terça-feira, 7 de julho de 2009

Gado que somos gado em que nos transformaram comandados pela publiciiade e... pela necessidade...

... gado resignado...

Pois é: a companhia irlandesa Ryanair propõe-se vender bilhetes a metade do preço... a quem aceitar viajar de pé... Se bem entendi, a quem aceitar viajar com metade do traseiro sentado, apoiado num espaldar ‘reconfortante’, coisa estilo de banco alto de bar, a que acrescentam costas...

Há quem diga que não passa, de publicidade à companhia, que chama as atenções, graças ao inconcebível da oferta.

Mas será inconcebível? Não é assim, ou pior ainda, que andamos, todos os dias? Gado de fila de autoestrada, gado da colmeia/vespeiro de metropolitano, gado de fila, à espera de autocarro, gado de fila, à espera de emprego, gado de fila, à espera de sopas...

Numa palavra: não vivemos gadalmente? E não aceitamos essa animalidade, essa condição de bicho rebaixado, maltratado, humilhado?

Aliás, não nos limitamos a salivar como o celebérrimo cão de Pavlov? O anúncio diz: ‘vai ali!’, e nós vamos... mesmo de gatas (projecto de lugar aéreo ou de transporte público ainda não divulgado)...

O dia de hoje: a treta do "fim da crise" ou a mentira imperdoável porque de paleio não vive o homem

à procura de emprego...


Sobre a verdade do “fim da crise, que andam a apregoar para aí, convém reparar nestas duas notícias:

A OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico) informa: de Abril de 2008 a Abril de 2009, o desemprego aumentou de 40% nos países ricos (sublinhe-se e medite-se: nos países ricos... nos pobres, nem valerá a pena contabilizar: advinham-se os -vergonhosos e aterradores números -se os pobres não forem "coisas" para deitar para o lado...);

E mais diz a OCDE: de 2007 a 2010, deverá atingir-se a cifra de 26 milhões de desempregados, um aumento, sem precedentes, de 80%.

Segunda notícia: a própria banca reconhece que os empregos perdidos não serão recuperados e que ninguém sabe quais serão os empregos de amanhã” (Natixis, Brasil).

Ainda: Jean-Claude Trichet, presidente da Banca Central Europeia, confessa: “Criámos uma entidade nova, a economia mundializada, cuja fragilidade desconhecemos. Neste momento, o futuro não está escrito em nenhum sítio”.

E volto a perguntar: a apregoada recuperação em curso (chamam-lhe “fim da crise") não será o reequilíbrio do capital, à custa do sacrifício de milhões de trabalhadores, coisas descartáveis?

(outra pergunta: usar a palavra “trabalhadores” será pecado de esquerdismo radical?...
).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O insulto como vergonhoso modo de vida ou os limites das cabecinhas de amendoim...



Ainda a procissão vai no adro e já alguns (especiais...) opiniadores, politólogos e comentadores abriram a caixa dos seus conhecimentos.


E o que mostram é a pobreza intelectual, os cérebros tísicos. Não há massa cinzenta: há recheio de amendoim.


Insultam Sócrates (a caça ao homem já começara, diga-se a verdade...), insultam ministros e por aí adiante.


Que é que eles trazem de positivo ao debate pré-eleitoral? Nada ou nada mais que a serradura das tabernas rascas.


Eis mais uma imagem confrangedora de país atrasado –carregada pelo carvão de irresponsáveis, interessados em manter esse atraso.


Há alternativas a este governo? Apresentem-nas, inteligentemente, logicamente, honestamente –civicamente. Há alternativas às soluções socialistas (que podem não ser as do actual governo, entenda-se, e, nem por isso, antes pelo contrário, serem essencialmente socialistas)? Façam o mesmo: expliquem-nas, com cabeça de gente e não de oportunistas descerebralizados mas de dente aguçado, olho em postas futuras, pescadas, como sempre, no erário público...

