Imagem de Paris, Louvre
Desapareceu o francês -a língua e a cultura francesas do nosso ensino? Praticamente, desapareceu.
A
razão? A mediocridade daqueles a que foram confiados os programas escolares,
para não dizer a estupidez, que me sabe melhor e responde à raiva que a
estupidez -isenta de impostos!- me provoca.
Toda a Cultura
portuguesa deve à França.
Mas o ensino, hoje, é
comandado por outro valor que não a Cultura e, muito menos do estudo do passado
da nossa: marcha ao toque da obrigação de aprontar produtos rentáveis –e via
segura, parece ser o inglês, o péssimo inglês da Internet e ok, ya, of course, remexedor dos ossos
de Shakepeare na campa e escandalizador de qualquer anglo-saxónico que haja
cursado um college decente.
O nosso honesto Eça,
mandava dizer a Oliveira Martins cuja Inglaterra
de Hoje (1894) representa aversão profunda à pérfida Albion (não esquecia o grande escritor e historiador a
tristeza de ter sido Portugal, durante séculos, colónia britânica, chupada até
ao tutano…), confiava Queirós, em carta de 10 de Maio de 1884, ao grande amigo
do Cenáculo, o seguinte:
“A
nossa arte e a nossa literatura vêm-nos feitas de França, pelo paquete, e
custam-nos caríssimo com os direitos de alfândega. Eu mesmo não mereço ser exceptuado
da legião melancólica e servil dos imitadores. Os meus romances, no fundo, são
franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês –excepto num certo fundo
sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto
depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. Em tudo o mais, francês de
província. Nem podia ser de outro modo: já no Pátio da Universidade, já no
Lardo do Rossio, eu fui educado e eduquei-me a mim mesmo, com livros franceses,
ideias francesas, sentimentos franceses, ideais franceses.”
O que se passou comigo,
não vale um caracol, mas que remédio senão citá-lo, justificando-me com Pessoa,
que se desculpava assim: “…sou o exemplo
que tenho mais perto”?
Também eu li os
franceses, de Hugo a Jean-René Huguenin, pelo meio, André Gide, Proust, Claudel,
Bernanos & Cia; também a mim Paris e o cinema francês me fascinaram e
fascinam,
Já li, porém, grandes
escritores norte-americanos, Mark Twain, Jack London, Steinbeck, Hemingway, Carson
McCullers, Dashiell Hammett, os grandes ingleses, os grandes russos…
E concordo com André
Gide que considerava os ingleses e os russos os melhores romancistas…
Mas também eu fui
educado através da cultura e da língua francesa, que, aliás, me abriu os
escritores de língua inglesa e russa…
Aos italianos, aos
quais devo muitíssimo -Italo Svevo, Umberto Saba, Federico Tozzi…, por exemplo-,
à língua italiana, cheguei muito mais tarde, quando as boas fadas me instalaram
em Roma…
Ignorar a França, dar
de barato a língua e a cultuar francesa é uma imbecilidade; mas um povo que tem
o presidente da República e o governo que tem…

Manuel,
ResponderEliminarÉ uma tristeza sim. A língua francesa e a cultura que circulava nos círculos cultos queirosianos não se deviam perder. Houve uma viragem para a língua inglesa, para além do inglês britânico, a cultura de massas, a globalização leva a este estado de sítio. É bom podermos estar presentes em todo mundo (excepto nos países que são pobres ou estão em vias de desenvolvimento, ou por razões políticas e religiosas...). A cultura devia ser planeada e organizada para o ensino. Quanto ao grande público o maravilhoso acesso da internet, que me permitiu conhecê-lo virtualmente, tem coisas positivas e também negativas, é claro.
A blogosfera provocou juntamente com a democracia e liberdade a revolução das mentalidades.
Só políticos responsáveis podem refletir sobre o conhecimento.
Muito interessante a sua interpelação.
Beijinhos. :)
De acordo! É uma grande verdade e é uma pena perder-se o francês!
ResponderEliminarAna, a Cultura, em Portugal, existia já e em força muito antes do Eça e seus amigos. Certo, é um péssimo inglês de massa o que se distribui por aí.
ResponderEliminarQuanto a presença, desculpe, mas por pobres, subdesenvolvidos ou islamistas, ou budistas, ou judaicos -em todos eles a nossa presença será sempre positiva, a bem das duas partes.
Depois: a Cultura não se planeia: acontece, nasce e desenvolve-se, faz-se por si e, depois, o ensino divulga-a e defende-a.
A Internet é um pau de dois bicos: ou bico bom se usada por gente com cabecinha, ou bico mau, se usada por tolinhos ou incultos ou superficiais.
Quanto aos políticos: raras vezes estão à altura da Cultura e muitas vezes odeiam-na: têm medo dela. Prefiro que não reflictam sobre ela.
Um beijo.
Manuel não me expliquei bem. Os países a que me refiro não deixam que haja acesso à informação, era isso que queria dizer. Eles são excepção em relação à globalidade e livre acesso à internet.
ResponderEliminarA diversidade cultural é para mim um bem e uma excelência. Aliás, gostava de viver fora de Portugal, embora ame o meu país. Não sei se lhe disse mas o doutoramento era para mim uma porta para partir, o meu desejo era ir para Moçambique, como vê não é um país rico, nem sequer está nos circuitos turísticos.
Adoro as suas vivências porque esteve na Itália que adoro, em S. Tomé e em Israel, tudo sítios que gostava de conhecer. Desejo que entenda a minha falta de explicação.
Desde pequena que admiro os "estrangeiros" e sempre sonhei que um dia ia com eles conhecer o mundo.
Beijinho. :)
Os políticos que odeiam a cultura são oportunistas e têm medo de quem tem acesso a ela.
ResponderEliminarQuando digo planear,digo preparar bons currículos.
A cultura não deve ser instrumento do poder, é verdade, mas o poder se não aposta na cultura, esta tende a ser só para uma elite. :(
Hoje estou com falta de clareza mas desejo que entenda a minha maneira de ver.
Se não há investimento na cultura, não se vê ópera, teatro, concertos... hoje, infelizmente está a voltar a ser para alguns.
Beijinho e peço desculpa pelas intervenções.
Ana, entendi e concordo em vários aspectos. Viaje! O mundo espera por si. Tenho notícias frescas de Moçambique: é pobre, vive um conflito latente, complexo, rico culturalmente -explorado indecentemente por forças que nem sequer são portuguesas... Um beijo e o desejo de um Domingo feliz!
ResponderEliminarAna, ainda que haja interesses portugueses, que implicam ex-salazaristas, em movimento...
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