terça-feira, 4 de agosto de 2009

O dia de hoje: Keats e o seu amor impossível por Fanny Brawne...


Piazza di Spagna, Roma



Hampstead Heath





John Keats





Fanny Brawne







Casa, em Hampstead









Carta de Keats a Fanny









John Keats no leito de morte










Túmulo de Keats, no Cemitério Protestante de Roma




A vida breve de John Keats foi a de um poeta apaixonado. É o que sempre acontece, não é verdade?, e, também, que o acompanhem amores infelizes...



Keats nasceu, em Londres, a 31 de Outubro de 1795 e faleceu, em Roma, no dia 23 de Fevereiro de 1821. Os pais deixaram-no cedo (o pai morreu de uma queda de cavalo, em 1804, a mãe, tuberculosa, em 1810). A incerteza e a pobreza entraram no dia-a-dia. Houve quem o protegesse mas ninguém podia protegê-lo de si próprio. E aconteceram coisas: viagens, poesia, paixão.



Em 1818, Fanny Brawne, vizinha da casa onde se instalara no Norte de Londres, é a sua noiva oficiosa. Confidências, cartas, flores, etc... Tudo isso junto a um dos mais belos lugares que devem existir: Hampstead Heath, a mata de Hampstead... Porém, a fatalidade reclamou direitos: Keats não vence a dificuldade de raiz na relação com as mulheres; a tuberculose bate-lhe à porta. E, ou a esconder a doença ou a fugir ao sofrimento que lhe causava a presença de Fanny, em Setembro de 1820, parte para Roma. Lá morre, menos de um ano depois, da tal doença de família e dos artistas do tempo...



‘The Great beauty of Poetry is that it makes every thing every place interesting”, disse. É uma frase terrível porque é verdadeira: no mais banal instante, a poesia revela a maravilha. E a maravilha é ser imenso, quanto nos rodeia e sucede, necessário e inexplicável: alegria e dor. Ser tudo paixão.


Keats pediu que, na lápide tumular, escrevessem, as seguintes palavras: ‘Here lies one Whos Name was write in water’. Afinal, destino comum: passar num sobressalto.






segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O erotismo e a sensualidade de Degas

Esta tarde, sempre na National Gallery, demorei-me em frente de quadros de Degas. Reproduzo, acima, um deles: é o da mulher depois do banho... Em todos encontrei o erotismo e a sensualidade, o modo de interpretar e expressar uma vida... vivida ardentemente, deslumbradamente...

O dia de hoje: o cansaço da arte ou o beco sem saída...




O quadro, de Kirsten Stoltmann, está exposto na conhecida Saatchi Gallery, em Londres. Será uma obra de arte? Diz-te alguma coisa? Não será senão mais uma das muitíssimas tentativas de conquistar a primeira página? Impressionará, chocará, sequer?...
Levantar a questão serve, para abordarmos um problema actualíssimo: o da obsessão da pornografia. E outro, que assinalo acima: o do cansaço da arte ou o beco sem saída.




Vamos ao primeiro: não há filme sem que uma secretária não salte para cima do patrão, uma mulher não abra as coxas no assento da frente ou detrás do automóvel, um onanista não espreite o orgasmo da vizinha, ninfomaníaca (ou outra onanista, ou uma exibicionista) em acção –e por aí adiante. Não há romance, sem a sua dose do mesmo. E, pelo visto, não haverá pintura sem púbis (ou pénis)...




Erotismo... ou pornografia de salas de luz vermelha? Resposta oportunista (a pornografia ‘é o que está a dar’) à impotência, à frigidez galopantes? Conseguirão essas imagens e descrições desbancar o Viagra? Se calhar, não passa disso...




