Mais de 200 mil crianças entre os nove e os 12 anos vão mostrar amanhã e na quarta-feira o que aprenderam em Língua Portuguesa e Matemática mas, para as provas nacionais de aferição do 4.º e 6.º anos, quem precisa de levar cábulas são os professores.Estas têm a forma de um chamado Manual do Aplicador, através do qual o Ministério da Educação (ME) ensina aos professores o que têm de dizer aos alunos no início, no meio e no final das provas. As ordens do ME são claras: "Não procure decorar as instruções ou interpretá-las, mas antes lê-las exactamente como lhe são apresentadas ao longo deste manual". Com contagem de tempo, seguem--se as frases que os docentes deverão ler. São coisas como estas: "Em primeiro lugar, chamo a atenção para o facto de não poderem falar com os vossos colegas" ou "Acabou o tempo. Não podem escrever mais nada. Agora vão ter o intervalo". O conjunto preenche oito páginas. "No dia lemos tudinho como está no guião", confirma Paulo Guinote, autor do blogue Educação do Meu Umbigo e professor de História e Português do 2.º ciclo, que amanhã estará de novo entre os milhares de professores mobilizados para estas provas. A leitura demora tempo, é "entediante" e frequentemente os alunos não entendem o que se pretende. Nestes casos, depois da leitura obrigatória, os professores fazem o seu próprio resumo, com as instruções mais importantes. Todos os anos são enviadas as mesmas instruções, para serem lidas em todas as escolas, alegadamente para permitir uma situação de igualdade de condições. Para Guinote, esta prática constitui "uma espécie de atestado de menoridade que repetidamente é passado aos professores".Provas não são examesNas livrarias, por esta altura, não faltam os cadernos de preparação publicados pelas principais editoras escolares. É uma das partes visíveis de um efeito perverso que se tem vindo a consolidar. Professores, pais e alunos tendem a ver estas provas por aquilo que não são: como se fossem exames. Nas escolas, no último período, as aulas vão sendo convertidas em sessões de revisões, o que acaba por comprometer a possibilidade de se chegar ao fim dos programas. Mesmo quando estes são concluídos, tanto o calendário como o espírito das provas acabam por impor aos professores "estratégias de condensação da matéria no início do 3.º período", esclarece Guinote: as provas são realizadas em meados de Maio, mas o seu conteúdo recai teoricamente sobre todo um programa que deve estar concluído em meados de Junho.Apesar de tudo, "são um instrumento útil", frisa. É o terceiro ano consecutivo em que as provas de aferição, que começaram a realizar-se em 2000, são obrigatórias para todos os alunos do 4.º e 6.º anos. Os seus resultados não contam para a nota dos alunos. As provas são apresentadas como um instrumento para se avaliar competências e, em função disso, adoptar-se medidas de correcção das aprendizagens. "Leia em voz alta"Durante o ano, os professores estão na sala com os alunos. Quando chega Maio, o Ministério da Educação transmite-lhes as frases que terão de dizer nas provas de aferição. Alguns exemplos extraídos do chamado Manual do Aplicador:Primeira parte:"Leia em voz alta: 'Agora vou distribuir as provas. Deixem as provas com as capas para baixo'; 'Podem voltar as provas. Escrevam o vosso nome no espaço destinado ao nome'; 'Querem perguntar alguma coisa?'" "Desloque-se pela sala, com frequência", "Rubrique o enunciado no local reservado para o efeito"."Leia em voz alta: 'Ainda têm 15 minutos'; 'Acabou o tempo'. 'Estejam à porta da sala às 11h e 20 minutos em ponto'. 'Podem sair'".Segunda parte:"Leia em voz alta o seguinte: 'Agora vão iniciar a segunda parte da prova. Podem começar. Bom trabalho!'""Recolha as provas e os rascunhos". "Mande sair os alunos, lendo em voz alta: 'Podem sair. Obrigado pela vossa colaboração!"
domingo, 17 de maio de 2009
O dia de hoje...
