terça-feira, 26 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte XIII

...algures em Veneza...


Longe um do outro, viviam juntos. Andrea ia à cata de amigos, na esperança de encontrar Lorenza. Frequentava o Paolin, as osterie. O que lhe diziam não bastava, sentia-se ludibriado: ela fugia-lhe. Que importava o que diziam os outros? Era sempre a mesma coisa: “Foi para a montanha.... anda no Brenta... Sei lá! “ Não lhe traziam Lorenza. Ouvia-os e sentia-se inseguro, a escorregar, porque não sabia que verdade havia no que diziam. Sentia-se ludibriado Andava aos caídos, aos restos dos amigos, às frases de acaso.

— Ninguém escapa ao seu destino! — avisara-o uma vez Alberto Memmo.

Fora numa das tardes em que Andrea procurava Lorenza por Veneza e, no aforismo de Memmo, julgou ler piedade ou troça. Não o feriu, Memmo não gostava de Lorenza e achava que ele perdia tempo.

Mas pensou: “Eu queria era encontrá-la a ela. Desta gente, já sei tudo e não tenho de me humilhar. É de Lorenza que preciso: apresente-se, a ver se me foge... Mas que eu a veja fugir, que eu a veja ser antipática, malcriada, ordinária. Não me deixe sem nenhuma certeza! Ainda fico mais sozinho! Assim é que não pode ser! Assim é que eu não sei por que é que a Luisa me deixou e eu posso deixar a Caterina, o Roberto, Treviso, por sua causa ... “

“Ninguém escapa ao seu destino...” dissera Memmo. Ele sabia que Alberto Memmo o pensava: o destino era uma pessoa a gastar-se. Sabia, porque gostava das suas pinturas. Habituara-se a ver nelas uma pessoa que se arriscava, ia ao invés do seu tempo e se expunha, no desenho e nas cores. Reconhecia o amigo. E era tão livre que o assustava: como é que se atrevia? Para onde ia a sua alma? Os traços arrojados, onde o levariam?
- A que te leva isso?

Alberto, Memmo, que gostava que lho perguntassem, respondeu:
-Gosto muito de pintar estas telas. Conheces-me. São as mi­nhas obras. Estás enganado quando pensas que é fácil. Dá um trabalho dos diabos! Mas, isso é verdade, às vezes, quando estou sozinho a pintar, até me esqueço dos outros. A que me levam? Um bocadinho adiante. Sem dúvida, um bom bocado em frente...

E, a rir-se, como sempre por detrás das barbas, acrescentou:
— À espera que me entendam... Os desenhos que faço, quem os entende? Eu bem queria... Não sou capaz de fazer melhor. A minha obra... Não ligues. Talvez seja uma causa perdida... mas gosto do que faço.

Andrea viu-o com o copo de pinot, os olhos baixos, e pensou que ele tinha razão, ninguém esca­pa ao seu destino, mas que destino era aquele? Amava Lorenza e preferia a insegurança ao vazio — porque descobria o vazio, se ela não estava ao pé dele. Em Lorenza amava a irregularidade, as hesitações, as contradições, sustos, teimosias. Era isso que o apaixonava. Quando o sentia, achava-se vivo: eram aspectos aos quais gostava de opor-se e esse combate dava-lhe mais vida do que ouvir o que diziam os amigos nas osterie. Muito mais do que imaginava o Memmo. Entre eles -,entre ele e Lorenza-, existiam muito mais coisas do que imaginava Alberto. Tantas, que não cabiam no céu. Para o Memmo, aquilo era uma doença que lhe caíra em cima e decidira levar até ao fim a doença.

Acto voluntário? Gostaria de acreditar que o fosse. Não podia era passar sem ela. Os amigos representavam a sua comédia. Dissessem bem ou mal, contassem ou insinuassem isto ou aquilo, era a maneira de a ver. Se quisesse, podia telefonar-lhe e ela haveria de responder-lhe mas tinham-se passado coisas a mais: Caterina, as viagens dela, os sítios por onde andaram um sem o outro. Mais valia esperar até que a trouxessem de volta os amigos, como se eles, trazendo-a e juntando-os, purificassem o amor, limpassem as escórias.