Cansa..., tal qual a arte se cansou. É, sempre, difícil encontrar o nosso caminho. Picasso dizia: “encontro, criando”. E encontrava. Mas isso dá trabalho, cansa. E é mais simples improvisar qualquer coisa que pareça diferente, que nos projecte num palco qualquer, que surpreenda... Foi o que buscou a Stoltmann? É a saída por que optam milhares (milhões) de outros? Acontece, porém, carecer de força o que não verdadeiramente nosso, não nos sai de dentro e pretende, apenas, destacar-se, singularizar-se. O que não é nosso nasce morto. Depois, e por issso, os milhares (milhões) de ‘brincadeiras’ (criar é um coisa séria, expor o que vai na alma é uma coisa séria) cansam: repetem-se demais. E quem o faz dá com o nariz na parede de fundo do beco sem saída...
É um risco escrever o que escrevi? Eu sei que é –e talvez vá, certamenete vou contra a onda do ‘que está a dar’... Talvez, tu, amigo, sinceramente aches o quadro da Kirsten Stoltmann uma obra de arte... talvez discordes de mim... Oxalá discordes! Isso quererá dizer que tu queres ter uma -a tua- opinião e não queres ir com as de outros... portanto, esteja ela ou não a dar, nunca seguirás a voz comum... a massa...

domingo, 2 de agosto de 2009

A memória de Zeca Afonso é a memória da nossa liberdade




José Afonso completaria, hoje, 80 anos. Morreu há 22. Recordá-lo é ter presente a nossa liberdade, reconquistada há pouco mais de três décadas. Nada é para sempre –e a liberdade também pode não o ser. O que se tem dito nesta campanha eleitoral peixeiral, os insultos, as calúnias, os golpes baixos; as evocações disfarçadas, mas transparentes, do paraíso salazarista e as nada disfarçadas do homem providencial e carismático; a desacreditação perversa da democracia; a falta de espinha dorsal de muitos jornalistas e a ambiguidade de outros; a corrupção galopante, que envolve politiqueiros; o aproveitamento da crise e da miséria, por parte da direita, com o fim de desorientar, analfabetizar e condicionar um povo a que essa mesma direita, durante quase 50 anos e o salazarismo, recusou a condição de cidadão e rebaixou, humilhou e ofendeu –tudo isso nos aponta a urgência de não esquecer nem Zeca Afonso, nem o que ele simboliza e o que significa a canção que aqui trago.



Sinceramente: mais do que nunca, a nossa democracia corre perigo. Porque democracia é direitos e oportunidades iguais para todos –e o que se prepara, a recuperação, a restauração que se prepara é a do capital sobre a estabilização do desemprego e da miséria.


O dia de hoje: o quarto escuro

pintura de Burri


A morte de um homem é um acontecimento banal. Todos os dias morrem milhares de homens. Os jornais e as televisões seleccionam as mortes que, pela espectaculosidade e actualidade, devem interessar. Mas poucas interessam; o que há mais é assassinatos, tiros, facadas, roubos e, no Iraque ou no Afganistão, menos de duas dezenas de mortos não vale nada. O leitor passa adiante. O crime sexual, suficientemente pornográfico, ainda vá, o resto... ninharias! A morte de Gary Hanshaw, 22 anos, um jovem de Daghenam, subúrbio de Londres, interessou-me, arrepiou-me, deixou-me gelado. Não se trata de uma morte vulgar –é monstruosamente extraordinária. Assistiu-se a uma inumana condenação à morte. Gary, alcoólico desde os 13 anos, nos meses anteriores à hospitalização –sofria de cirrose irreversível- esvaziava 3 garrafas de vodka por dia. Três é espectacular, mas o alcoolismo juvenil já não surpreende, também ele um detalhe do quotidiano. Um aspecto aceito da sociedade de consumo. Uma consequência do neo-liberalismo -produto da escola do abandono e da indiferença. Ocasionalmente, castiga-se o infractor. Foi o que aconteceu a Gary.

