As razões do corvo
O regresso a Veneza -o
breve, brevíssimo regresso- que não durou mais de quatro dias do passado
Outubro, foi um choque brutal, a magoar-me fundo.
Há 30 anos que ali não
vinha; onde estava tudo o que fora: a cidade, os amigos, as osterie, a soberana beleza?
Aquilo que me rodeava
era um circo pobre, uma insuportável feira.
Centenas e centenas de
gentes, de tendas, de cafés e restaurantes.
Veneza, onde estava?
Onde a paz, o silêncio,
o mistério?
Caira-lhe em cima o
exército de barbari, há tanto tempo
denunciados por Alberto d’Amico na canção -Arriva
i barbari-, palavras que arrepiavam os amantes da cidade?
Sim: tinham chegado os
bárbaros.
Não só os meus mortos
eu chorava: chorava Veneza –chorava-me a mim próprio.
Roubaram-me a jóia.
Não via o corvo de Allan
Poe, mas ouvia-o –e de que maneira!
“Never
more!”
Ligaram-me ao passado e
à violada Veneza, as duas únicas pessoas
que encontrei: Rosanna Marcato e Nicoletta Trentin, ambas com a memória de dois grandes
amigos mortos: Aldo Zari e Giorgio Trentin. O resto era-me nada –Veneza
ausentara-se.
Arrisquei a visita a Burano:
a ilha dos pescadores, dos merletti, das casinhas pintadas, de Umberto Moggioli,
da escola artística de Burano, ei-la
a vender merletti e bordados importados da China, ei-la sufocada pelos turistas, que tudo destroem, pelos restaurantes e cafés inumanos,
apontados à bolsa de cada um.
“Never
more.”
Refugiei-me noutro
lugar: em Trieste, a cidade que Jan Morris recorda muito bem, no livro Trieste and the Meaning of Nowhere.
Já a visitara duas
vezes: em 1975 e em 1983. É a cidade de Italo Svevo e Umberto Saba; a cidade mestiça de italianos, austríacos,
judeus, eslavos…
A cidade que esconde o
tesouro que pressentimos e jamais possuímos –mas, desde o primeiro instante,
entra em nós.
É arriscado falar dela:
arriverano i barbari, que já a
espreitam.
Direi, apenas, que me
acalmou e afastou o corvo.
Never
more? Nunca mais o quê?
A vida está aí, à tua
frente –e este instante é eterno, como todos, e disso terás consciência
enquanto viveres.
Jane Morris cita o
poeta americano Wallace Stevens:
“Sou
o mundo que percorri: aquilo que vi, ouvi e experimentei desabrochou em mim
próprio.”
As meninas de Trieste


É uma pena que o turismo estrague a beleza autêntica, dos lugares.
ResponderEliminarA última frase que colocou é muito bonita:)
Um beijinho:)
Querida Isabel, o turismo faz parte de um programa de imbecilização das pessoas: comem-lhe o dinheiro e mostram-lhes a correr aquilo que eles nunca se prepararam para ver...
ResponderEliminarQuerida Isabel, o turismo faz parte de um programa de imbecilização das pessoas: comem-lhe o dinheiro e mostram-lhes a correr aquilo que eles nunca se prepararam para ver...
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