segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Memória



A minha tia Doroteia...


“Ora, às ocultas eu trazia
No seio, um livro e lia, lia,
Garrett da minha paixão…
Daí a pouco a mesma reza:
-Não vás dormir de luz acesa,
Apaga a luz!... (E eu ainda… não!)

E continuava lendo, lendo…
O dia vinha já rompendo,
De novo: -Já dormes, diz?
-Bff!... e dormia com a ideia
Naquela tia Doroteia,
De que fala Júlio Dinis.”

António Nobre in

Quis Deus ou o Destino que, nos idos de 1948, deixasse a casa de meus pais e fosse viver com Beatriz, a minha ama, num andar de uma casinha, hoje prestes a desfazer-se, no antigo Largo 5 de Outubro, em pleno “alto monte da sagrada Beira”: a Guarda.

Acompanhou-nos o primeiro dos meus dois cães, o Vick, assim chamado porque nascera a 7 de Maio de 1945, dia da vitória dos aliados. Cocker spaniel pacífico cuja morte, dez anos depois, abriu, um vazio, preenchido, trinta anos mais tarde, pelo rafeiro Zack, italiano de gema, príncipe e poeta eternamente apaixonado.

Foi então que conheci a minha tia Doroteia: Maria Angélica de Sá Osório Lopes, viúva de um primo de meu avô paterno, menina criada em Coimbra, prendada e de alma sã.

Vivia numa das suas duas casas, a “de campo”, a dois passos da Guarda, em Celorico da Beira, junto ao Castelo.

A casa-mãe era em Torre de Moncorvo, origem da família de meu pai.

E contou-me que, bem novinha, casada de fresco, ao chegar a Trás-os-Montes a sege que a trazia de Coimbra, onde nascera, julgo, deparara-se-lhe a imensa e infindável paisagem e tivera um flato, precisou de sais.

Era uma mulher extraordinária, católica praticante e muito inteligente e sensível; como veremos, uma mulher livre e muito avançada para o tempo.

Ela me levou à primeira comunhão, na Sé da Guarda, contrariando o ambiente agnóstico em que nascera e crescera até despontar a segunda infância.

Bem recordo e me emociona ao lembrá-lo, os serões da casa de Celorico, em que todos os que lá vivíamos nos juntávamos a rezar o terço –senhoras e servas, parafraseando, no feminino, Tolstoi. 

Eu era o primo intruso e tratado como um anjo.

Bem recordo as idas com a minha tia Doroteia, à igreja da vila, a preparar a comunhão.

E que entusiástico católico (ou, talvez melhor, cristão) eu fui!

Não importa, agora, deter-me nas razões que me afastaram, poucos anos depois, da Igreja.

Quero, apenas, fixar um gesto inesperado -um dos muitos!- da minha tia Doroteia.

Nas sextas-feiras à tarde, eu apanhava a camioneta e ia passar o fim de semana à Casa do Castelo –assim lhe chamavam, na vila.

Crescera, entrara na adolescência e dei-me a vasculhar os poucos livros que por lá havia, topando Germinal, de Émile Zola, traduzido para o português, em dois volumes que se perderam, nas minhas bolandas de voador holandês ou judeu errante, mundo fora. 

Obviamente, meu primo António, o marido da minha tia Doroteia, que já partira há muito, não partilhava as convicções da mulher –ou não as partilhava com o mesmo fervor…

Perguntei a minha prima -à tia Doroteia- se podia levá-lo, se me oferecia.

E vejo -vejo-o agora mesmo- o sorriso de quem se não surpreende, compreende e aceita, ela a dizer:

-Pois não! Ora essa! Leva-o Manelico, é teu!

A verdade é que muito mexera em mim e ela já me surpreendera a ler Nietzche -felizmente desconhecia a minha convivência com Ernest Renan e Blasco Ibáñez..-; estava a par das minhas rebeldias e paixões.

Quando vinha à Guarda, cedia-me o imponente Dodge, sabendo muito bem que, instalado no banco de trás, com o chauffeur fardado, eu ia namoriscar um primeiro amor, raiana morena e bem cortada, olhos vivos e espertos, adolescente de vontade de ferro e aventura escondida.

E, para que conste, eis outra singularidade de minha tia Doroteia: apareci-lhe com um livro de Georges Simenon, ou, melhor, do inspector Maigret, dessa maravilhosa Colecção Vampiro, e ela a pedir-me:

-Quando o acabares  de ler, deixa-mo aí, que depois te devolvo…

E devorou-o! Reclamou mais obras de Simenon, que lá comprei na desaparecida e saudosa Papelaria do Sr. Casimiro, todas quantas apareceram.

… Minha prima andaria pelos oitenta anos…

Há dias, eis que descubro, num alfarrabista ambulante de Cascais, um estafado Germinal, edição de Le Livre de Poche, e toca de o comprar, o coração a bater e a saudade a sangrar, a lágrima que disfarcei mal -a ferida da memória indelével, da saudade de minha minha tia Doroteia.


Castelo de Celorico da Beira

3 comentários:

  1. Que maravilha!
    Adorei a leitura destas memórias, porque gostei do que contou e gostei da forma como escreveu.
    Memórias, talvez até interessantes, todos têm, mas contá -las desta forma única, que nos prende e encanta, só alguns têm o dom!

    A sua tia Doroteia devia ser uma pessoa interessantíssima!

    Um beijinho grande e uma boa semana:)

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  2. Querida Isabel, muito obrigado. Falou por mim o coração. Eu adorava a minha prima Maria Angélica e continuo a adorá-la. Deus a tenha recebido e entendido... Tudo corre muito depressa, mas certas pessoas, certos instantes ficam vivos enquanto nós vivemos. Um beijo.

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  3. Manuel,
    Li com prazer estas suas palavras de saudade e de carinho para com a tia.
    Bem-haja!
    Beijinho. :))

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