quinta-feira, 27 de agosto de 2015

As vozes esquecidas


"Jardim das Delícias", obra de Hieronymus Bosch



Este é tempo pobre, tempo estéril e desesperado por isso, porque o sabe e sofre.

Superficial, inconsequente, a agarrar o fácil, incapaz de criar.

Um borbulhar inútil.

Uma fuga.

A impotência e o onanismo que abrem a estrada da soledade e as portas do bordel.

Improvisam-se castelos de areia, que logo se desfazem.

E onde enterraram ou esconderam os que revelaram a alma portuguesa?

Qu’é dos grandes, dos génios, dos Mestres? Qu’é do poeta? Do santo?...

“O poeta e o santo sabem que mais facilmente existe nas regiões sombrias da sociedade e das almas a brasa soterrada capaz de ser claridade, do que naquelas camadas (das almas ou das sociedades) que o egoísmo estreito, o baixo utilitarismo, o cobarde comodismo beato e a estupidíssima felicidade da besta babando-se empederniram.”

Isso escreveu José Régio em António Botto e o Amor, Editora Livraria Progredior, Porto, 1937.

E aqui vo-lo deixo, quando tão pouco ou nada se pensa e escreve a sério.

E pouquíssimo se invoca o genial, precioso escritor…

1 comentário:

  1. Presumo que se refira a António Sérgio, ensaísta de boa cepa. Um quase filósofo. Por que razão haveria o nosso tempo pobre, de lembrar tal pessoa que até pensava por sua cabeça e o escrevia?! António Sérgio não rima com o vento que nos varre da história.

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