As coisas duras, quando verdadeiramente as pensadas, são para se dizerem.
Aí vai uma:
todos os políticos que se afirmaram, logo a seguir ao 25 de
Abril, eram-no espontaneamente e eram resultado de certezas debatidas e
meditadas nas costas do regime salazarista; eram portadores de ideias que não
enraizavam em nenhuma escola partidária.
Exceptuados os quadros do PCP, que pertenciam, esses sim, a
um partido há muito a trabalhar no terreno, proselitista e de firmes convicções.
Tudo isso aproximava os políticos do povo, do eleitorado.
Hoje, a maioria dos políticos cursa uma escola: a dos
partidos; estuda uma espécie de direito
comercial que os ensina a negociar a chegada ao poder e a praticá-lo.
Ora eis aquilo que, á partida, os afasta do povo, do
eleitorado.
De facto, exercem a profissão
à margem do quotidiano comum: em arenas onde só eles, neo-políticos,
entram, actuam e decidem.
E o mais absurdo é que decidem da vida dos que não conhecem: do
povo, dos eleitores –dos cidadãos.
Não admira, pois, o descrédito crescente que os isola.
Não admira que os cidadãos ou se abstenham da intervenção
cívica ou procurem outros modos de a exercerem –e com outras pessoas.
Não poderia deixar de chamar as atenções para o seguinte:
subjaz, a este fenómeno, um perigo: o do triunfo do populismo e a aceitação do
regresso de formas autoritárias de governar.

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