E aconteceu. Um dia telefonou a Michele Borin e convidou-o a tomar um café. Ao lado do amigo, de cabeça baixa e em cima de uns sapatos que lhe ficavam mal porque não se equilibrava nos saltos, com um livro entalado no braço, apareceu-lhe Lorenza.

— A Lorenza quis vir também, estava em minha casa e eu trouxe-a...

Michele Borin dissera aquilo com o rosto aberto e ar satisfeito, ela sentara-se na esplanada de S. Barnaba e fingia que não o via. Ele inclinou-se para ela e perguntou-lhe:
— O que queres tomar?
— Um café...
— Outro para mim também! — exclamou Michele e ia chamar o criado quando Andrea atalhou:
— Vocês são meus convidados!
— Certo! Há que tempo que não nos encontrávamos! Ainda bem que me telefonaste!
— Tens razão, ainda bem que te telefonei.

Michele Borin chegou-se para a frente e disse que iriam uns dias para a montanha:
— Eu e a Lorenza vamos à montanha, com um grupo. Já não se aguenta o calor e os turistas!
E, quando se chegou para a frente, encostou-se a Lorenza.

— Sim — concordou Andrea —, já estamos em Junho.
— Por que é que não vens connosco?
E Andrea disse, para dizer qualquer coisa uma vez que a outra continuava muda e queda, à espera do café:
— Não posso, tenho muito trabalho no hospital.

Por que é que ela viera e estava ali, com as pernas cruzadas e a fingir que não o via? Não fora ele quem a obrigara. Por que é que estava com aquele ar indiferente, a fingir que não dava por ele e, ao mesmo tempo, deixava que o outro se encostasse a ela? Então por que é que não ficara em casa do Borin? O que viera fazer a S. Barnaba?
— É um grupo, vamos com um grupo... — disse Lorenza, e parecia que se justificava.
— É um grupo — confirmou Michele.

E Andrea pensou: “Que, grupo? Onde é que vão? E este ri-se porque simpatiza connosco ou porque se ri de nós e eu estou aqui, feito parvo, à espera que ela beba o café? O que é que este quer?”

— Não vamos com ninguém... — disse Lorenza, como se lhe adivinhasse o pensamento e soubesse que ele queria saber com quem é que ela ia. Poderia ir com os tais amigos das viagens no Brenta, na lagoa, dos quais tinha medo, porque nunca os vira e desconhecia a influência que poderiam exercer sobre ela.

— Não vamos com ninguém? -irronizou Michele. — Vamos com os nossos amigos!

Andrea fingiu que não percebera. Os “nossos” eram os amigos “deles”, camaradagem que o excluía.
— Quanto tempo ficam por lá?

Expunha-se quando perguntava, denunciava o medo de a saber longe e acompanhada. E Lorenza disse, como se houvesse entendido e quisesse evitar que sofresse ou quisesse que ele soubesse que ir à montanha não tinha nenhuma importância, que já voltava e o preferia aos outros:
— Ficamos só dois ou três dias.
Michele corrigiu:
— Dois, ou três dias?! Uma semana ou mais!
— Que exagero! — protestou Lorenza.

Dois dias? Uma semana? Talvez ficassem mais tempo... Que importância tinha? Andrea estava ali, separado dela não sabia porquê. Porque não gostava de se abrir aos outros? Por causa das pessoas com quem ela se dava? Porque ela evitava chegar-se a ele, tocar-lhe? Mas ele também não lhe tocava! Mostrava-se ofendido e não passava disso. Não a provocava, não a chamava... Ou era ela que imaginava essas coisas? A sua distância aparente, a tristeza e a ironia como a olhava incomodavam-na. E o primeiro movimento (ainda agora, se não estivesse ali Michele) era gritar:
—Eu não sou quem imaginas! Nunca hás-de compreender-me!
E, depois, porque ele a obrigara àquilo — e, se àquilo a obrigara, era porque algum poder tinha — sacudiria-o, com raiva (acontecera muitas vezes), diria:
— Já chega, vou-me embora! Não insistas, Andrea!
E, apesar de estar convencida de que ele nunca poderia compreendê-la, tinha remorsos: blasfémia pensar aquilo, dentro da própria dor preferir a insatisfação de que não se libertava.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A mordidela do chacal na pata do camelo...



