Dente-de-leão
Saudade
e presença
Chegou o Outono que se
diz levar, com as folhas mortas, algumas almas já à beira do fim.
A árvore de que vos falei há dias ei-la ali, plena de seiva, verde,
ainda jovem.
Em breve, pouco a
pouco, a sua euforia apagar-se-á e hão-de restar-lhe os braços nus.
Depois, tudo volta.
Lá para Abril, Maio…
Guarda dentro -e nós
não vemos, às vezes, se a tocamos, sentimos- o gérmen, que nunca morre.
Ou morre?
Há árvores que morrem.
Tal qual nós morremos.
E o que acontece?
É verdade que morremos?
Mas… por que tenho
presente a minha tia Doroteia? Por que mexe ela comigo -e tantos outros dos
meus mortos!
Ando a ler mais uma esplêndida
obra de Yasunari Kawabata***, a última, que ele deixou incompleta, antes de se
suicidar: Les Pissenlits (Os dente-de leão), e encontrei o dizer
de uma das três personagens, no longo diálogo que vai construindo o romance:
“Os
mortos protegem os vivos. O seu pai [o pai de Inéko, a
jovem mulher ausente do diálogo] não se
encontra no túmulo nem no altar budista. Ele está presente em Inéko. Iluminado
e incansável.”
***Éditions
Albin Michel, Paris, 1972, in Le Livre de
Poche, 2014

Fale do que falar, os seus textos são uma maravilha!
ResponderEliminarAdorei ler!
Um beijinho :)
Bem haja, Isabel.
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