segunda-feira, 10 de março de 2014

Os Amantes Voluntários

Imagem colhida no programa da peça


No programa da minha peça Os amantes Voluntários***, encenada por Roberto Merino e estreada em Janeiro de 2000, Seiva Trupe, Teatro do Campo Alegre, com os artistas Romi Soares e o falecido Manuel Geraz e figurinos de Olga Rego -a escritora Fernanda Botelho**** quis publicar o seguinte  texto, e bem haja por ele: 

Do amor voluntário
Por Fernanda Botelho

Gosto de ler teatro quase tanto como de ver, é quase o mesmo encantamento – ou desencanto. E é curioso verificar até que ponto a representação que eu elaboro a partir do texto lido se ajusta ou diverge da mesma peça vista.

Pois a minha pessoalíssima encenação contempla toda a materialidade do teatro como espectáculo, desde o cenário até aos acessórios, desde o guarda-roupa até à movimentação cénica.

E vem tudo isto a propósito da leitura que fiz da "farsa quase trágica" em 1 acto Os Amantes Voluntários, de que é autor Manuel Poppe. E do prazer que a leitura me proporcionou. E ainda de alguns danos que me deixou, felizmente reparáveis com o tempo (É que esta farsa quase trágica nos embrenha, mesmo à revelia do nosso querer, numa freudiana floresta de enganos, que bem gostaríamos de ignorar).

O tema é o do Amor, ou mais rigorosamente, a nostalgia do Amor. Às personagens falta-lhes a capacidade de dialogar com o (a) outro (a), instalam-se, isso sim, num monólogo eufórico, monólogo a duas vozes, ou quatro vozes (se considerarmos as duas juvenis réplicas do casal em cena). Cada uma das personagens serve-se das outras como pretexto para o seu monólogo (revivendo com frustração o passado e o presente).

É que estes amantes voluntários não estão a viver uma simples, insofrida, irresistível aventura – eles são mesmo voluntários, oferecidos para reconstruir um rito sacrificial ao Amor. São voluntários e também ambíguos, não pretendem amar, pretendem amar-se, através de um encontro fatalmente breve ou obcecadamente eterno.

Pois que se ame o Amor, porque não? Que se reinvente o Amor. É bem mais divino o Amor reinventado que o pecaminoso acto de vivê-lo em quartos de aluguer. O acto de amar o outro é uma solidão, enquanto amar o Amor é amar-se a si próprio numa claustral superioridade. Também é solidão, claro, é sempre. O resto são ilusórios encontros de solidões elementares.

Ser ou ouvir as palavras destes amantes voluntários no cenário, que se imagina sufocante e denso, de um quarto fechado, revela-nos (ou sugere-nos) que lá fora há outros quartos fechados, outros horizontes, outros enigmas, outros encontros fortuitos. Mas não é confortoso: lá fora, como cá dentro, o Amor é igual a si próprio (mas será?), perverso e implacável (mas será?).

Fica-se absorvido por este jorro de palavras, em monólogo (ou diálogo), elaboradas com mestria a que se acrescenta uma excelente fluidez coloquial, com o quanto baste de realismo e poesia.

Janeiro de 2000

***Os Amantes Voluntários, 2ª edição, foi publicado em Janeiro de 2000 pela Editorial Teorema

****http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernanda_Botelho


Fernanda Botelho



5 comentários:

  1. É um belo texto sobre o ainda mais belo "Os Amantes Voluntários"!
    Que pena tenho de não ter visto a peça!

    Era bom que a voltassem a encenar.

    Desejo-lhe uma boa semana!

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  2. Interessante. Veneza aparece.
    Beijinho.

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  3. Isabel, talvez seja possível arranjar uma cópia da peça em CD. Boa noite, amiga!

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  4. Ana, o mais interessante é o muito inteligente texto do grande Fernanda Botelho. Um beijo.

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  5. Querido Manuel, gostei de ler as palavras de Fernanda Botelho sobre "Os Amantes Voluntários".
    Só demonstra bom gosto...
    Também gostava muito de ver a peça...
    Adorei ver "A Acácia Vermelha"!

    Um beijinho.:))

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