Portugal dos Pequeninos, Coimbra... 'porque lhes fazeis tanto mal?'


Tanto chinfrim para nada... ‘O governo impõe’, título do Público...

O que é que imporiam os donos do Público?

O deita-abaixo da imprensa e tvs é duas coisas:

uma safadice e um alarmismo que paga nas vendas e nas audiências.

Safadice: quem os sustenta iria muito mais longe no direitismo –no reaccionarismo, no neo-capitalismo;

alarmismo: não há direito de coçar as feridas do masoquismo português e atiçar a raiva dos pobres (cuja raiva é justa).

Que este governo é um governo neo-liberal, sobre isso não tenho dúvidas.

Que não é o governo que eu queria, também não tenho.

Que é muito melhor do que um governo Brites de Almeida/ PSD ou Portas/ PP –também não tenho dúvidas.

E cá fico à espera de que isto mude para melhor –mas nunca seria pelos que tão freneticamente atacam o que está.

p.s. quanto ao PR: concordo com Mário Soares –com o dr. Assis de Boliqueime não há concordância possível: é o princípio de Peter...-: cedo demais para falar disso.

O regresso à verdade



É sempre aos nossos clássicos, porque falam a nossa língua e a deste país estranho, louco, como dizia Unamuno, de poetas locos, como poderá dizer qualquer um que nos olhe nos olhos, mundo pequeno e imenso de suicidas adiados, de geniais criadores e de almas à nascença entregues na mão de Deus, frágeis como todas as coisas divinas, e capazes de viajar na Nau Catrineta e ser gajeiros,

é sempre aos maiores, aos quase anónimos dos Cancioneiros, ao perfeito Sá de Miranda, ao cegueta, o Camões,

ou ao mártir português de si próprio mártir, o Sá-Carneiro, o do golpe de asa que, ao contrário do que ele julgava, agarrou no instante exacto em que se abriu para ele, branco de neve, cinzento dos invernos de Paris, puro tal qual as pernas da borboleta da noite de Pigalle, que lhe aconchegava a roupa, nunca bastante, a sua roupa de poeta-menino, a transparência trágica da vida, a asa fugitiva e batedora do único caminho até além da morte,

é, sempre, a José Régio, clássico e adolescente da cervejaria onde não o encontro mas vou buscar a outra margem, entre as árvores-homens,

é sempre a ele que volto.

E ele recarrega-me as baterias. É um homem sério e da mentira estou farto.

O dia de hoje: é no instante que se joga a vida!

óleo de Turner...




Do poema Ámen, de José Régio (in As Encruzilhadas de Deus), estes versos terrivelmente verdadeiros e... estimulantes:



Ai!, a vida!
E eu que ouvi que a vida é um dia!
Mas acaba e principia
A cada instante do dia...

domingo, 24 de janeiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Parte IIª XII

...'a cidade suspensa', óleo de Vieira da Silva



Todas as vezes que a procurara, não lhe fugira e estivera ao pé dele. Mas há muito que Caterina percebera: ele era da outra. Lia no seu olhar distante, a pedir-lhe desculpa. De quê? Não tinha que lhe dar mais nada, só aquele amor provisório. Amor? Um modo de amar, que achava certo, apesar de a ferir às vezes. Não seria muito? Viam-se e sabiam que um dia teria de acabar.

Andrea perguntara-lhe:
— Gostas de mim?
Ela respondera:
— Claro que gosto, senão, não estava aqui! Não acreditas?
Ele rira e dissera:
— Acredito.

Acreditavam e entregavam-se, despidos. Faziam-no e sentiam-se bem, queriam corrigir o destino e que a felicidade perdurasse. Caterina receava que um dia acabasse, que um dia não houvesse dia seguinte. E falava-lhe de Lorenza, a empurrá-lo para a outra. Mas, uma vez tudo acabado, gostaria que ficasse saudade e não sofrimento ou a vergonha de se terem confiado, vivido sem defesas aqueles instantes que os empolgavam.

-A Lorenza tem muita sorte! Subiu o Brenta num barco, com amigos, tiraram fotografias. Vão publicar um livro. Divertiram-se.

Andrea. fingia que não ouvia. O que ela queria -julgava- era picá-lo, obrigá-lo a reparar nela. E, realmente, reparava. Amava o corpo generoso que o envolvia, precisava dele. Possuía-a sofregamente, com desvairo, a convencer-se de que naquela mulher encontraria paz. E encontrava.

