terça-feira, 4 de março de 2014

A língua portuguesa em perigo!



Editorial do "Jornal de Angola" sobre o Acordo Ortográfico Do Prof.
Miguel Mota Património em risco 

"Os ministros da CPLP estiveram reunidos 
em Lisboa, na nova sede da organização, e em cima da mesa esteve de novo 
a questão do Acordo Ortográfico que Angola e Moçambique ainda não 
ratificaram. Peritos dos Estados membros vão continuar a discussão do 
tema na próxima reunião de Luanda. A Língua Portuguesa é património de 
todos os povos que a falam e neste ponto estamos todos de acordo. É 
pertença de angolanos, portugueses, macaenses, goeses ou brasileiros. E 
nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais 
falantes ou uma indústria editorial mais pujante. Uma velha tipografia 
manual em Goa pode ser tão preciosa para a Língua Portuguesa como a mais 
importante empresa editorial do Brasil, de Portugal ou de Angola. O 
importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor 
regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige. Há 
coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais 
respeitáveis que sejam, ou às "leis do mercado". Os afectos não são 
transaccionáveis. E a língua, que veicula esses afectos, muito menos. 
Provavelmente foi por ter esta consciência que Fernando Pessoa confessou 
que a sua pátria era a Língua Portuguesa. Pedro Paixão Franco, José de 
Fontes Pereira, Silvério Ferreira e outros intelectuais angolenses da 
última metade do Século XIX também juraram amor eterno à Língua 
Portuguesa e trataram-na em conformidade com esse sentimento nos seus 
textos. Os intelectuais que se seguiram, sobretudo os que lançaram o 
grito "Vamos Descobrir Angola", deram-lhe uma roupagem belíssima, um 
ritmo singular, uma dimensão única. Eles promoveram a cultura angolana 
como ninguém. E o veículo utilizado foi o português. Queremos continuar 
esse percurso e desejamos que os outros falantes da Língua Portuguesa 
respeitem as nossas especificidades. Escrevemos à nossa maneira, falamos 
com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas 
vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das 
nossas Línguas Nacionais. Sabemos que somos falantes de uma língua que 
tem o Latim como matriz. Mas, mesmo na origem, existiu a via erudita e a 
via popular. Do "português tabeliónico" aos nossos dias, milhões de 
seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas. 
Intelectuais de todas as épocas cuidaram dela com o mesmo desvelo que se 
tratam as preciosidades. Queremos a Língua Portuguesa que brota da 
gramática e da sua matriz latina. Os jornalistas da Imprensa conhecem 
melhor do que ninguém esta realidade: quem fala, não pensa na gramática 
nem quer saber de regras ou de matrizes. Quem fala quer ser 
compreendido. Por isso, quando fazemos uma entrevista, por razões éticas 
mas também técnicas, somos obrigados a fazer a conversão, o câmbio, da 
linguagem coloquial para a linguagem jornalística escrita. É certo que 
muitos se esquecem deste aspecto, mas fazem mal. Numa entrevista até é 
preciso levar aos destinatários particularidades da linguagem gestual do 
entrevistado. Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua 
Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho 
ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa 
com base no português falado ou pronunciado. Mas, se alguma vez isso 
acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e 
sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos 
negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que 
não dominam correctamente o português. Neste aspecto, como em tudo na 
vida, os que sabem mais têm o dever sagrado de passar a sua sabedoria 
para os que sabem menos. Nunca descer ao seu nível. Porque é batota! Na 
verdade, nunca estarão a esse nível e vão sempre aproveitar-se social e 
economicamente por saberem mais. O Prémio Nobel da Literatura, Dário Fo, 
tem um texto fabuloso sobre este tema, que representou com a sua trupe 
em fábricas, escolas, ruas e praças. O que ele defende é muito simples: 
o patrão é patrão porque sabe mais palavras do que o operário! Os 
falantes da Língua Portuguesa que sabem menos, têm de ser ajudados a 
saber mais. E quando souberem o suficiente vão escrever correctamente em 
português. Falar é outra coisa. O português falado em Angola tem 
características específicas e varia de província para província. Tem uma 
beleza única e uma riqueza inestimável para os angolanos mas também para 
todos os falantes. Tal como o português que é falado no Alentejo, em 
Salvador da Baía ou em Inhambane tem características únicas. Todos 
devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da 
CPLP. A escrita é "contaminada" pela linguagem coloquial, mas as regras 
gramaticais, não. Se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável 
que, através de um qualquer acordo, ela seja simplesmente ignorada. Nada 
o justifica. Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na 
ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a 
reboque do difícil comércio das palavras." -
Bernardo Enes Dias N.B.: Em defesa da Língua Portuguesa, o remetente 
deste correio não adopta o Acordo Ortográfico de 1990, por este ser 
incoerente, inconsistente e inconstitucional.


2 comentários:

  1. Certíssimo! Espero que estas palavras sejam ouvidas: são de alguém que fala português e ama a língua que aprendeu. Língua igual, na sua raiz, com os seus "falares" diferentes, "dialectos", regionalismos, sim, mas única!...

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  2. Um tema polémico.
    A língua evolui mas só nós é que nos integramos neste acordo?
    Políticas... e nada de afectos, pelo menos assim penso.
    Beijinho. :))

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