quinta-feira, 23 de junho de 2011

A expressão artística






Deixava a Navona e a incerteza dos passos levava-o para o Lungotevere. Já na Pizza delle Cinque Lune, depois de descansar e de acertar as abas do casaco, faria um desvio até Sant’Agostino e, ali, receberia a bênção de Caravaggio e da Madona dei Pellegrini. Encostava-se á montra do alfarrabista, a olhar-se no vidro. Do outro lado, as velhas edições. Entre o outro lado e o dele, o seu rosto cheio de rugas, os olhos profundos, os longos cabelos brancos acertados pela risca ao meio. Era uma cara de artista. Uma cara de artista a flutuar em Roma, com livros de grandes escritores à frente e automóveis atrás. Um laçarote ao pescoço e livros debaixo do braço. Uma certa melancolia na expressão. A boca desenhada.



Lá vinha ele, o “expressão artística”, com o dramatismo e a miséria. Do fundo dos olhos, espreitava-te e aceitava o teu olhar; estava ali para isso: para transmitir a profundidade do olhar. Arranjava o laço, esticava o cabelo. Compunha os gestos. Roma era o seu palco e o seu corpo, o instrumento. Dava aos outros e a Roma aquelas horas, com a consciência de um profissional. Caminhava convencido disso mesmo: da alma que oferecia.



Nunca soube muito da sua vida, mas acreditei sempre que recitou como comparsa –e, se Roma fosse Portugal, encontrava-o numa leitaria, com restos de cigarros no pires do carioca e as mãos a saírem dos punhos gastos. Mãos de unhas aparadas, e o olhar vivo, as riquezas possíveis. Papéis escritos há muito tempo. A doçura e a disponibilidade, a beatitude de quem está convencido de trazer dentro de si alguma coisa.



Por S. Apollinare, perdia-se entre os lampiões da Via dei Coronari. Apontava à ponte de Sant’Angelo e, enquanto andava, pensava que todos reparavam nele, o homem da papelaria, o criado do café, a senhora que vendia antiguidades, as crianças que brincavam na rua e paravam à espera de poderem continuar a jogar à bola. Finalmente, Sant’Angelo! E, quando olhava para o mausoléu de Adriano, sentia-se igual ao anjo, também ele sofria. E enchia o peito de ar, de rosas e de ocre.



Era um homem que se encontra muitas vezes, mas que conseguia parecer único. Eu via-o ir com a roupa no fio, as rugas, a brilhantina, as folhas, flores que, se houvesse vento, esvoaçariam, escuras de tinta azul delida. Via-o na sua comédia, e pensava: há muitas maneiras de comunicar com os outros. Uma pessoa põe um cravo na lapela; tinge o cabelo; escreve uma carta; atira-se para debaixo de um comboio. Mostra-se e diz: estou aqui, queres ouvir?, eu conto. E começa a contar as coisas de que teria sido capaz e algumas de que foi.



Se uma pessoa não sabe pintar; se tem ouvidos de cortiça; se, quando escreve, lhe ficam as palavras dentro da alma –nem por isso deixará de querer expandir-se, nem por isso deixará de se querer dar. E escolhe outro modo: o seu modo de expressão artística: o modo de, encontrando-se, sair de si e chegar à vida. Tê-la, naquele gesto; ter-se, naquele gesto. Agita-se da maneira que pode; veste-se da maneira que pode; sorri da maneira que pode. Procura dizer que compreende, que identifica as cores, que ouve os autocarros. Quer estender o mistério à janela.



Havia uma nebulosa, por onde caminhava. Parecia um manequim coberto de oiro. Arrastava os pés, encostava-se às paredes, compunha as abas do casaco. A vida ia com ele.



Veneza, Novembro de 1982



in Crónicas Italianas, Editorial Difel

7 comentários:

  1. "Oferecia a alma"

    Quem não tem nada e não tem nada a perder, caminha na vida com essa doçura, essa tranquilidade,essa disponibilidade de quem é dono do mundo.
    Afinal só queria ser amado.É um artista!

    Obrigada por mais esta maravilhoso conto envolto em poesia.

    Um bom feriado
    Isabel

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  2. Isabel: entendeu às mil maravilhas este contarelo!

    Todas as personagens dos meus contos são reais.

    Recordo bem, e com saudade, o "expressão artística"!
    Um abraço e bom feriado!

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  3. "A vida ia com ele" tal como nós o seguimos com as palavras, ao encontro dos seus olhos, do teatro, do cenário gigantesco que é Roma.
    Sant'Angelo a ponte entre o sagrado e o profano.
    Bom feriado e obrigada por este conto!

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  4. Cara Blue,

    Espero transcrever qualquer coisa nos próximos dias.

    Um abraço.

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  5. Obrigado,amiga! Fui reler essa crónica italiana e voltou-me a saudade dolorosa de Roma, de Itália, onde fui muito feliz.

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