´Que valor teria a minha vida sem o sonho?´, pergunta-se Raul Brandão, n’O Pobre Pedir. Este seu livro -o último que escreveu- é um requisitório. Raul Brandão é réu e juiz. ‘Do que me acuso é do que não fiz, tomando a tangente e remoendo palavras. Qual foi a tua acção? Que atenção deste à tua alma?’ Pede-se responsabilidades. É o fim, à vista –e que sentido deu à sua vida? ‘Não menti talvez –mas não falei verdade’. Eis o que ao angustia e aflige: que andou a fazer? Andou a simular, a fingir –a fugir ao caminho certo? O fim está sempre à vista –e é o medo dele que nos mantém de pé. Instintivamente. Mas aquilo a que nos agarramos vale, de verdade? Andou a fugir? Cobriu-se de panos, para não ver, para não sofrer a responsabilidade? Sócrates, filósofo que talvez não passasse de um vagabundo de Atenas, dado à conversa e à interrogação, quando lhe acenavam com o oiro, dizia: “Ora aí está uma coisa de que eu não vou precisar!” E corria, em busca dos amigos, banqueteava-se com eles, que é uma maneira de dizer, bebiam vinho, comiam frutos, falavam do sonho. E que sonho era esse -tão indispensável a Raul Brandão-, que imaginavam eles, os convivas de um ágape tão singelo? Singelo mas essencial –porque no resto é que estava o silêncio... o frio... a indiferença... Quando sonhavam, partiam à descoberta do desconhecido: do equilíbrio do Universo, isto é: do motivo por que estavam ali e do modo certo de se assumirem, sujeitos de uma aventura fantástica: aquela mesma: atravessarem a vida, tocarem o mundo. E imaginavam. Isto e aquilo. Teorizavam. E amavam; com o vinho, bebiam os dias. Talvez o problema fosse esse: não se enganarem no cálice. O que viria a seguir, quando morressem? Aquilo que imaginavam? Ou o nada? Aquilo que sonhavam? Teria de ser o que sonhavam: o sonho era tão intenso, arrebatava-os... Ardiam com ele. Ah, sem o sonho, nada era nada. ‘Quero poder continuar a sonhar, a viver o outro lado da vida!’, exclamava, mais ou menos, Brandão. ‘As coisas que trazeis, o oiro e as sedas, as pedras preciosas, dispenso-as’, troçava Sócrates, mais ou menos assim. Eu tenho a casa cheia de quadros e livros e música. Acompanham-me, quando se animam. Abrem-me as portas do tal sonho. E, no entanto, são, apenas, coisas. O indelével está dentro de mim, dentro de nós. Sim: essas meras coisas -livros, pintura, música- deixam de o ser, ao metê-las eu cá dentro. Afinal, só vivem quando as sonho. Afinal a vida, o universo, o Infinito só existe porque eu o sonho –o animo, quando o recebo na minha alma.
sábado, 16 de maio de 2009
Um apontamento de Irene Lisboa, transcrito do livro com o mesmo nome

Esta pobre mulher vestida de preto, que me bateu à porta de manhã, e que anda a vender agulhas e alfinetes, era a mãe daquele infeliz rapazito...
O caso veio no jornal não há muito tempo. Mas eu ouvi-o da boca de um seu espectador, que ainda estava impressionado quando mo relatou.
O rapazito ia a fugir de um polícia, com medo da multa. Vendia limões. E um carro eléctrico colheu-o. Era no Aterro, onde os carros vão sempre desabalados. Depois o povo levantou o carro em peso, mas o pobrezito morreu.
Era um ladrão da riqueza pública, um contrafactor das leis. Fugia com o a sua leve carga no braço para nos lesar...
A sua vida era uma bagatela. Como nada a defendia, um carro do acaso lha levou. Coisas de tão grande evidência!
E hoje a mãe do pobre que exerce como ele um comércio de miséria, destes que enfadam criadas e donas de casa, responde à minha pergunta acerca do seu luto: morreu-me o meu filho!’ e dá-me os sinais dele. Como andava também por estes sítios... Ajuda-me ainda a identificá-lo: era um que tinha a cara miudinha...