O dia de hoje: a cidade ideal ou a utopia possível



Piero della Francesca pintou assim -imagem que reproduzo- a Cidade Ideal. A polis de harmonia, o lugar de encontro, de convivência, de solidariedade, de ajuda. Esse lugar não existe. Vivemos na desarmonia, no desencontro, no egoísmo, na luta feroz pelo osso –na chamada (monstruosa) ‘concorrência’. Foi isso que nos impôs o neo-liberalismo e que aceitámos. A lei que nos subjuga nada tem da moral: é a lei da selva.

Martine Aubry, secretária-geral de um partido socialista que se procura ( o francês: e ainda bem que se procura e tenta aproximar-se das soluções necessárias), Martine Aubry, que rejeita terceiras vias e compromissos com o liberalismo sem ética, diz, em entrevista ao ‘Le Monde’ de hoje:
Temos de inventar um postmaterialismo. Não queremos uma sociedade em que homens e mulheres concorram, na disputa das coisas, se temam uns aos outros – não queremos a sociedade que a direita constrói. Queremos uma sociedade de solidariedade e tolerância”.

Essa sociedade ainda não existe. Mas não é impossível. Depende de nós. Porque nós somos a cidade –mesmo esta, desgraçada, desumana, brutal, arena onde nos trucidamos uns aos outros. Somos responsáveis pelo açougue em que vivemos. Por este mundo sem sentido, amassado na morte da alma: a nossa morte-viva quotidiana. Entre nós e nós próprios cavou-se um fosso quase irremediável. No entanto, nada é irremediável, enquanto quisermos lutar pelo remédio.

Há muitos, muitos anos, há mais de dois mil, o filósofo grego Plutarco escreveu: ‘um homem verdadeiro é o começo de uma grande virtude’.
Ora ser verdadeiro é respeitar a verdade. E respeitar a verdade é respeitar-nos a nós próprios. E respeitar-nos a nós próprios é respeitar os outros. E, quando isso acontece, começa, também, a desmoronar-se o coliseu: o grande circo onde se traficam homens, se escravizam as pessoas (se transformam as pessoas em peças de máquina produtora), se humilham e ofendem: a megasociedade do roubo e do lucro.

p.s. uma pergunta: falam do fim da crise... Referem-se ao fim do desemprego (que abarca centenas de milhões) e à recuperação da igualdade de oportunidades ou à reestruturação do neo-liberalismo, sobre os cadáveres (que se multiplicam, vertiginosamnete) daqueles que deixaram de ser necessários a essa sociedade?

domingo, 5 de julho de 2009

O dia de hoje: um escritor alentejano de alma universal Fialho de Almeida com o estilo exuberante e alma torturada palco do mal e da candura...




...natural de Vila de Frades-Cuba e mais um português primo de russos...


Um outro escritor, que, na raiz, com ele bastantes coisas, tem a ver, Raúl Brandão, evoca-o -páginas extraordinárias-, em “Vale de Josafat”, terceiro volume das “Memórias”, e diz: “No fundo era um misto de cavador e de boémio”. Não ofende. Fialho é de origem humilde, descendente de camponeses, o pai caixeiro antes de chegar a mestre-escola. Isso marcou-o? Parece que sim e basta seguir o inteligente, claro e utilíssimo estudo/antologiua sobre o escritor, "Fialho de Almeida", de Jacinto do Prado Coelho, publicado em 1944 e (temo) incrivelmente nunca reeditado.

Fialho sofria a baixa condição social e sonhava com a riqueza. Tudo indica que o casamento com uma rica herdeira, também alentejana, fosse de interesse. Depois, exibiu a fortuna. Sempre descontente, porque o problema era outro e mais, muito mais, fundo: aguentar a vida. A brutalidade da vida. Não se adaptou a ela –chocou-o, desde a infância. O mal: os destinos espezinhados, as almas humilhadas e ofendidas. E aí está Dostoievski, aí estão os russos, nossos parentes, sei lá por que bulas! “Contos” (“A Ruiva”, por exemplo) e “A Cidade do Vício” (“O roubo”, “O morgado”) têm páginas quase insuportáveis. É uma descida aos infernos –que o quotidiano hipócrita, disfarçado e aceito, esconde. São gritos –e por aí Raúl Brandão é seu compadre, o Brandão de “Os Pobres” ou do lamento obsessivo que atravessa “A Farsa”.

