Um dos que deixámos ir embora, aceitando ser roubados...Esse homem, que nasceu, em Penamacor, a 14 de Março de 1699 e morreu, em Paris, no dia de hoje, há 228 anos, não foi, apenas, um dos grandes médicos do século XVIII: com Luís António Verney (1713-1792), tentou esclarecer um país - o nosso - tragicamente fechado na ignorância.
Foi um respeitadíssimo físico e um admiradíssimo pensador, pedagogo, político.
Político, porque o é quem se ocupa da polis: da cidade, do viver bem dos homens uns com os outros, do justo contrato social.
Político, porque o é quem se ocupa da polis: da cidade, do viver bem dos homens uns com os outros, do justo contrato social.
António Nunes Ribeiro Sanches era filho de Simão Nunes, de Penamacor, e de Ana Nunes, de Idanha-a-Nova, ambos cristãos-novos, perseguidos, como a maioria dos familiares do grande iluminista, pelo Santo Ofício, pela Inquisição.
Eis porque o iremos encontrar, aos 13 anos, na Guarda e ali se demorou até aos 17: convinha que não habitasse com os pais, espiados e ameaçados, em permanência incomodados pelo Santo Ofício.
Estudou leis, em Coimbra, e desinteressou-se delas e do modo como funcionava a Universidade.
Doutorou-se em medicina por Salamanca, voltou à Guarda, onde praticou, e, em Novembro ou Dezembro de 1726 (tinha 27 anos), exilou-se – para sempre.
Ele não cabia, aqui.
Diga-se de passagem: Luís António Verney imitou-o: a intolerância de um Portugal pequeníssimo, mesquinho, medievo, obscurantista, atirou-o para o estrangeiro, onde viria a morrer, em Roma.
Através da milagrosa, luminosa Livraria Lumière, consegui um livro precioso que tudo conta e, sei lá porquê!, desde a sua publicação, em 1911, até hoje, não foi reeditado: ‘Ribeiro Sanches, a sua vida e a sua obra’, de Maximiano Lemos (honra a quem o lançou: Eduardo Tavares Martins, editor, Porto).
Citarei outros dois livros que, antes desse, me despertaram a curiosidade e considero muito importantes: ‘Dificuldades que tem um reino velho para emendar-se e outros textos”, de Ribeiro Sanches, Selecção, apresentação e notas de Vítor de Sá, Editorial Inova, Porto, 1971, e ‘Educação e Cidadania Na Ilustração Portuguesa, Ribeiro Sanches’, de Fernando Augusto Machado, Campo das Letras, Porto, 2001.
Não resisto a transcrever a dedicatória de Vítor de Sá:
“Ao Doutor Manuel Valadares, cientista europeu de Física Atómica, Ao Doutor Vasco Magalhães-Vilhena, filósofo e investigador científico, Ao Doutor Ruy Luís Gomes, professor e matemático –portugueses que, ainda no exílio, honram pela inteligência, tal como Ribeiro Sanches a honrou, a pátria nativa a que pertencem”.
A Dedicatória é de Novembro de 1971, o salazarismo imperava e faltavam menos de 3 anos para o 25 de Abril, e Portugal vivia agrilhoado, à margem da marcha da civilização.
Não irei contar-te, amigo, a vida e as tribulações de Ribeiro Sanches; procura, nos teus alfarrabistas, os títulos que te deixo acima.
Ribeiro Sanches era cristão-novo, um judeu, e a sua conversão ao catolicismo, obviamente imposta àqueles que não emigraram, quando milhares de outros foram expulsos em 1496, e muito pagou a nossa economia por via dessa monstruosa fraqueza e tolice de Manuel I, e muito ganharam, tanto!, os Países Baixos, a Holanda.
A escolha forçada dos que ficaram não explica tudo.
O anti-semitismo fomentado pela Igreja e modo de acalmar os povos espoliados naqueles tempos, o anti-semitismo, que atravessou séculos e reaparece, enterrado o escândalo do holocausto, que obrigou muita gente a conter-se e a chorar lágrimas de crocodilo, não chega para explicar o ostracismo a que votaram Ribeiro Sanches.
Quero é pôr o ponto no i.
Qual a razão por que Sanches era “incómodo” e a pátria lhe desprezou o génio, lhe perseguiu a inteligência, o obrigou a emigrar?
