domingo, 2 de setembro de 2012

Jacob e o Anjo


A esperança: "Mistério e melancolia de uma rua", 1914, óleo de Giorgio de Chirico

Quando o Espírito é vítima de assalto e o materialismo desvairado aponta a decadência do humanismo e da ética; quando se ouvem os tambores e os gritos dos novos bárbaros –fui buscar a um livro que escrevi, a voz reconfortante e estimulante de  Régio e Bernanos:

“José Régio lutava com o seu anjo: lutava consigo próprio. ‘Sim, à porta dos cinquenta anos, ainda me ponho ideias de vida como um adolescente. Até à morte serei, aliás, um adolescente [in Páginas do Diário Íntimo, Círculo de Leitores, p. 165].” E com esse incorrigível adolescente lutava o homem que, ao longo da vida, no palco da vida, ia conhecendo, ia vendo, as tortuosidades, os alçapões, a fácil hipocrisia.

A luta de Régio era com o adolescente que levava dentro e não se cansava de sonhar e querer coisas insensatas. Com o adolescente que não conseguia arrancar de si -nem quereria, nem poderia, porque era ele-, com o sonhador, o insensato que participava da luta dos adolescentes, dos jovens a resistirem à normalização da vida, ao quotidiano baço, insípido, descolorido, perceptível no cinzento dos adultos, das pessoas crescidas, que Georges Bernanos desprezava. ‘Sê fiel aos poetas, sê fiel à infância! Nunca te transformes numa pessoa crescida!’, escreveu o autor do Diário de um Padre de Aldeia, no álbum de uma jovem admiradora brasileira.”

Memórias, José Régio e Outros Escritores, p.221, edições quasi/ Círculo Católico D’Operários de Vila do Conde, 2001

4 comentários:

  1. "Sê fiel aos poetas, sê fiel à infância! Nunca te transformes numa pessoa crescida!"

    Continuamos a tentar, para não perder os sonhos, a esperança, a magia...

    Obrigada por este belo excerto.

    Um bom domingo

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  2. Isabel, bom domingo e obrigado pelas palavras!

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  3. Este livro é simplesmente magnífico! Nada fácil de encontrar, o que é uma pena. Devia ser reeditado.
    Um beijinho.:))

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