À hora da morte, Paul Valéry, o cerebralíssimo Paul Valéry, indignado, constatou, exclamou: “La vie n’est qu’une grande couillonade!” Fialho e Brandão apostrofaram a absurda condição humana, desafiaram-na, porque nunca deixaram de a amar, malgrado a sua violência.

Raúl Brandão visitou Vila de Frades e Cuba, onde Fialho acabou por morrer, sem assistência, a ‘angina pectoris’ a estoirar-lhe a arca do peito. Viu a imensidade da planície alentejana, o silêncio da vila fechada. Trazia, consigo, dentro de si, a obra de mais um torturado (e não é por acaso que lembra Camilo, sozinho, à mesa de trabalho, no perdido S. Miguel de Seide, o vento e a chuva nas janelas e, ao longe, o Monte Córdova, mudo). E perguntou-se:

Tudo acaba na terra? O fantasma que se pôs a caminho soluça cada vez mais alto. Nem com a morte o debate cessa. A dor está viva, e o desespero vivo como na primeira hora. Folheio-te e a tua voz persegue-me. Talvez a felicidade te fosse vedada na vida –talvez o teu quinhão fosse outro...”

Jacinto do Prado Coelho cita: ‘Sentia uma imensa necessidade de afectos’ –escreve Silva Teles, que alude também (no artigo do ‘In-Memoriam’) a uma ‘hipertrofia da sensibilidade’.

Sem dúvida: Fialho era um vagabundo solitário, um insatisfeito visceral. Correu a noite de Lisboa e, assim, pôde surpreender as figuras trágicas, que fixou, magistralmente: os perdidos da vida. Precisava do mundo dos marginais: buscava-o. Do mesmo modo que observou, denunciou, arrasou o mundo dos instalado na vida e na indiferença. Mas mesmo esses privilegiados, a quem o sofrimento dos pobres (‘ralé’, segundo eles) não toca –esses, afinal, parceiros de uma comédia monstruosa, o nosso dia a dia sem sentido, os mostra o grande Fialho, inesperadamente fraterno e generoso, pobres cuja própria pobreza e o ridículo do próprio baile, da autodestruição (voluntária ou involuntária?), que os vitimam, ignoram, cordeiros de Deus, como os mais.

E, no meio de tudo, desponta, de quando em quando, a nostalgia de Fialho. É a vida simples da aldeia, o ritmo harmonioso da lavoura, a beleza do campo, o fascínio da terrível planície, necessariamente heróica, porque exige, aos que a afrontam, a coragem da entrega ao desconhecido. É o mundo idealizado, a chamar por ele.

Breve, certamente, essa esperança; depressa voltaria a revolta e a luta dos contrários: a candura da adolescente que vende amores perfeitos e transforma flores fanadas em cristais de alma, exposta ao insulto dos passantes... E o grito dos abandonados. E a marcha dos condenados à morte em vida. E a luxúria. E o pecado. E o nada –o nada que vem logo a seguir, outra vez, inexorável, o mais indiferente dos indiferentes...
em cima, o retrato a óleo, de Fialho, por Columbano

