sábado, 9 de julho de 2011

Um amor veneziano

O livro em que Hemingway conta a história (romanceada) com Adriana Ivancich (a capa é da autoria de Adriana)





O Harry's Bar, Veneza, onde se encontravam






O livro de Adriana






A torre bianca, na Finca Vigia, de Hemingway, em Havana





Adriana, na biblioteca da Finca Vigia







Adriana e Hemingway, no mesmo local





Hemingway e Adriana, no salão da Finca Vigia, da última vez que esta o visitou em Havana




Ernest Hemingway suicidou-se há 50 anos, em 2 de Julho de 1961. Na sua agitada biografia, destaca-se uma jovem veneziana: Adriana Ivancich. Sobre o amor que juntou os dois, escrevi e publiquei o texto que transcrevo.



Em Outubro de 1980, a editora milanesa Arnoldo Mondadori publicava o livro de Adriana Ivancich, La Torre Bianca. No dia 26 de Março de 1983, o Corriere della Sera anunciava que Adriana Ivancich se suicidara na sua quinta toscana: enforcara-se, pendurara-se de uma árvore, aos cinquenta e três anos. Essa Adriana -a local sublinhava-o- fora uma das paixões de Ernest Hemingway e, como referia a especialista de literatura norte-americana, Fernanda Pivano, na evocação que seguia a notícia, fora também a inspiradora do romance Across the river and into the trees: a veneziana que Hemingway conhecera em 1948, quando ela tinha dezoito anos e ele cinquenta. Hemingway suicidara-se vinte e dois anos antes: às sete da manhã do dia 2 de Julho de 1961, metera na boca os canos da espingarda de caça e o tiro arrancara-lhe metade da cabeça.

Encontravam-se, frequentemente, Hemingway e a Ivancich no Harry´s Bar de Veneza. Não sei em que mesa se juntavam. Nunca perguntei ao meu amigo Arrigo Cipriani, filho de Giuseppe, o fundador. Deixei-me imaginar –e imaginei-o sempre na mesa redonda do canto esquerdo, ao fundo, com a barba branca e a barriga em cima das calças, alto e ex-atleta. À Ivancich, nunca a imaginei: era, de cada vez, a que queria ter ali, e as coisas variam. Adriana dizia -quando Across the river and into de trees saiu, em 1952- que ele lhe era indiferente ou, apenas, uma amigo. E tentou repeti-lo no seu livro La Torre Bianca, que gira à volta de Hemingway (a ‘torre bianca’ era um pavilhão de cimento de três andares, anexo da Finca Vigia, propriedade do escritor em Havana). E foi mais longe: vendeu, em leilão (1967), grande parte das cartas que Hemingway lhe enviou. Julgava, provavelmente, que, assim, se libertava dele –porque não acredito que ele lhe fosse indiferente.

No capítulo 1 de La Torre Bianca, Adriana recorda o primeiro encontro com Hemingway; este teria dito:
-Moras do outro lado do rio...
Ao que ela respondera:
-Sim, do outro lado do rio...
-Lembro-me da casa. Lembro-me das grandes árvores... –retorquira Hemingway.
E, já no fim, escreve Adriana: “Queres ser my partner no bem e no mal, perguntara-me (...). No coração nunca deixaria de ser a sua partner e nunca ninguém poderia espreitar ou controlar o meu coração”.

Pendurou-se de uma árvore da quinta toscana, no meio das outras árvores, três anos depois de publicar o livro.

Vender as cartas, casar-se, publicar o livro em que continuou a tentar iludir os outros e iludir-se a si própria não lhe bastou. A páginas 292, e a propósito de um seu livro de poesias e do título, comenta a Ivancich: “O rio, a lagoa e a ilha distante, era um bom título, pensara. Mais adequado, porém, a um romance do que a uma poesia. Teria sido o título justo para a nossa história, partner, para a história que nunca escreverei porque ninguém acreditaria em nós. Hão-de pensar isto e aquilo e só nós saberemos e já estaremos mortos”.

