Imagem colhida no programa da peça
No programa da minha
peça Os amantes Voluntários***, encenada por Roberto Merino e estreada em Janeiro de 2000, Seiva Trupe, Teatro do Campo Alegre, com os artistas Romi Soares e o falecido
Manuel Geraz e figurinos de Olga Rego -a escritora Fernanda Botelho**** quis
publicar o seguinte texto, e bem haja por
ele:
Do amor voluntário
Por Fernanda Botelho
Gosto de ler teatro quase tanto como de ver, é quase o mesmo
encantamento – ou desencanto. E é curioso verificar até que ponto a
representação que eu elaboro a partir do texto lido se ajusta ou diverge
da mesma peça vista.
Pois a minha pessoalíssima encenação contempla toda a
materialidade do teatro como espectáculo, desde o cenário até aos acessórios,
desde o guarda-roupa até à movimentação cénica.
E vem tudo isto a propósito da leitura que fiz da "farsa quase trágica" em 1 acto Os Amantes Voluntários, de que é autor Manuel Poppe. E do prazer que a leitura me proporcionou. E ainda de alguns danos que me deixou, felizmente reparáveis com o tempo (É que esta farsa quase
trágica nos embrenha, mesmo à revelia do nosso querer, numa freudiana floresta
de enganos, que bem gostaríamos de ignorar).
O tema é o do Amor, ou mais rigorosamente, a nostalgia do
Amor. Às personagens falta-lhes a capacidade de dialogar com o (a) outro (a),
instalam-se, isso sim, num monólogo eufórico, monólogo a duas vozes, ou quatro
vozes (se considerarmos as duas juvenis réplicas do casal em cena). Cada uma
das personagens serve-se das outras como pretexto para o seu monólogo
(revivendo com frustração o passado e o presente).
É que estes amantes voluntários não estão a viver uma
simples, insofrida, irresistível aventura – eles são mesmo voluntários,
oferecidos para reconstruir um rito sacrificial ao Amor. São voluntários e
também ambíguos, não pretendem amar, pretendem amar-se, através de um encontro
fatalmente breve ou obcecadamente eterno.
Pois que se ame o Amor, porque não? Que se reinvente o Amor.
É bem mais divino o Amor reinventado que o pecaminoso acto de vivê-lo em
quartos de aluguer. O acto de amar o outro é uma solidão, enquanto amar o Amor
é amar-se a si próprio numa claustral superioridade. Também é solidão, claro, é
sempre. O resto são ilusórios encontros de solidões elementares.
Ser ou ouvir as palavras destes amantes voluntários no
cenário, que se imagina sufocante e denso, de um quarto fechado, revela-nos (ou
sugere-nos) que lá fora há outros quartos fechados, outros horizontes, outros
enigmas, outros encontros fortuitos. Mas não é confortoso: lá fora, como cá dentro, o Amor é igual a si próprio
(mas será?), perverso e implacável (mas será?).
Fica-se absorvido por este jorro de palavras, em monólogo (ou
diálogo), elaboradas com mestria a que se acrescenta uma excelente fluidez
coloquial, com o quanto baste de realismo e poesia.
Janeiro de 2000
***Os Amantes
Voluntários, 2ª edição, foi publicado em Janeiro de 2000 pela Editorial Teorema
****http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernanda_Botelho
Fernanda Botelho


É um belo texto sobre o ainda mais belo "Os Amantes Voluntários"!
ResponderEliminarQue pena tenho de não ter visto a peça!
Era bom que a voltassem a encenar.
Desejo-lhe uma boa semana!
Interessante. Veneza aparece.
ResponderEliminarBeijinho.
Isabel, talvez seja possível arranjar uma cópia da peça em CD. Boa noite, amiga!
ResponderEliminarAna, o mais interessante é o muito inteligente texto do grande Fernanda Botelho. Um beijo.
ResponderEliminarQuerido Manuel, gostei de ler as palavras de Fernanda Botelho sobre "Os Amantes Voluntários".
ResponderEliminarSó demonstra bom gosto...
Também gostava muito de ver a peça...
Adorei ver "A Acácia Vermelha"!
Um beijinho.:))