'Lisboa e o Tejo', 1935, óleo de Carlos Botelho (1899-1982)Pintura
Tarde de Janeiro.
Do alto de um terraço, todo meu, livre e só, aberto e tranquilo, oiço uns resquícios dos trabalhos da doca de Santos, um bater de cremalheiras que me lembram outros trabalhos fluviais, ouvidos em dias tristes, quentes e sós, de desterro...
Que luz, que dia! Quedo-me contemplativa e quase sem ver. Levanto poucas vezes a cabeça, mas sinto a amenidade do ar e do espaço desafogado. A cidade, ao meu lado esquerdo, transfigura-se. Entardece... e a bruteza, a desgraciosidade das casas brancas, de janelas escuras, em riscas verticais, com a mesma medida, vai desaparecendo.
Levanto os olhos e fico como parva. Paisagem de fumo! Um penacho incólume, cónico, abrindo em vassoira virada, sobe. E as casas em monte, aprumadas, como uma muralha, todas só de frontaria, sem fundo nem espessura, parecem cheias de vergões e doirados. Estão imponentes, suaves, meias fantásticas.
O penacho de fumo já desapareceu, ou não se dá por ele, tudo se vai tornando em fumo. O monte das casas distancia-se, perde a sua imponência. A luz diminuiu, há menos nitidez em tudo, só há claridade na água. Nela poisam os barcos cautelosamente, sem se moverem. Para um lado a terra e a água quase se confundem, tudo é névoa, tudo se funde... para outro, a luz esquecida, adormecida, parada na água, retém o dia.
Mas a tarde vai esfriando. De repente olho à direita e vejo o sol rubescente, meio coberto por nuvens. Do sol, como centro, partem nuvens rabiosas, brancas e roxas. O céu está realmente apoteótico, faz fim de tarde... Agora um penacho de fábrica estende-se a direito para o Tejo. Mas tudo se submerge em fumo, a cor, a hora. E eu recolho-me.
in presença, nº 41-42, Maio de 1934, assinado Irene
Gostei muito!
ResponderEliminarComprei recentemente um livro dela que está na montanha de livros para ler.
Excelente associação com a pintura.
Irene Lisboa é um dos grandes escritores da Língua Portuguesa. Há um livro dela menos falado que é uma maravilha: "Esta cidade!"
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