O que aí fica, imediatamente atrás, em itálico, pertence a uma carta de Hemingway para Adriana. E há, nisto tudo, uma outra coisa extraordinária: G.-A. Astre, estudioso de Hemingway, assinala, referindo-se ao seu suicídio: “o jantar de sábado, 1 de Julho, fora um jantar tranquilo, quase feliz, depois de um dia também muito sossegado (...). A senhora Mary Hemingway recordara-se de uma canção italiana e entoara-a, com o marido, o qual, com insistência, repetira o refrão”. Nessa madrugada, Hemingway, enquanto a mulher dormia, despedaçava a cabeça, depois de cantar em italiano.

Diz também Adriana que um dia, em Havana –ao pé de Havana, na tal Finca Vigia, onde o visitara em 1952, data da publicação The Across The River-, ele, que escrevia O Velho e o Mar, a chamou de repente. “Tenho que fazer, tenho de sair com um amigo...”, respondeu ela. “Quero lá saber do teu amigo! Vem depressa!”, gritou Hemingway. E ela enervou-se, protestou, mas foi. E, segundo diz, foi com ele até ao alto de uma colina de onde se via o mar e, apesar de ele não lhe ter dito nada, compreendeu e começou a chorar ao lado dele, que não lhe tocou.



Esta menina (os mortos não têm idade e muito menos os que amaram), esta menina que nasceu em Veneza, originária de Dalmácia (os Ivancich descendiam de armadores da ilha de Lussina, na Dalmácia), rica e vagamente aristocrata, “baronezazinha”, diz a Pivano e Hemingway, no romance, a “contesina”, não soube governar a sua vida e ele não ajudou. Quando ela lhe pediu que a deixasse desenhar a capa do romance, porque foi ela quem desenhou a capa da primeira edição americana de Across the river, disse que sim; mostrou-lhe que estava farto da mulher (uma noite, ofendeu Mary, diante de Adriana); mas, depois, ficou onde estava, nas promessas ou nas ameaças. “A quantos querem casar contigo desejo as maiores felicidades. Mas eu amo-te muito mais do que eles poderão amar-te” –escrevia-lhe- “Casa com quem quiseres, mas não te esqueças que o meu amor é a agulha de uma bússola que aponta para o Norte. E tu és o Norte, a única estrela fixa.” E todas essas frases pesaram nas escolhas de Adriana.

Li A Torre Branca antes dela morrer e só agora arranjei coragem para falar da história. Afligiu-me sempre o desencontro e a angústia dessas duas criaturas –Hemingway e Adriana. Encontraram-se e abraçaram-se alguma vez? É verdade o que ele conta no romance ou é verdade o que ela conta no seu livro? É verdade que se tiveram os apaixonados ou é verdade que nunca se tocaram, que andaram juntos, sem se tocarem? Mas o que é que isso importa? Não podiam tocar-se mais do que se tocaram, nem abraçar-se mais do que se abraçaram –até ao brutal fim comum. Por que é que o escolheram? Não creio que ele se suicidasse por causa dela: tinha outros motivos: as doenças e a insegurança, que resolvera sempre com a agressividade; mas que ela se suicidou por causa dele, acredito: atirou-lhe para cima o que restava da "contesina" do Harry,s Bar e da lagoa, enforcou-se porque talvez já só acreditasse no desespero e na saudade e por fidelidade e esperança: a fidelidade de repetir o gesto dele e a esperança de o reencontrar na morte.



Roma, Orti della Sibila, 3 de Maio de 1986



in Novas Crónicas Italianas

3 comentários:

  1. Mais uma belíssima história das suas Crónicas Italianas.
    E desta até "conhecemos" também as personagens.
    Muito interessantes ,sempre ,estas crónicas.

    Um abraço
    Isabel

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  2. Já tinha lido esta história e recordar a sua leitura foi muito bonito!
    Obrigada pela beleza, pela tragédia, pelo acto simples cheio de complexidade.
    Hoje encontrei numa estante um livro de Hemingway que não li, foi um livro que recebi de herança e abro a janela e vejo-o citado. Coincidência engraçada.
    Abraço!

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  3. Amante de Veneza, fidelíssimo ao Harry´s, doente de Camilo e dos seus amores de perdição, esta história fascinou-me sempre. Muitas vezes falámos dela -de Adriana- o Aldo e eu. Um abraço Isabel e Ana.

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