domingo, 19 de junho de 2011

A estudantinha de Bolonha

'Beatrice', 1885, Odilon Redon




Conheci-a há dez anos -tinha menos dez de agora que tem trinta-, era uma rapariga pequena de cabelos e olhos claros, o corpo redondo. Estudava leis em Bolonha, mexia-se satisfeita dentro do que vestia: amplas camisolas de ponto largo, casacões masculinos e, no Verão, camisas leves que lhe apertavam o peito, saias brancas pregadas de onde saíam as pernas douradas e, no fim, os sapatos de ténis já cambados, também brancos, com listas azuis. Era alegre e voluntariosa, por isso é que se mexia bem dentro dos vestidos: escolhia facilmente a vida e o que punha em cima era o que lhe servia, as coisas que lhe serviam para continuar o movimento que nascia nela e não queria contrariar: a curiosidade. No Inverno, andava por Bolonha, de uma praça para a outra, nos cafés, nos cinemas, nas salas de aulas e conferências, sempre fresca e decidida, com o rosto avivado pelo frio e os olhos brilhantes. Em Agosto, ia para a costa de Cesena, o Cesenatico, convivia com quem lá encontrava e com os amigos que levava de Bolonha.



-Corríamos uns atrás dos outros -contou-me, quando a reencontrei, já sem a simplicidade de há dez anos-, corríamos na praia, nos bares, nas discotecas...


-Corriam nos bares, nas discotecas?... –perguntei.


Olhou-me, percebeu a ironia, e acrescentou:


-E por que não? Gostávamos de correr...


-Nas discotecas?


-Por toda a parte!


Desafiava-me e não parecia muito segura, a impetuosidade soava a falso, como se procurasse convencer-se. E a roupa já não era a mesma e não coincidia nem com ela, nem com os seus movimentos: era uma roupa que tinha dez anos a mais. Não envelhecera ainda a minha amiga -isso era verdade-, mas esquecera-se de se ir deixando envelhecer e continuava a vestir o que já não era dela. Os olhos -a curiosidade- não se tinham alterado, intensos, verdadeiros, viam porém as coisas de outro modo porque as que lhes pertenciam, ou lhes tinham pertencido, haviam ficado para trás, irresolutas.


-E depois? –insisti.


-E depois?..., e depois arranjávamo-nos!


-E qual era o arranjo?


-O que podíamos...


-Era pouco?


O rosto abriu-se-lhe. Sorriu, baixou os olhos, concentrou-se, e respondeu:


-Era muito!


E eu via-a, no outro tempo, capaz de se arriscar, de verdades, de mentiras, de ardis, na plenitude da juventude, da convicção, da prepotência, e, agora, via-a com esperança frágil, a explicar-se:


-E agora? –perguntei-lhe.


-Somos mais livres... Só levamos a sério o que queremos...


-E o que é que querem?


-Isto!


E pôs-se a rir. Tinha à minha frente uma mulher que a juventude, que vive desses corpos e demora a deixá-los porque, depois, fica sem apoio, ainda não abandonara. Mas já não era a mesma: era, apenas, obstinada e poucas vezes sincera. Ou, então, a sinceridade era aquela: o desplante com que insistia em fingir e se agredia (porque tinha consciência do próprio jogo).


-Isto?


-A nossa vida!


-E o que é a vossa vida?


Ela hesitou, fitou-me e respondeu-me:


-É a que tu não tens!


-A que eu não tenho?


-A que tu não tens! –repetiu.


-E o que é que eu não tenho?


-Não tens a minha liberdade!


Íamos pela Via Rizzoli, direitos à Piazza Maggiore, onde as primeiras luzes se acendiam, dispostos a sentar-nos nas escadas do Duomo. Era Inverno, húmido, a chuva miudinha caía-nos em cima e eu embrulhava-me no meu capote, ao lado dela.


-A tua liberdade?


-A de amar quem me apetece! A de deixar quem me apetece! A de fazer o que me apetece!


