “Mau Tempo no Canal”, “A Casa Fechada”, todas as poesias, as charlas envolventes, “Se bem me lembro”, na RTP, graças ao grande director de programas de então, Carlos Miguel de Araújo. Digamos que Nemésio era um intruso no meio académico português, este, “limpo e domesticado” (raríssimas as excepções), ao gosto do ditador da época, oferecido ao país pela nata ultramontana coimbrã. O homem que eu vi transpirava humanidade; também, uma qualidade raríssima, quase proibida, “clandestina”: o informalismo. E, no entanto, ele atentara, também, em Coimbra, ela interessara-o -mas a Coimbra do Espírito livre, a de “presença”, de Régio, de Branquinho da Fonseca, de Torga (data de 1930 a sua primeira colaboração na revista). E escapara-se logo, “escritor que a si mesmo se procura”, como o definiu Gaspar Simões, certeiramente. Distinguiu-se e afirmou-se, bem à sua maneira -no fim e ao cabo, a única que lhe interessava.

Ora quem, realmente, se procura -e se exige tal qual (o que não quer dizer que, alguma vez, se conquiste a si próprio, completamente, tal qual é)- escolhe a clandestinidade: recusa enquadrar-se, vestir algum uniforme. E assim aconteceu: por mais que o disfarçasse (e disfarçava?), por mais que o estilo literário -rico de potencialidades- e o seu estilo quotidiano -de extrema elegância- tentasse escondê-lo, vinha ao de cima o homem -o adolescente?-, em movimento contínuo de curiosidade, disponibilidade, cumplicidade. Cúmplice de quem? Daqueles que não se afazem à vida chata, monótona, estéril de um dia a dia sem chama, domado e estéril, de burguêses pelintras e de asas cortadas. E, graças a um destes -a um grande e genial rebelde-, conheci melhor Vitorino Nemésio.

Tomaz de Figueiredo -insubmisso por excelência- abriu-me o caminho: ajudou-me a chegar-me a Nemésio e conviver com a sua riqueza de criador. Vitorino Nemésio era generoso e, a par da luta pela independência moral e intelectual, dava outro combate: às decepções da vida, que não queria lhe tolhessem nem a espontaneidade, nem o amor sensual às coisas, nem o esforço sincero de entender. Claro que o recordo -e à viola- no velho “Pereira d’Alfama”; claro que recordo o olhar penetrante, secreto, a medir, a pesar. Mas o Poeta vencia as defesas: a falsidade nunca se instalou nele.


O dia de hoje: Van Gogh, o meu cão Zac, Vicente Sanches, S. Pedro e S. Francisco



Em Maio de 1989, regressávamos a Portugal, parámos em Arles, e o meu cão Zac visitou, por conta sua, o hospital em que Van Gogh, cem anos antes, esteve internado. Isso não se pode considerar um acontecimento vulgar. Quantos cães visitaram aquele hospital de Arles? E, precisamente, quando se celebrava o centenário da estadia de Van Gogh, na cidade, onde teve um quarto (o da imagem acima), no Hotel Restaurante Carrel, e do internamento do pintor naquele hospital? Com certeza, muito poucos cães e, com certeza, nenhum cão, nenhum rafeiro da Giustiniana, bairro anónimo (agora, neste momento e por causa deste momento, já não é anónimo) junto da Via Cassia, Norte de Roma. Mas o Zac não era um cão vulgar. Meu filho Diogo encontrou-o, enroscado debaixo da mesa do café da Giustiniana e trouxe-o para casa. Apareceu-nos desgrenhado e sorridente -“Parece o Einstein!”-, olhos vivíssimos, sem cerimónias. A pedir para ficar e decidido a ficar. Como era. Um rafeiro, um cachorro da rua. Um vira-lata, diria o grande Manuel Bandeira. Toda a vida Zac recusou coleira ou pagar imposto: submeter-se. Era uma pessoa livre. Libérrima. Um simpático anarquista. Italiano vero, acabaria por transformar-se num apátrida ou multipátrias: viveu em Portugal, S. Tomé e morreu em Telavive, onde lhe chamaram várias coisas -príncipe, sábio, rebelde, houve mesmo quem disse-se: “um santo!”-, lhe reconheceram qualidades de poeta –poeta louco, poeta vadio, como todos os poetas.
O que levou Zac a ir espreitar o hospital de Arles? É provável que soubesse do génio de Van Gogh e da sua loucura –Zac sabia tudo: sobretudo, aquilo que nós não sabíamos nem nunca saberemos de ciência certa que ele sabia. Um príncipe? Um sábio? Um poeta? Um santo? Eis outra coisa que ninguém sabe nem nunca saberá –de ciência certa... Durante a sua dolorosa agonia, eu e o Manuel A. Pina trocámos mails e chorámos-lhe a morte. Provavelmente, o S. Pedro, de Manuel Bandeira, deve ter-lhe dito, à chegada: ´Zac, você não precisa pedir...”


E aqui é que vou citar o dramaturgo Vicente Sanches, que escreveu uma peça maravilhosa sobre Van Gogh (Américo Rodrigues apresentou-a, no Teatro Municipal da Guarda). Acredito que pouca gente conheça Vicente Sanches: os verdadeiramente importantes escritores portugueses (e estrangeiros) andam todos ou quase todos, acham que andam todos perdidos, esquecidos, ignorados pelo mercado (na feira da ladra literata) editorial, comentarial e critical nacional. Na peça, Vicente Sanches conta:

‘Um dia, no manicómio de Saint-Rémy, a Loucura de Van Gogh aproximou-se dele suavemente -(naquele dia foi suavemente,) (excepcionalmente, foi suavemente)- e pegando-lhe pela mão, disse-lhe com doçura: anda, vem, vou conduzir-te à casa dos teus pais; vou levar-te muitos anos atrás: - ao tempo da tua infância.
E ele foi; e viu lá tudo como era dantes. Viu-se lá a si próprio, dormindo num berço.
-Posso pegar-lhe um bocadinho ao colo?, perguntou Van Gogh à sua Loucura.
-Podes, respondeu ela.
Então ele tomou a criança nos braços, com muito cuidado: pois a criança estava a dormir, e ele não queria acordá-la.
Depois, com a criança ao colo, ajoelhou-se no chão; sempre com muito cuidado: pois a criança estava a dormir, e ele não queria acordá-la.
Depois, rezou. Rezou uma breve oração. Em voz baixa; em voz muito baixa: (pois a criança estava a dormir, e ele não queria acordá-la):
-Meu Deus, não deixes este menino ser eu... Meu Jesus, não deixes este menino ser eu... Minha Nossa Senhora, não deixes este menino ser eu...’

E -Sanches dixit- S. Francisco recebeu, com estas palavras, Van Gogh, depois dele se suicidar:

‘...o teu suicídio não foi pecado, -temos aqui os atestados médicos, -médico-psicológicos e médico-teológicos, -a atestarem que não foi pecado; o teu suicídio foi simplesmente o processo inocente, demente, genial e demente (demente e genial como tu eras, com tu foste;) o processo, enfim, que na grande violência da tua ânsia metafísica, ou na ânsia metafísica da tua grande violência, tu arranjaste lá na Terra, para arrombares mais depressa a porta aqui do Céu’.

Pois, lá no céu, Van Gogh e o cachorro Zac, a filosofarem...