domingo, 28 de abril de 2013

Da imbecilidade comandante -hoje é Domingo, rouba dois minutos ao dia e espreita o que te deixo...

Imagem de Paris, Louvre

Desapareceu o francês -a língua e a cultura francesas  do nosso ensino? Praticamente, desapareceu. 

A razão? A mediocridade daqueles a que foram confiados os programas escolares, para não dizer a estupidez, que me sabe melhor e responde à raiva que a estupidez -isenta de impostos!- me provoca.

Toda a Cultura portuguesa deve à França.

Mas o ensino, hoje, é comandado por outro valor que não a Cultura e, muito menos do estudo do passado da nossa: marcha ao toque da obrigação de aprontar produtos rentáveis –e via segura, parece ser o inglês, o péssimo inglês da Internet e ok, ya, of course, remexedor dos ossos de Shakepeare na campa e escandalizador de qualquer anglo-saxónico que haja cursado um college decente.

O nosso honesto Eça, mandava dizer a Oliveira Martins cuja Inglaterra de Hoje (1894) representa aversão profunda à pérfida Albion (não esquecia o grande escritor e historiador a tristeza de ter sido Portugal, durante séculos, colónia britânica, chupada até ao tutano…), confiava Queirós, em carta de 10 de Maio de 1884, ao grande amigo do Cenáculo, o seguinte:

“A nossa arte e a nossa literatura vêm-nos feitas de França, pelo paquete, e custam-nos caríssimo com os direitos de alfândega. Eu mesmo não mereço ser exceptuado da legião melancólica e servil dos imitadores. Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês –excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. Em tudo o mais, francês de província. Nem podia ser de outro modo: já no Pátio da Universidade, já no Lardo do Rossio, eu fui educado e eduquei-me a mim mesmo, com livros franceses, ideias francesas, sentimentos franceses, ideais franceses.”

O que se passou comigo, não vale um caracol, mas que remédio senão citá-lo, justificando-me com Pessoa, que se desculpava assim: “…sou o exemplo que tenho mais perto”?

Também eu li os franceses, de Hugo a Jean-René Huguenin, pelo meio, André Gide, Proust, Claudel, Bernanos & Cia; também a mim Paris e o cinema francês me fascinaram e fascinam,

Já li, porém, grandes escritores norte-americanos, Mark Twain, Jack London, Steinbeck, Hemingway, Carson McCullers, Dashiell Hammett, os grandes ingleses, os grandes russos…

E concordo com André Gide que considerava os ingleses e os russos os melhores romancistas…

Mas também eu fui educado através da cultura e da língua francesa, que, aliás, me abriu os escritores de língua inglesa e russa…

Aos italianos, aos quais devo muitíssimo -Italo Svevo, Umberto Saba, Federico Tozzi…, por exemplo-, à língua italiana, cheguei muito mais tarde, quando as boas fadas me instalaram em Roma…

Ignorar a França, dar de barato a língua e a cultuar francesa é uma imbecilidade; mas um povo que tem o presidente da República e o governo que tem…

7 comentários:

  1. Manuel,
    É uma tristeza sim. A língua francesa e a cultura que circulava nos círculos cultos queirosianos não se deviam perder. Houve uma viragem para a língua inglesa, para além do inglês britânico, a cultura de massas, a globalização leva a este estado de sítio. É bom podermos estar presentes em todo mundo (excepto nos países que são pobres ou estão em vias de desenvolvimento, ou por razões políticas e religiosas...). A cultura devia ser planeada e organizada para o ensino. Quanto ao grande público o maravilhoso acesso da internet, que me permitiu conhecê-lo virtualmente, tem coisas positivas e também negativas, é claro.
    A blogosfera provocou juntamente com a democracia e liberdade a revolução das mentalidades.
    Só políticos responsáveis podem refletir sobre o conhecimento.
    Muito interessante a sua interpelação.
    Beijinhos. :)

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  2. De acordo! É uma grande verdade e é uma pena perder-se o francês!

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  3. Ana, a Cultura, em Portugal, existia já e em força muito antes do Eça e seus amigos. Certo, é um péssimo inglês de massa o que se distribui por aí.

    Quanto a presença, desculpe, mas por pobres, subdesenvolvidos ou islamistas, ou budistas, ou judaicos -em todos eles a nossa presença será sempre positiva, a bem das duas partes.

    Depois: a Cultura não se planeia: acontece, nasce e desenvolve-se, faz-se por si e, depois, o ensino divulga-a e defende-a.

    A Internet é um pau de dois bicos: ou bico bom se usada por gente com cabecinha, ou bico mau, se usada por tolinhos ou incultos ou superficiais.

    Quanto aos políticos: raras vezes estão à altura da Cultura e muitas vezes odeiam-na: têm medo dela. Prefiro que não reflictam sobre ela.

    Um beijo.

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  4. Manuel não me expliquei bem. Os países a que me refiro não deixam que haja acesso à informação, era isso que queria dizer. Eles são excepção em relação à globalidade e livre acesso à internet.
    A diversidade cultural é para mim um bem e uma excelência. Aliás, gostava de viver fora de Portugal, embora ame o meu país. Não sei se lhe disse mas o doutoramento era para mim uma porta para partir, o meu desejo era ir para Moçambique, como vê não é um país rico, nem sequer está nos circuitos turísticos.
    Adoro as suas vivências porque esteve na Itália que adoro, em S. Tomé e em Israel, tudo sítios que gostava de conhecer. Desejo que entenda a minha falta de explicação.

    Desde pequena que admiro os "estrangeiros" e sempre sonhei que um dia ia com eles conhecer o mundo.
    Beijinho. :)

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  5. Os políticos que odeiam a cultura são oportunistas e têm medo de quem tem acesso a ela.
    Quando digo planear,digo preparar bons currículos.
    A cultura não deve ser instrumento do poder, é verdade, mas o poder se não aposta na cultura, esta tende a ser só para uma elite. :(

    Hoje estou com falta de clareza mas desejo que entenda a minha maneira de ver.

    Se não há investimento na cultura, não se vê ópera, teatro, concertos... hoje, infelizmente está a voltar a ser para alguns.
    Beijinho e peço desculpa pelas intervenções.

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  6. Ana, entendi e concordo em vários aspectos. Viaje! O mundo espera por si. Tenho notícias frescas de Moçambique: é pobre, vive um conflito latente, complexo, rico culturalmente -explorado indecentemente por forças que nem sequer são portuguesas... Um beijo e o desejo de um Domingo feliz!

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  7. Ana, ainda que haja interesses portugueses, que implicam ex-salazaristas, em movimento...

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