quinta-feira, 14 de junho de 2012

Os políticos não moram na minha rua

Imagem de político, por Rafael Bordalo Pinheiro


As coisas duras, quando verdadeiramente as pensadas, são para se dizerem.

Aí vai uma:

todos os políticos que se afirmaram, logo a seguir ao 25 de Abril, eram-no espontaneamente e eram resultado de certezas debatidas e meditadas nas costas do regime salazarista; eram portadores de ideias que não enraizavam em nenhuma escola partidária.

Exceptuados os quadros do PCP, que pertenciam, esses sim, a um partido há muito a trabalhar no terreno, proselitista e de firmes convicções.

Tudo isso aproximava os políticos do povo, do eleitorado.

Hoje, a maioria dos políticos cursa uma escola: a dos partidos; estuda uma espécie de direito comercial que os ensina a negociar a chegada ao poder e a praticá-lo.

Ora eis aquilo que, á partida, os afasta do povo, do eleitorado.

De facto, exercem a profissão à margem do quotidiano comum: em arenas onde só eles, neo-políticos, entram, actuam e decidem.

E o mais absurdo é que decidem da vida dos que não conhecem: do povo, dos eleitores –dos cidadãos.

Não admira, pois, o descrédito crescente que os isola.

Não admira que os cidadãos ou se abstenham da intervenção cívica ou procurem outros modos de a exercerem –e com outras pessoas.

Não poderia deixar de chamar as atenções para o seguinte: subjaz, a este fenómeno, um perigo: o do triunfo do populismo e a aceitação do regresso de formas autoritárias de governar.



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