terça-feira, 23 de setembro de 2014

O mistério do Outono

Dente-de-leão

Saudade e presença

Chegou o Outono que se diz levar, com as folhas mortas, algumas almas já à beira do fim.

A árvore de que vos falei há dias ei-la ali, plena de seiva, verde, ainda jovem.

Em breve, pouco a pouco, a sua euforia apagar-se-á e hão-de restar-lhe os braços nus.

Depois, tudo volta.

Lá para Abril, Maio…

Guarda dentro -e nós não vemos, às vezes, se a tocamos, sentimos- o gérmen, que nunca morre.

Ou morre?

Há árvores que morrem.

Tal qual nós morremos.

E o que acontece?

É verdade que morremos?

Mas… por que tenho presente a minha tia Doroteia? Por que mexe ela comigo -e tantos outros dos meus mortos!

Ando a ler mais uma esplêndida obra de Yasunari Kawabata***, a última, que ele deixou incompleta, antes de se suicidar: Les Pissenlits (Os dente-de leão), e encontrei o dizer de uma das três personagens, no longo diálogo que vai construindo o romance:

“Os mortos protegem os vivos. O seu pai [o pai de Inéko, a jovem mulher ausente do diálogo] não se encontra no túmulo nem no altar budista. Ele está presente em Inéko. Iluminado e incansável.”


***Éditions Albin Michel, Paris, 1972, in Le Livre de Poche, 2014



  


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