terça-feira, 21 de junho de 2011

Páginas de um diário público

Manifestação em Barcelona: substitui-se a placa da 'Plaça de L'Ajuntament' por outra que diz: 'Plaça del Quinze Maig', data em que tudo começou, aqui ao lado...


Não me surpreendem as manifestações da juventude ofendida, na Grécia, em Espanha, em Itália, na Irlanda; aqui mais incertas.

Nem as desaprovo.


Compreendo-as e aprovo-as.


Apresentaram, a essa juventude, uma sociedade de que o roubo, a corrupção, a hipocrisia, o abuso do próximo, a nova escravatura, são os pilares.


Apresentaram o cadáver da moral.


Não acabou a História.


Mataram a moral.


A História continua, aí mesmo, nas ruas de Atenas, de Madrid e Barcelona, de Dublin, de Roma, de Lisboa.


E é essa juventude -à qual querem roubar o futuro, que se indignou, que se revoltou- quem está a escrevê-la.


No Le Nouvel Observateur desta semana, Henri Guaino, conselheiro especial do presidente francês, Sarkozy –um neo-liberal, com telhados de vidro-, reconhece:


A importância da questão moral não vai deixar de crescer, no debate público.”


Certamente.


Porque aquilo a que assistimos é o pináculo da imoralidade, que tocou a fronteira da insuportabilidade.

O desemprego, a pobreza, o limiar da fome, ei-los aí –e a liberdade de pensar e agir (um dos maiores inimigos do sistema neo-capitalista) desvendou os homens.


E os jovens.


Dezenas de milhões de jovens, na Europa, estão desempregados, ou sub-aproveitados, ou neo-escravizados.


Se nos cingirmos à Europa –porque, no mundo, serão centenas de milhões.


Serão biliões, talvez cinco, se contarmos jovens e adultos.


Ontem, na estação, segui o protesto, via telemóvel, de um jovem,-tive de ouvir, tal a indignação de quem falava.


Discutia ele, com um amigo ou amiga, o aluguer de um quarto, em Manchester, onde irá trabalhar.


É, há séculos, o primeiro movimento do português, quando, por cá, não vê, futuro.


Começou com as viagens dos mártires da nossa História Trágico-Marítima.


Nem a expansão da fé nem o alargamento do império os moveram: arrolaram-se nas caravelas, a fugir à fome.


Mais tarde, foi ir para o Brasil, aventura que Ferreira de Castro e Miguel Torga descreveram realisticamente.


Menos escolheram a África, que Salazar nunca os quis lá e era mais fácil emigrar para os USA e Canadá do que para Angola e Moçambique.


Depois, viveu-se a fuga “a salto”, nos anos 50/60, França, Alemanha, Luxemburgo...


Agora, cidadãos europeus, o melhor da nossa juventude (que ser “melhor” não implica, muito pelo contrário, ser rico), emigra, sem ter que pagar aos “passadores”, que recebiam o dinheiro e, muitas vezes, os abandonavam, a meio do caminho.


Qualificados ou não, buscam lá fora o que não encontram aqui: trabalho.


Mais procuram, e é muito importante: trabalho digno.


Fogem ao desemprego e, também, à neo-escravatura.


Só o cego não vê –e, no caso, até o cego “vê”.


Sem nenhum pudor, sem nenhuma vergonha, sem nenhuma moral, o neo-capitalismo, à beira da falência, exige, aos que usou para se enriquecer, que o salvem do colapso mortal.


Porque, isso sim, talvez estejamos a assistir à morte do neo-capitalismo e à consequente recomposição do Estado Social.


E digo “talvez”, porque a plutocracia tem sete fôlegos como os gatos.


E nenhuma humanidade, como os desalmados.


Atenção!: não há que reclamar esmola nem “caridade”.


Há que reclamar justiça, que é fraternidade, igualdade e liberdade.


Respeito pelo outro; respeito pelo direito a compartilhar as oportunidades; direito à escolha, à vocação, à própria diferença, isto é, à própria individualidade.

4 comentários:

  1. Bem verdade tudo!E tanta hipocrisia mundo fora!
    Gostei destas frases: "os mártires da nossa História Trágico-Marítima. Nem a expansão da fé nem o alargamento do império os moveram: arrolaram-se nas caravelas, a fugir à fome."
    Tantos alentejanos, lembro aqui. Pobres dos alentejanos - tão pouco falados, por esse mundo fora...

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  2. A justiça reclamada, não tem resposta...fraternidade não a vejo, a igualdade e liberdade,essa já desapareceu.

    Respeito pelo próximo, também não vejo.Respeito pelo direito a compartilhar as oportunidades, também já não. Não existe escolha, porque não nos é dada, de que serve a vocação se não a podemos utilizar, só se fôr de graça? A diferença é mal aceite. Sendo assim a individualidade está asfixiada, numa sociedade formatada.(formatado, para mim já é algo de muito mau...formatado?!!...até me causa calafrios)

    Jovens e adultos, pessoas com valor e com valores, a não poderem ser o que já foram, a não terem direito às suas próprias escolhas. Porque lhes cortam as pernas diáriamente.

    Temos os jovens desempregados e os adultos desempregados, que ainda estão piores. O jovens ainda podem ser explorados, os adultos começam a ficar velhos para o mercado de trabalho, e como já lá estiveram, já ninguém lhes quer pagar o que pagavam.Sendo assim devem continuar desempregados.
    Bom, bom é os desempregados trabalharem de borla nas empresas, com estágios fictícios intermináveis... Ou escolherem os recém-licenciados.

    E nunca mais acabava a lista Manuel....porque as queixas são mais que muitas.
    Se eu sou negativa? Não!
    Mas se me sinto revoltada? Muito!
    Somos números...apenas isso, números....

    Um abraço

    Blue

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  3. Blue: Mas tudo muda, se nós quisermos e soubermos lutar! Este é um momento terrível, desprezível, lembra a queda do Império Romano... E, exactamente por lembrar, permite a esperança. Um gesto. Um protesto. Uma recusa. Já é muito. Somar-se-à a milhões de outros!

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  4. Crise = Mudança....

    Os meus protestos aos olhos de ''muitos'', são vistos como arrogantes e prepotentes...na realidade não o são...sendo assim prefiro que as minhas atitudes sejam vistas aos olhos de ''poucos''...mas que sejam vistos com clareza....;)

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