terça-feira, 5 de junho de 2012

Camilo e a alma portuguesa, 2ª vez

Camilo Castelo Branco, por Isolino Vaz


Aquilino Ribeiro, na Dedicatória/Prefácio em “Os avós dos nossos avós”, escreve: “a fisionomia moral do português correntio daria água pela barba ao psicanalista”.

A alma portuguesa…

Para Camilo Castelo Branco, que a compreendeu, assumiu e expressou como nenhum, essa alma deu trabalho e cansaço, custou-lhe sangue.

Nós temos as cantigas de amigo, Camões, a Nau Catrineta e a História Trágico-Marítima, António Nobre, Mário de Sá-Carneiro e quem de nós diga sermos um povo mestiçado que alia “gestas de fraude e de ludíbrio” e cuja inteligência “se adapta ao absurdo, quer em pensamento quer em obras”, um povo “triste e melancólico, bêbedo de fado e de saudade” (Aquilino).
Camilo confessa: “Eu sou um homem que conto a minha vida quando não posso, por ignorância, contar a vida alheia”.

Mas a sua vida (a sua obra) é o poço, o abismo, onde vamos reconhecer a nossa: Camilo é o tabelião do destino português.

No fascinante livro/álbum de José Viale Moutinho, “Camilo Castelo Branco, Memórias Fotobiográficas” (Caminho), está o Mestre, está o Santo, o Torturado de Seide –a alma portuguesa.

Os textos -superiormente seleccionados- que acompanham as imagens conduzem-nos, certeiramente, através da paixão camiliana, até ao suicídio. “Toda a gente, alguma vez, pensou em se matar, excepto os bons cristãos, os felizes e os tolos, que não são cristãos nem felizes, nem precisam ser senão tolos para viverem e até sobreviverem a si próprios”, ironiza Camilo.

O que levou a queimar os olhos em resmas de papel foi o vulcão que trazia dentro –e o que o levou a disparar o revólver foi o medo de morrer em vida. A morte, pérfida, sarcástica, devolveu-lhe a eternidade.


2 comentários:

  1. A postagem mais bonita que li hoje!
    Beleza... é disto que precisamos para não morrermos do cansaço e do tédio político que grassa no nosso país.
    Boa noite, Manuel!

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  2. Muito obrigado, Ana. Sabe que, para mim,na Literatura Portuguesa, há dois Grandes Mestres, nunca igualados: Camões e Camilo.

    E esse sentimento confirma-se de cada vez que os releio -eo que acontece, frequentemente.

    Bom feriado, amanhã... e verá que tudo há-de mudar.

    Um abraço.

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