
Levantava os olhos quando chegava a polaca. Ela era uma mulher de pernas magras e peito abundante. Tinha uma delicadeza de infeliz, quase canina, e quase porque o azul da íris apontava para uma campo de violetas, cheio de orgulho de ser. (A mim, dizia-me: “Luigi voltará sempre. Já não há nenhum sítio...” E metia-se ali, a esperá-lo.)
A fragilidade dividia-se entre eles: o orgulho de ser e os olhos perturbados. Depois, o Traminer, vinho das três venezas. Havia lá fora, a Navona, os pintores e os turistas, o Café Tre Scalini, os carros e os autocarros no Corso Emanuele. Roma, entre as seis e as sete. O sossego, os corpos a tocarem-se, as vozes. A gente a entrar e a sair. A taberna do senhor Boccaci.
Todas as tardes Luigi chegava. E, se antes do tempo, sentava-se nas grades da fonte de Neptuno, dentro do fato cinzento e da gravata desbotada. As pessoas vinham depois. Quando o senhor Bocacci abria a porta lá ia ele: não pedia, sorria, encostava-se à parede, com as bochechas encarnadas. Dir-se-ia que não esperava nada, mas o brilho que o envolvia separava-o dos outros. Parecia o Menino Jesus. Eram os olhos que se levantavam e baixavam, o sorriso, a insistência do corpo em apoiar-se onde não deveria: no parceiro, no vidro da vitrina. Iria cair? Ninguém sabia e não haveria tempo para pôr a palha.
Já se equilibrava e aventurava entre as pessoas, com o copo vazio e o olhar perdido, a encontrar-se nos seus mundos. Já se equilibrava.
A voz perdia-se na dificuldade: era gago. Mas, quando não o ouvias, pegavas nas veias que lhe rebentavam o nariz, na caspa que lhe escorria dos cabelos, pegavas-lhe nas mãos com as unhas sujas e viajavas para os sítios que ele escondia no bolso descosido do casaco.
Não sabias que tivera mulher, a mulher que teve, com filhos crescidos, que o abandonou. Não sabias que, uma vez, o levaram para o hospital, na ponte Garibaldi, perdido de álcool e de solidão. Não sabias que já não tinha emprego, que andara pelos castelos romanos, à procura do absoluto, com o fígado a desfazer-se em cortiça. Não sabias por que é que ias atrás dele.
De repente, a taberna enchia-se de luz: acendia-se uma lareira e via-la por detrás da aba do casaco dele.
Ele não falava, juntava sons. Era uma luz pessoal em se podia não reparar. De qualquer modo, reflectia-se no vidro dos copos e incomodava.
Como é que ele provocava a outra gente? Como é que conseguia –com as calças por vincar e os sapatos rotos? Tinha o direito de lhes meter a mão no coração?
Estava, ali, com a sua realidade. Não tinha nenhuma segurança, mexia-se com medo.
Atrás do balcão, o senhor Bocacci servia o vinho; do lado de cá, as pessoas. Eram felizes? Pagavam o que bebiam. Ele não sabia se tinha dinheiro para pagar. Pedia mais? E quem pagava?
Atrás do balcão, o senhor Bocacci servia o vinho; do lado de cá, as pessoas. Eram felizes? Pagavam o que bebiam. Ele não sabia se tinha dinheiro para pagar. Pedia mais? E quem pagava?
A polaca –Ana- encostava-lhe os cães, porque trazia sempre dois cães, ela também estava sozinha: tinha os cães e um vago marido no Trastevere e a tragédia de precisar dos outros.
Luigi afastava a perna e os cães não se afastavam. A polaca dizia: “Roma é dos papas, é tão bela!”, e ele percebia que mentia: o que ela queria era companhia. Convidava-a para jantar no Campo dè Fiori. Ela não respondia, sorria-lhe com os olhos azuis e a boca cansada. O que teria feito aquela boca? Era a boca que havia.
Iria, com ela, por ali, pelas ruas de Roma, a arder no coração do que não tinha. Iria com aquela boca e que Deus o acompanhasse. Não sabia falar. Não queria exigir. Que algum a coisa viesse ter com ele!
Pensava que o merecia: os dias que esperara, em frente da taberna! Quantas vezes tentara dizer aos outros que era deles!
De vez em quando, podia lembrar-lhes que era um príncipe, lembrar-lhes o palácio, a Anunciação, de Filippo Lippi, Piero di Cosimo, Lorenzo Lotto... as abelhas... –agora que o tinham vendido.
E logo tornava ao seu lugar, entre o balcão e a noite.
De outros sítios, vinham outras pessoas, ingleses, holandeses, franceses. O senhor Bocacci oferecia saladas e vinho. Ele estava ali. Príncipe sem dinheiro. Empregado sem emprego. Amante sem mulher. Músico sem violino.
Todas as tardes, vinha da Piazza Navona, trazia, ao entrar, um cheiro involuntário a droga, pedaços da fonte de Bernini e a cigarrilha de Puccini. A polaca dizia que era propriedade da própria solidão.
Esse o nosso príncipe pobre, Luigi, sem dinheiro, que ama a beleza e o suor dos beatos marginais, um seio de mulher. Levanta os olhos, quando chega a polaca, quando, na taberna do senhor Bocacci se ilumina uma desgraça, quando, graças a tudo isso, à exilada gorda, à verdade da infelicidade, a vida é a vida, a coisa mais linda do mundo.
Pensa ele.
Roma, 1982
in Crónicas Italianas
Muito bom, bravo.
ResponderEliminar5 bjs e de-nos notícias meu caro.
Pensa ele.
ResponderEliminarE tem razão.
Mais um bonito conto.
Que conta a vida.
Um abraço
Isabel
Tão triste e belo ao mesmo tempo este dia passado em Roma.
ResponderEliminarQue história!
Nostalgia, solidão... onde estava a felicidade deste príncipe pobre?
Abraço!
O que tenho a dizer aos amigos é que não inventei o Príncipe pobre... ele existiu, tal qual a polaca.
ResponderEliminarTão belo Manuel...
ResponderEliminarUm bom fim de semana
Blue
Um lindo fim de semana, para si, Blue!
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