
Os maus governos provocam o descontentamento. E, quando carreiam a injustiça, despertam a indignação. A natural, legítima, compreensível repulsa.
Um pouco por toda a parte traduziu-se ela em comícios, em protestos de rua. E o que daí advirá?
Entre nós, o mau governo enraíza fundo nos séculos e, com altos e baixos, vem envenenando o 25 de Abril.
É do prefácio de “Os avós dos nossos avós”, de Aquilo Ribeiro, que transcrevo:
“Sendo o português sociável por excelência, na vida prática, para lá da boa intenção, é o mais inaglutinável dos viventes. E porquê? Porque associação implica vontade, disciplina, sobretudo esforço a longo prazo (...) nesta aversão pelo associacionismo o elemento de repulsa não é representado pelo amor da liberdade (...) antes rebeldia aos vínculos morais, atonia perante o dever social, impropriedade do seu individualismo para tudo que tenha carácter colectivo”.
Pergunto: a indignação cevar-se-á nela própria? Limitar-se-ão ao prazer de protestar aqueles que protestam?
Não creio que baste: arriscam-se a não ir além de um entusiasmo efémero.
Acusam os partidos, viram-lhes as costas. Condenam-nos à extinção.
Ora um partido é uma associação com um ideal, associação constituinte da democracia.
Instrumento e elemento essencial da democracia, como outras associações, os sindicatos, por exemplo.
Mas voltemos ao descrédito dos partidos.
Apura-se, que o seu ideal foi traído: chegado(s) ao poder, governou (governaram) o(s) partido(s) ao invés do que, a ser coerente, deveria(m) governar.
Não admira ver, depois, os que votaram nesses partidos a repudiarem-nos e a declarem-nos mortos.
Mas tais mortes não acarretam a morte do ideal democrático: reclamam a sua defesa.
O ideal, ainda que traído, nunca morre.
Dizermos, porém, que não queremos e não dizermos o que queremos, não leva a nada, pelo contrário, leva ao descrédito.
A indignação é a revolta da ética ofendida que urge salvar e reforçar.
Palavras -ainda que justas, bonitas, emocionantes, espectaculares- leva-as o vento.
Há que se estruturar, organizar, definir.
Apresentar, após, as razões, um programa: um caminho.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 29/05/11, revisto e desenvolvido
As palavras bonitas leva-as o vento... Mas o que é bonito fica, mesmo que se percam no tempo.
ResponderEliminarEste seu post traz-me dois problemas:
a) Os políticos ao governar sem respeitarem os ideais levam à descrença do partido. Concordo com este aspecto inteiramente.
b) Quanto à morte do "partido", à reivindicação pura, julgo que a minha ideia difere. É verdade que o ideal não morre nunca, mas para tal é preciso lutar, gritar e mostrar desagrado a quem desvirtuou a mensagem. Portanto, aqui não concordo com a sua visão.
Espero que compreenda. Os homens quando se tornam autocráticos têm paralelismos com as ditaduras.
A justiça está de rastos; a educação anda por caminhos difusos e burocráticos que nada abona para o conhecimento; o tempo dos animais políticos terminou, temos tecnocratas e um aprendiz de animal político que tem governado muito mal.
Estas eleições são um erro e tenho para mim que intimamente Sócrates as desejava. O patriotismo dele não me parece 100% verdadeiro.
O poder judicial deixou de ser um poder autónomo, tornando-se em parte, não generalizemos, clientelista.
Não posso escrever mais porque a acutilância é enorme.
Vou votar segundo o voto útil, na esquerda porque essa nomenclatura ainda não despareceu, há esquerda e direita e os meus ideias estão com a esquerda.
Abraço!