O caso veio no jornal não há muito tempo. Mas eu ouvi-o da boca de um seu espectador, que ainda estava impressionado quando mo relatou.
O rapazito ia a fugir de um polícia, com medo da multa. Vendia limões. E um carro eléctrico colheu-o. Era no Aterro, onde os carros vão sempre desabalados. Depois o povo levantou o carro em peso, mas o pobrezito morreu.
Era um ladrão da riqueza pública, um contrafactor das leis. Fugia com o a sua leve carga no braço para nos lesar...
A sua vida era uma bagatela. Como nada a defendia, um carro do acaso lha levou. Coisas de tão grande evidência!
E hoje a mãe do pobre que exerce como ele um comércio de miséria, destes que enfadam criadas e donas de casa, responde à minha pergunta acerca do seu luto: morreu-me o meu filho!’ e dá-me os sinais dele. Como andava também por estes sítios... Ajuda-me ainda a identificá-lo: era um que tinha a cara miudinha...
A literatura humilhada
Quem levar a sério a criação artística -e a não tomar por mais um “produto” da vergonhosa sociedade de consumo que nos sufoca- deverá demorar-se na “Correspondência” entre Flaubert e Georges Sand (Flammarion), livro de cabeceira de muito boa gente. Os dois escritores abordam a Literatura: quando é ela vida ou não? Onde, a inteligência e a exigência ética? Transcrevo aquilo que afirma a Sand: “Desde que a literatura se tornou mercadoria, o vendedor só atenta no cliente que compra e, no caso deste desprezar o objecto, diz ao autor que a sua mercadoria não serve”. E protesta: “A república das letras não é feira onde se vendam livros!” Estávamos em 1872. Hoje, que se passa na república das letras?
A feira requintou: multiplicou-se e refinou-se a publicidade, impuseram-se os anúncios, compraram-se os “críticos”, meros agentes dela, que aviltam quanto aconselham e, submissos, escamoteiam o que, realmente, vale. A feira transformou-se em coelheira prolífera e sem escrúpulos. Enterram-se vivos e entronam-se mortos –ilusão pensarmos que se está vivo numa farsa assim, trágica, asfixiante, castradora.
Servem-se e impõem-se obras menores, inventam-se reis nus. A vida é curta e todo o tempo pouco para o perdermos com banalidades –entendem, justamente, alguns leitores. Mas que tempo, espaço e liberdade nos deixa o caldeirão onde caímos –a tal aldeia global, praça florescente de vigaristas obcecados pelo tal lucro, pela banha sacada à morte viva que nos impõem?
Quem procura sempre encontra...

Vale a pena procurar, nos tabuleiros onde se expõem e vendem livros usados, esta edição de Voltar atrás para quê? Já a vi, por aí...
Quando saíu, vendeu cerca de 13000 exemplares, ao tempo, um grande sucesso. Mas estava incluída numa colecção, teve publicidade e 2 ou 3 programas na RTP...
De qualquer modo: é uma obra-prima da Literatura Portuguesa.
O dia de hoje...

Irene Lisboa: como é possível que uma escritora da sua qualidade, inteligente, hábil, capaz de fixar os instantes, a beleza e a dificuldade, a maravilha e a violência –ande pela “segunda linha”, esquecida, menosprezado, nem sequer tenha editor, nem sequer seja possível encontrar-lhe os livros? É um escândalo. Um escândalo cultural. Uma vergonha. Não há quem a ensine os adolescentes? Não há programas de ensino de Literatura Portuesa? Eu sei que há: desastrosos. Não há quem lhe dedique páginas? Não há revistas culturais, literárias? Imbecilizámos, chuparam-nos o cérebro por uma palhinha?
Bem escrevia ela: ‘O meio literário ser pequeno acarreta muita outra pequenez. Como aqueles que escrevem, escrevem com a mira naqueles que os lêem, e todos mais ou menos se conhecem, directa ou indirectamente, o círculo fecha-se logo muito depressa.’
