Júlio Dinis (1839-1871)
Fui buscar um autor que
muito aprecio e tanto emociona: Júlio Dinis.
Quis eu virar as costas
à multidão que enlouquece, em tempo desumano, egoísta, frio. Quis recuperar a
paz de um tempo: quando me foi dado crescer no campo, junto daqueles que vivem
a vida, conhecem os nomes das árvores, dos pássaros e das flores, das estações
do ano e dos que habitam a terra e lhe emprestam a beleza e a música.
Escolhi As Pupilas do Sr. Reitor.
E lá topei, a páginas
tantas, a frase diamantina, constante da Bíblia
Sagrada do Padre António Pereira de
Figueiredo, que cita Mateus V,5; e é o Reitor quem exclama:
-Bem-aventurados
os que choram!
Sim, bem-aventurados
aqueles que sentem o sofrimento alheio, a violência do dia-a-dia, o inferno criado.
Eles podem,
compreendendo e interiorizando a dor do outro, ajudar a trazer de volta a justiça.
Eles podem aquecer e
consolar os abandonados, os traídos, os escravizados.
A sua existência, as
suas lágrimas libertam o mundo da fogueira acesa em redor do bezerro de oiro.
A frase do Reitor –bem-aventurados os que choram!- tocou-me
fundo: sublinha a humanidade de Júlio Dinis, o jovem romancista que viria a ser
um dos maiores romancistas portugueses –dos poucos maiores- se a morte o não levasse cedo de mais –aos 32 anos.
E lembrei –não exagero,
sei o que escrevo- Anton Tchekov e o sofrimento do lúcido russo, diante da multidão
extraviada, violenta no desespero da própria infelicidade:
-Esta
gente vive tão mal!
…desabafou Tchekov, ele
também, certamente, de olhos marejados, lágrimas retidas.
Júlio Dinis não lera
Tchekov, nem poderia, Tchekov tinha 11 anos quando ele morreu; leu e releu os
ingleses, Jane Austen, Dickens, Thakeray…
Mas ligam Dinis e
Tchekov a infinita bondade, a ardente humanidade, o generoso procurar o outro e
com ele dividir o bem e o mal –porque o bem a que acenam participa da luta contra o mal.
Sim, amigo, da luta de
Jacob com o Anjo –pão nosso de cada dia.
Anton Tchekov (1860-1904)


Que comparação tão bela. Gosto muito de Tchekov. De Júlio Dinis apenas li dois livros.
ResponderEliminarLucidez tão boa a sua.
Já pensou em escrever um Diário? Ou melhor um livro de reflexão.
Excelente.
Beijinho. :))
Cara ana, escrevo Diário há muitos anos... Um Diário que está em vias de ser depositado na BN, selado, e aberto 50 anos depois da minha morte. É um Diário confessional e pouco literário... Desde 1960 e com três cadernos de 1958, 1959.
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