sábado, 4 de julho de 2009

O dia da independência dos USA num excelente artigo do 'El Pais' de hoje



4 DE JULIO EN el MALL
po Francisco G. Bastera


Estados Unidos celebra hoy la fiesta de su independencia: banderas desplegadas, barbacoas, fuegos artificiales, perritos calientes (el año pasado se consumieron 150 millones), cerveza. La principal celebración será en el Mall de Washington, la gran avenida imperial que conecta el monumento a Lincoln con el Capitolio, el mismo lugar en el que el 20 de enero tomaba posesión de la presidencia Barack Hussein Obama. Es un buen momento para detenerse a pensar en estos primeros seis meses del primer presidente negro que, por encima de todo, ya ha pasado una esponja capaz de lavar la pésima imagen arrastrada por su país desde comienzos del nuevo siglo. Hoy también se abre de nuevo al público en Nueva York la estatua de la Libertad, cerrada a las visitas tras los ataques terroristas del 11-S. Todo un símbolo del comienzo de una nueva época en la que Obama ha prometido conciliar la seguridad con las libertades. Promesa que ya ha chocado con la realidad, con el difícil funambulismo realizado por el presidente a la hora de acabar con la ignominia de Guantánamo.
Por encima de la vibrante retórica, la apertura al mundo musulmán y la mano tendida a los enemigos, Barack Obama ha podido constatar ya los límites de su presidencia. Abraham Lincoln admitía, en 1864: "No he controlado los acontecimientos. Por el contrario, éstos me han controlado a mí". Obama ya ha recibido las llamadas telefónicas de las tres de la madrugada de Corea del Norte, Pakistán, Afganistán, Jerusalén, Teherán, con el mensaje de que la realidad internacional es tozuda y las buenas intenciones por sí solas no la cambian.
Esta semana le sacó de la cama el golpe de Honduras, en el antiguo patio trasero de Estados Unidos, en Latinoamérica, resucitando una ominosa historia, que ya dábamos por enterrada, de invasiones y golpes militares, protagonizada desde el siglo pasado por Washington. Pero ahora la respuesta de Obama ha sido la opuesta: condenar el golpe, dejar que actúe la Organización de Estados Americanos y evitar prudentemente que el caudillo Hugo Chávez, su gran antagonista continental, pueda acusarle de intervención yanqui en los asuntos hemisféricos. Sería impensable que, hace 30 años, un Ejército como el hondureño, formado y financiado por Washington, hubiera sacado de la cama de madrugada a punta de fusil a un presidente sin la luz verde de la Casa Blanca. ¿Recuerdan que en la noche del 23-F, Alexander Haig, secretario de Estado del presidente Reagan, calificó el golpe de Tejero como "un asunto interno"?
Obama también ha demostrado prudencia ante la crisis de Teherán, manteniendo el ofrecimiento de abrir un diálogo directo con la teocracia iraní por encima de la convulsión interna de un régimen que sigue viendo a EE UU como el Gran Satán. En los dos casos, uso del poder blando de la única superpotencia todavía realmente existente, aunque sea por descarte. Templanza asimismo en Irak, donde todavía no ha cerrado la guerra desatada por George Bush, pero sí ha iniciado una retirada de las tropas estadounidenses, de momento de las ciudades. Por el contrario, en Afganistán, Barack Obama ya tiene su guerra propia. El jueves lanzaba una operación de 4.000 marines en el valle del río Helmand, en un intento de limpiar de talibanes esta provincia sureña, productora de opio, con el que se financian los insurgentes. Pero también es una acción militar con componente civil, porque las tropas ocuparán aldeas con un objetivo de reconstrucción y ayuda a la población. En cualquier caso, la guerra de Afganistán, complicada por la inestabilidad de Pakistán, es la apuesta más arriesgada para el nuevo Estados Unidos de Obama. Y la próxima semana el presidente celebrará en Moscú su primera cumbre con Rusia. Se trata de ver si abraza, y con qué condiciones, al oso ruso, reiniciando una relación bastante deteriorada. Barack se ha curado en salud y ha advertido que Putin "todavía tiene un pie en la guerra fría".
Pero al final del día serán la crisis económica, reavivada con una mala cifra de paro que ya alcanza al 9,5% de los estadounidenses, presagiando una recuperación sin empleos, y la difícil reforma de la sanidad, que el presidente pretende presentar este mismo mes a un Congreso incrédulo, las cuestiones que definirán el éxito de la Administración de Obama. Todavía no sabemos ante qué presidente nos encontramos: el buenista pragmático, para algunos blando y excesivamente componedor, que cree sobre todo en el diálogo, o el idealista sin ilusiones, como se definió John Kennedy, que será capaz de forzar la mano de sus adversarios en el exterior y en la escena doméstica y cambiar la historia. Aún es pronto para responder.

O dia de hoje: Maria João Pires, uma questão de Cultura em terra onde ela não se defende nem divulga e se vai, cada vez mais, tragicamente apagando...