Irene Lisboa não faz parte desse círculo de socorros mútuos ou de invejas e ódios mesquinhos. Eu sei: já morreu. Mas nunca fez: foi uma isolada, independente, por natureza. Tinha uma obra a levantar – e esse trabalho não é compatível com a intrigueta literata.
As suas páginas... A pungente humanidade das suas páginas! Tão actuais! Assim:
“Os bairros-das-latas à vista...
Parece que estes bairros andam a ser demolidos. Mas para onde se escoará essa população?
(...) A miséria não acaba, por mais que a espanquem, é certo, mas pode perder os rumos conhecidos”.
E a miséria continua a disfarçar-se, a ser atirada para guetos, para longe da vista e do coração dos privilegiados... Prédios e prédios desumanos, frios, aqui e ali, encostados às autoestradas, longe, periféricos, arrumados à margem, betão e betão, nem árvores nem relva. Os pobres, os remediados (esta palavra é monstruosa), os de 2ª e 3ª classe são marginalizados -evita-se que a sua miséria incomode, inquiete, mexa nas consciências dos que estão por cima -desinfecta-se o ambiente.
Um dia... podem perder “os rumos conhecidos”. Sabe-se lá o que pode acontecer! E o pior é que “a miséria não acaba, por mais que a espanquem”... A ironia de Irene Lisboa quer dizer: a miséria continuará a atirar-nos à cara o crime cometido (a nossa responsabilidade): ou a criámos nós, ou consentimos que a criassem, ou é-nos indiferente.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
O grande Umberto Saba

Umberto Saba (11883-1957) e Italo Svevo (1861-1928) foram considerados os maiores escritores do século XX italiano. Ambos são de Trieste, cidade que só voltou à Itália em 1918. Pertenceu ao império austro-húngaro, e a fronteira, a leste, abriu-a à Eslovénia. E já agora: é, também, a terra natal de Claudio Magris (o autor de Danúbio, editado, entre nós, pela Dom Quixote). Mas vamos ao sodo, como se diz em italiano; vamos ao osso, ao essencial. Quem ouviu a entrevista de ontem, que António Levy Ferreira me fez, para a Rádio Universitária do Minho (aliás, podem ouvir-está guardada- no site, programa Livros com Rum), talvez se lembre da minha frase seguinte: ‘As nossas razões são tão respeitáveis como as razões dos outros”. A única condição que punha era que fossem elas sinceras, autênticas. Desculpem citar-me mas (Pessoa recorria ao mesmo expediente) sou o exemplo que tenho mais perto... Admiro, profundamente, Umberto Saba. O seu Canzoniere é meu livro de cabeceira, há mais de 30 anos. Tenho a sorte de poder lê-lo no original (traduzir poesia é quase impossível... e ressalvo, aqui, a excelente tradução que José Bento fez de Pablo Neruda, Antologia de Pablo Neruda, Editorial Inova, defunta, julgo...). Admiro o grande poeta e admiro o homem de uma cara só. Ora leiam o que segue, tirado de uma carta do pintor Gottuso, militante do PCI, ao libertário Saba: “nunca foram tão necessários homens como tu, que se preocupam com os outros, que transmitem aos outros a sua consciência humana, os seus sofrimentos e a sua luz –e não importa de que coisas fales porque falas, sempre, como homem e falas do coração humano”. Escrevi, sobre Saba, em Novas Crónicas Italianas (Teorema) e noutros lugares. Como há horas felizes, aqui deixo uma belíssima poesia sua (quem sabe?, talvez alguém leia italiano):
Notte d’Estate
Dalla stanza vicina ascolto care
Voci nel letto dove il sonno accolgo.
Per l’aperta finestra un lume brilla,
Lontano, in cima al colle, chi sa dove.
Qui ti stringo al mio cuore, amore mio,
Morto a me da infiniti anni oramai.
p. s. existe tradução portuguesa de uma pequena obra-prima de Saba: a novelinha Ernesto
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