— Deixa lá a Lorenza! Agora, estamos aqui os dois. Não chega?
Ela sorria, incrédula, e ele insitia:
-Deixa lá a Lorenza! Amo-te! Sempre te amei, desde pequenina... Não te lembras das rosas que te ofereci?

Nunca lhe oferecera rosas. Lembrava-se dele, na quinta, ficara-lhe a imagem do rapaz sisudo, agarrado aos livros, que a ignorava.
— Está bem, vamos falar de nós...

Podiam falar um do outro. Não queria que pensasse que se aproveitava dele. Nunca se aproveitara de ninguém. Outros tinham-lhe dado muitas coisas, chegado e partido, sem dramas. Habituara-se a que fosse assim. A segurança aparente de Andrea não a enganava mas, durante algum tempo, aceitara-a e agora, sem ilusões, divertiam-na e enterneciam-na o ar sério e a fragilidade que descobria nele. Não era mais fraco do que ela mas ficava parado com facilidade. Caterina nunca parava. Filha de pequenos agricultores, vira a mãe, as mãos estragadas em cima da mesa da cozinha, a olhá-la e a pedir desculpa de estar ali. Recordava-se de quando voltava da escola e a mãe a sentava ao colo e o pai lhe passava a mão pelos cabelos e perguntavam:

-“Correu bem?...
...à espera que ela respondesse:
— “Correu bem!
...contentes por verem que ela gostava de voltar a casa:
— ... “Não somos ricos. Quem não estuda...

Sentia a obrigação de não os desiludir. E não desiludia porque acabava por ir buscar a força àquilo mesmo: a casa de seus pais, o terreiro onde a chuva amaciava a terra, a harmonia, corpo livre.

A mãe assustava-se:
— Vens toda suada, vê lá se estás quieta! Ainda adoeces!

Gostava de viver e não se poupava e na reprovação da mãe percebia que a preferia assim: selvagem. Que, depois, tivesse medo e insegurança, a mãe não se afligia por isso, confiava nela. Ou era o que pensava: a mãe acreditava que continuaria a andar para diante, com o medo e a insegurança: “Ninguém pára aquela menina, tem o diabo no corpo ...”. Sim, mesmo agora.

— Queres ou não queres?! — perguntava a Andrea.

E, porque ele queria, chegava-o a eIa. Eram momentos extraordinários: sentia-se muito feliz e, quando o ajudava a sair dela e começava a respirar, via-lhe o corpo descoberto, um corpo que se lhe oferecera. E claudicava outra vez: queria guardá-lo para si. E, porque sabia que era impossível, sacudia-o:
— Eu não te chego, pensavas era na Lorenza!
Andrea calava-se, ela tinha razão: pensava em Lorenza, e agradecia a Caterina o prazer que lhe dera.

A nossa inocência

...eis as 'virtudes' mais safadas que há...


O LUGAR DOS MORTOS

É lá ao fundo, no escuro, no mundo que não queremos ver nem iluminar. Às vezes, é gente pitoresca, vale a pena oito dias, entre eles. Nos “resorts”, nessas coisas turísticas, onde nos enfiamos com os parceiros do colete de caqui e da máquina fotográfica ao pescoço. Raramente nos cai um terramoto em cima ou um tufão. É barato. A terra dos mortos-vivos, dos cadáveres em pé, dos castiços, é barata. E não há motivo para ter escrúpulos, indo lá, deixamos dinheiro, ajudamos. Nos anos 80, conheci em Roma um exilado haitiano, fugido a Duvalier e à polícia secreta, que assassinavm. Escrevi, sobre ele, “A Aranha”. Escrevi o meu remorso: adivinhei a culpa: o crime da minha indiferença. Mais tarde, vivi em S. Tomé e descobri a miséria: o tal terceiro mundo. Dany Laferrière, no livro “O país sem chapéu”, põe na boca de sua mãe: “dantes, o cemitério era o único lugar seguro no Haiti”. Mas a fome até aos mortos rouba o sudário. Onde é o Haiti? Hoje, já o sabemos, vimos casas abatidas, feridos, despedaçados, vibrámos com um tremor de terra espectacular que mereceu honras de primeira página e horas nos telejornais. Vimos os vagabundos, os despojados, pelas ruas, entre os escombros, à cata de comida e a repetirem o provérbio indígena: “A cabra diz: “se como a planta amarga, é porque me sabe bem à boca”. Não tem outras. Laferrière é um exilado. Há milhares de milhões, daqui e dali. E devem todos eles -os expatriados- meditar a sabedoria da ilha mártir: “Partir não quer dizer chegar”. Emigrante não é de nenhum sítio. Também aqueles que saem do nosso país. Choca-nos? Olhem que a nossa responsabilidade é universal –não acaba no nosso traseiro.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte XI

