sexta-feira, 12 de julho de 2013

Fado

"Rapariga", óleo de Odilon Redon


DO GIRO

Pureza dos Anjos Lírio
(que nome tão de pensar…)
borboleta da Avenida
e dezoito anos feitos,
com raposas de coelho
e permanente de bairro,
com três pulseiras douradas,
um colar também dourado
e brincos de galatite,
mais dez cautelas de prego
na carteira de verniz
-carteira profissional-
conta o Diário de Notícias
(bem melhor o não contara!)
que derreteu quatro caixas
de fósforos e as bebeu,
como se os fósforos de hoje
matassem como os antigos.

Tinha os olhos revirados
quando a levaram ao banco,
espumejava-lhe a boca,
já não não ria como dantes,
e os dentes tinha-os ferrados,
os dentes que dantes riam.
Morrer como pretendera,
se os lumes dessem a morte,
não lhe deixaram querer.
De carteira de verniz,
com as cautelas de prego,
o baton e o retrato
daquele que a perdeu,
ao asfalto a romper solas
e a chocalhar as pulseiras
dentro em breve tornará.

Ah! que se houvera morrido,
mas por tal preço, não menos,
a gente acreditaria
na alma que não supunha
possível dentro em seu peito!
Um novo Alexandre Dumas
talvez reconstituíra
seu impuro e puro mundo
só nascido da desgraça.
Então, lembrar o seu riso,
A lembrança do seu riso
seria mais que a lembrança
dum riso profissional.
-Pureza a tua lembrança
viria turvar-me os olhos.

Tomaz de Figueiredo in Guitarra, Guimarães Editores, Lisboa, 1956  


6 comentários:

  1. É uma história dramática.
    A pintura é muito bonita.

    Desejo-lhe um bom fim-de-semana!

    ResponderEliminar
  2. Gosto muito deste pintor.
    Não conhecia este poema.
    Obrigada pela partilha.
    Boa noite e bom trabalho. :))

    ResponderEliminar
  3. Isabel, é um belo poema de um grande escritor. Bom fim de semana e um beijo

    Manuel

    ResponderEliminar
  4. Ana. Mas conheces o grande escritor que é o Tomaz de Figueiredo, certamente. Bom fim de semana e um grande beijo.

    ResponderEliminar
  5. Tomaz de Figueiredo... tão esquecido!!

    Contra mim falo que não o leio!! Mas é um excelente escritor e com uma obra vasta.

    Muito bonito o poema e o quadro.

    Beijinhos.:))

    ResponderEliminar
  6. Cláudia, ele é, sobretudo, um grande ficcionista. Quando calhar, leia. Um beijo.

    ResponderEliminar