Sabemos que se transplantam certos órgãos doentes. Os médicos não o quiseram fazer com Gary. Não era uma questão de tempo: ele poderia esperar. Os médicos recusaram-se a dar a Gary um fígado novo e explicaram: seria fígado desperdiçado: o rapaz voltaria ao álcool, nunca deixaria de beber. Lembro-me de minha mãe a ameaçar-me: “Olha que, se te portas mal, fecho-te no quarto escuro”. Gary Hanshaw está fechado no quarto escuro de onde não se sai. Gary tinha 22 anos e a vida à frente.
Escolhi o quadro do italiano-toscano Burri, a pensar na solidão de Gary, na sua curta vida... no mundo degradado que atravessou, direito ao poço para onde o atiraram... Perdão: para onde o atirámos: somos responsáveis por todos os Gary desta sociedade pantanosa em cuja construção e existência consentimos.

sábado, 1 de agosto de 2009

Os ralhetes de Cavaco e a Democracia... ou as incompatibilidades de fala só...


Cavaco tem alergia ao diálogo político... A propósito da inconstitucionalidade de certos pontos do novo Estatuto dos Açores, aprovado na Assembleia da República, lá veio ele cascar nos políticos e admoestá-los... Já quando se afastou e entregou a pasta a Fernando Nogueira (sabendo que o PSD ia para uma derrota eleitoral...), parece que a coisa não ia bem lá por dentro do partido... Cavaco parece não se dar bem com o debate de ideias... E parece que foi sempre assim...

Salazar deslocou-se uma única vez à Assembleia da !ª República, lugar para que fora eleito. O debate nas bancadas, incomodou-o... não o suportou: fazia-lhe mal ao delicado sistema nervoso...
p.s. a carreira política de Fernando Nogueira foi tão light que lhe troquei o apelido... peço desculpa; o google, depois de muitas buscas..., ajudou-me a corrigir...

O dia de hoje: os mistérios do tempo e as revelações da morte...

Vénus Anadiomena, 1518

Assunção, 1518


Autoretrato, 1567




Pietá, 1570/76



Aldo Zari, o célebre pintor mais pobre de Veneza, meu grande amigo, ensinou-me a admirar e a respeitar Tizano Vecelli, seu conterrâneo. Corremos todos os lugares da cidade, à procura dele. Explicou-me tudo. Revelou-me o que nunca entenderia sozinho.

Ontem, voltei à National Gallery e revi um quadro dos últimos anos do Mestre, que viveu quase cem anos (não é certo quando nasceu, entre 1480 e 1486?; e morreu em 1576), datado de 1570-1576. É uma Nossa Senhora, a dar de mamar a Jesus menino. Não o encontrei online, por isso não posso mostrá-la; vou apoiar-me noutra peça, contemporânea daquela, e que é a última reproduzida e tentar comunicar a impressão.


Vamos olhar, a primeira imagem reproduzida, acima: a Vénus Anadiomena, 1520, pintada, em 1520, Tiziano andará perto dos quarenta anos. Reparem na força, na sensualidade da mulher, como nos chama e provoca, e se afirma, prenhe de vida.

E, logo abaixo: a estupenda Anunciação, mais ou menos do mesmo ano, em plena maturidade de Tiziano. Que vigor, entusiasmo, paixão mística inegualáveis!

Agora, olhem o autoretrato, de 1567, Tiziano anda nos sessenta e poucos anos... Ainda se nota o orgulho, a segurança de um homem cuja personalidade fortíssima pesou em Veneza.

E, finalmente, o quadro datado de 1570-1576 (da época do que me surpreendeu e não posso trazer, aqui), a magnífica e tremenda Pietà!


O que me impressionou foi a mudança. As cores escapam-nos, infixáveis, o movimento das figuras dir-se-ia lasso e uma espécie de véu separa-as de nós. Tiziano sabe que a morte o acompanha. Tiziano coisas tão dele, tão íntimas, que, lhe fervem dentro, e deixa-nos sinais. Ainda está connosco, mas já começou a viagem indivisível, já ultrapassou o limiar da solidão da morte. Agora é uma questão de tempo... O que é que ele viu? O que é que nós iremos ver, um dia, nesse dia?...