...'mar=dança', óleo de Gino Severini, 1883-1966



“Só me interessas tu”, dissera-lhe Andrea e ela sabia que a outra continuava a interessar-lhe. Que se lembrasse de Lorenza parecia-lhe natural. Nunca esperara outra coisa. Às vezes punha-se a pensar se quisera só corrigir o amor que unia Andrea e Lorenza, ensiná-los a não fazerem asneiras. Ela via-o, muitas vezes, parado, com a outra à espera. Gostaria de lhe perguntar: “Por que é que não lhe dizes o que queres? Queres ou não queres viver com ela?” Nunca o fizera, ele responder-lhe-ia:
— “Quero, mas ela foge. Achas que a culpa é minha? Eu dela só sei que aparece quando lhe apetece...

E seria inútil insistir. Andrea contentava-se e aceitava. Revoltava-se, indignava-se, mas aceitava. Sabia muito pouco de Lorenza: mudara de curso, frequentava o Paolin, contava-lhe Francesco, não andava bem, dizia-lhe Paola Zanier. Sabia o que lhe iam dizendo: que, fora para a montanha; que aparecia em S. Stae a ouvir concertos; que a viam muitas vezes, com um grupo, pela lagoa, num gasolina. Escapava-lhe, através de uma existência que prescindia dele, através da provável alegria de ir aos cafés, de ouvir música, de andar com outros e, provavelmente, esquecia-o. Era bem pouco o que lhe diziam os amigos: não lhe contavam coisas extraordinárias e talvez fossem essas que ele gostasse de ouvir. Nunca ninguém lhe dissera que a vira agarrada a outro, que andava pelas discotecas à procura de compa­nhia ou que tinha um amante. E ele não a podia acusar mas não lhe perdoava que vivesse sem ele. Ia pelo seu caminho e não lhe perdoava que tivesse um caminho, onde ele não era preciso. Continuava a fugir-lhe.

Quando Caterina perguntava “Tens visto, a Lorenza?”, mesmo que não quisesse, a pergunta inquietava-o. Juntava-se às de outros: se tinha visto Lorenza, se sabia que ela ia ouvir con­certos e que andava preocupada, se sabia que andava com um grupo...

Não, não a via há muito tempo... E sentia-se culpado: não teria sido ele a deixá-la fazer aquilo? Que fora procurar ao Paolin? Por que é que nunca lhe falara dos concertos em S. Stae e andara a girar pela lagoa, sem ele? À procura de quê? Doíam-lhe as saudades dele ou a própria dificuldade? Andava longe porque ele se afastara ou por­que não tinha remédio? Seria, sempre, assim, inca­paz de ter rei ou roque?

Se tivesse ficado ao pé dela, seria diferente? Naquela inquietação, inse­gurança, imaginava-a aflita, a desperdiçar tempo e energias, a dar do que não devia, no amor por ela, não podia pensar que desse a outros o que só a ele lhe era devido. Andrea amava-a, absolutamente.

E, na crescente preocupação, ia afastando-se de Caterina. Sabia, é certo, pouco da outra mas preferia essa vertigem.

Um dia, Roberto disse-lhe:
— Quando é que voltamos, a Verona com a Caterina?
E Andrea pensou que gostava era de ir a Verona com Lorenza.
-Havemos de voltar...

E ficou a imaginar-se com Lorenza, pelas ruas de Verona, ela a dizer-lhe o que pensava e ele a dizer-lhe o que pensava, e sem mais ninguém. Os dois outra vez sozinhos, bruscos, desconfiados ou inesperadamente delicados. A responsabilidade era deles.