quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Uma questão de humanidade


Júlio Dinis (1839-1871)


Fui buscar um autor que muito aprecio e tanto emociona: Júlio Dinis.

Quis eu virar as costas à multidão que enlouquece, em tempo desumano, egoísta, frio. Quis recuperar a paz de um tempo: quando me foi dado crescer no campo, junto daqueles que vivem a vida, conhecem os nomes das árvores, dos pássaros e das flores, das estações do ano e dos que habitam a terra e lhe emprestam a beleza e a música.

Escolhi As Pupilas do Sr. Reitor.

E lá topei, a páginas tantas, a frase diamantina, constante da Bíblia Sagrada do Padre António Pereira de Figueiredo, que cita Mateus V,5; e é o Reitor quem exclama:

-Bem-aventurados os que choram!

Sim, bem-aventurados aqueles que sentem o sofrimento alheio, a violência do dia-a-dia, o inferno criado.

Eles podem, compreendendo e interiorizando a dor do outro, ajudar a trazer de volta a justiça.

Eles podem aquecer e consolar os abandonados, os traídos, os escravizados.

A sua existência, as suas lágrimas libertam o mundo da fogueira acesa em redor do bezerro de oiro.

A frase do Reitor –bem-aventurados os que choram!- tocou-me fundo: sublinha a humanidade de Júlio Dinis, o jovem romancista que viria a ser um dos maiores romancistas portugueses –dos poucos maiores- se a morte o não levasse  cedo de mais –aos 32 anos.

E lembrei –não exagero, sei o que escrevo- Anton Tchekov e o sofrimento do lúcido russo, diante da multidão extraviada, violenta no desespero da própria infelicidade:

-Esta gente vive tão mal!

…desabafou Tchekov, ele também, certamente, de olhos marejados, lágrimas retidas.

Júlio Dinis não lera Tchekov, nem poderia, Tchekov tinha 11 anos quando ele morreu; leu e releu os ingleses, Jane Austen, Dickens, Thakeray…

Mas ligam Dinis e Tchekov a infinita bondade, a ardente humanidade, o generoso procurar o outro e com ele dividir o bem e o mal –porque o bem a que acenam participa  da luta contra o mal.

Sim, amigo, da luta de Jacob com o Anjo –pão nosso de cada dia.



Anton Tchekov (1860-1904)

2 comentários:

  1. Que comparação tão bela. Gosto muito de Tchekov. De Júlio Dinis apenas li dois livros.
    Lucidez tão boa a sua.
    Já pensou em escrever um Diário? Ou melhor um livro de reflexão.
    Excelente.
    Beijinho. :))

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  2. Cara ana, escrevo Diário há muitos anos... Um Diário que está em vias de ser depositado na BN, selado, e aberto 50 anos depois da minha morte. É um Diário confessional e pouco literário... Desde 1960 e com três cadernos de 1958, 1959.

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