E qual a actualidade do seu drama?
Ribeiro Sanches incomodava porque pensava e desejava um Portugal diferente daquele que encontrara: desejava um país aberto à Europa em movimento, culturalmente evoluído e, consequentemente, politicamente evoluído.
Hoje, é isso que vocês, amigos, e eu desejamos: modernidade e bom governo.
Sanches tinha a seguinte ideia, transparente como a água, simples e profunda: o bom ou mau governo decorre da boa ou má Cultura.
Na Cultura, tudo assenta, e o modo de dirigir o país, de organizar a economia, de conduzir o ensino, a saúde, etc., tudo isso está umbilicalmente ligado ao modo de pensar de quem decide.
Não há uma ciência da economia nem uma ciência da política: há modos de escolher uma e outra, ou ambas abraçadinhas, cujas, conforme a Ética, a Moral, por sua vez, se ligam à Cultura.
Ribeiro Sanches colocava o Ensino à frente de tudo o resto, ou, se quiserem, antes de tudo o resto –e do saber nasceriam as escolhas justas.
Esse trinómio Cultura-Moral-Política era inaceitável num país fechado a sete chaves por uma Igreja ultramontana, ultra-trentina (refiro-me ao granítico Concílio de Trento), aceita e seguida por monarcas submissos – todos avessos, Igreja e monarcas, ao arejar dos espíritos.
Todos anquilosadores e satisfeitos, quando rodeados por um povo... anquilosado e resignado...
Um povo a que Salazar chamaria, com a sibilina hipocrisia, “um povo de brandos costumes”...
De 1750 a 1779, com progressivo enfraquecimento a partir da coroação de Maria I, governou o país o Marquês de Pombal.
Por isso, tanto festejou Ribeiro Sanches o Alvará de 1759, a expulsar os jesuítas e a retirar à religião o monopólio do Ensino, o poder de enrolhar os cérebros, de condicionar e sufocar o Espírito.
E assim deve ser, seja qual for a religião: separá-la do Estado.
Ribeiro Sanches pensou, trabalhou, escreveu. Foi um médico de reputação europeia, o preferido de Catarina da Rússia, que salvou, menina, e ela nunca esqueceu.
Foi o único português que colaborou na célebre “Encyclopédie ou Dictionaire Raisonnée des Arts et des Métiers” (1772), de Diderot e D’Alembert, a antevéspera da renovadora Revolução Francesa.
O seu emblema, ex-libris, dizia: “Não creu que para si viera ao mundo/ mas sim para útil ser ao mundo todo”.
Morreu consciente, tanto quanto pode estar quem entra em agonia.
Escolheu a saída: abandonou os remédios que lhe adiariam a morte e chegou a ela aliviado pelas drogas que a faziam mais suave.
Antes de vos deixar, amigos, que, se me lestes, fartos estais de me ler, acrescentarei: uma luz ainda assistiu ao apagar do grande homem.
Meses antes, Ribeiro Sanches, doente, foi a casa do nosso Ministro em Paris, Sousa Coutinho, que sofria. E este, diplomata bom e, quem sabe?, desiludido, mandou dizer ao seu país que Ribeiro Sanches chorara, abraçado a ele.
Ribeiro Sanches chorava porque a vida se ia. A morte adia-se, mas é uma faca –não perdoa.
Chorava por nós.
O que sonhara não se realizara.
E, lendo-o, vês como é actual: denuncia o desprezo pela Cultura e pelo Ensino, que nos traz mais este mau governo.
Vamos acreditar e realizar o sonho?
Théodore Monod lembrava: “A utopia não é o irrealizável, é aquilo que ainda não se realizou”.
Claro que a Utopia (com letra grande) se pode realizar! Temos de a procurar cada dia e... seguir
ResponderEliminarMas não fugindo sempre, acho eu...Não é a solução!
Manuel Poppe,
ResponderEliminarGrata pelo seu post tão interessante, tão profundo pois toca em tudo: ciência, política, religião, amor, intolerância. É intemporal.
Não concordo com tudo mas agradou-me bastante.
Boa noite!:)
Ana, ainda bem que não concorda com tudo. O que interessa é debater as ideias. Um abraço.
ResponderEliminarManuel Poppe