-E o que é que te apetece?


-Isto!


A estudantinha de Bolonha ia ao meu lado, com as unhas roídas e o que não lhe pertencia: tinham passado os anos e o que levava em cima não tinha nada a ver com o seu olhar que era o de uma mulher de trinta anos, cheia de medo de envelhecer.


-Isto? –perguntei-lhe.


Não me respondeu.


-E depois? –insisti.


Atrás, estava a fachada do Duomo, inacabada, meia restaurada, cor-de-rosa e de tijolo. Ela não me respondeu: foi-se inclinando para mim e deixou que eu a abraçasse.


-Parecemos uma pietà... –disse-lhe.


Riu-se e, a aconchegar-se, respondeu-me:


-Uma pietá?... Qual pietà?! Deixa-te de fitas!


E abandonando a cabeça aos meus braços, perguntou:


-Gostas de mim?


-Gosto.


-Como eu sou?


-Como tu és.


Soergueu-se e, com o alvoroço e a alegria de uma criança, exclamou:

-De verdade?!


Eu tranquilizei-a:


-De verdade.


Deu-me um beijo e disse:


-Obrigada.


-De quê? –perguntei-lhe, enquanto apertava o seu corpo contra o meu e a deixava respirar, encostada a mim.


-Um dia... –murmurou.


Aquele era o dia em que estava sozinha e entregue. Levantei-lhe a gola do casaco e afaguei-lhe os cabelos.


-Não te preocupes.


-Achas?


Eu não achava nada mas tinha a certeza de que era uma alma que merecia ternura. E foi quando se separou de mim, me empurrou e se levantou, a gritar:


-Se tu não achares, é o mesmo! Eu não preciso de ti! Eu tenho a minha vida!


Caía sobre nós a humidade de Bolonha, a chuva, o Inverno, a noite, e eu perguntei-lhe:


-Só isso?


Ela não respondeu e agarrou-me na mão.

in Novas Crónicas Italianas, Editorial Teorema

7 comentários:

  1. Lindo.
    Como tudo o que escreve.
    Vá-nos contando mais ,dessas "Crónicas Italianas".

    Um beijinho
    Isabel

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  2. Isabel, Fico muito contente e prometo transcrever mais histórias da "Crónicas Italianas" e das "Novas Crónicas Italianas".

    Um beijo

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  3. Olá Manuel,

    Fico a aguardar por mais, nem imagina o quanto gostei de ler este seu post.

    Um abraço

    Blue

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  4. Muito obrigado.

    Sim, os dois volumes de "Crónicas Italianas" e "Novas Crónicas Italianas" (que, por acaso, eu nem queria acreditar!, recebeu o Grande Prémio da APE, em 1995..., o qual me permitiu passar 8 dias em Amesterdão...)estão esgotados.

    Vou transcrever, para aqui, algumas dessas histórias.

    É nesse plano sobretudo, no de narrador/ ficcionista (com fraca imaginação: as minhas personagens existem ou existiram), que eu gostava que me conhecesse.

    Entre em contacto comigo, através do Facebook.

    Gostava muito.

    Um abraço.

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  5. Já tive o privilégio de ler este belo texto.

    Aguardarei por mais, pois é sempre bom recordar o que li, e acima de tudo recordar Itália.
    Abraço! :)

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  6. Manuel...eu devo ser das raras pessoas que não estou no facebook ;)...nem imagina o quanto eu não me identifico com tudo o que se chama facebook e afins...não tenho tempo e nem paciência.

    Muitos parabéns pelo Grande Prémio da APE.

    Gostaria muito de comprar os seus dois volumes quando os mesmos deixarem de estar esgotados.

    Pode utilizar o meu endereço de email do blogue. Manuel pode contactar-me quando quiser e tiver oportunidade, terei muito gosto.

    blueangel0011@gmail.com

    Muito obrigado.

    Um abraço

    Blue

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  7. Blue, bem haja. Vou escrever-lhe. Um abraço!

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