"Margem de um rio", 1876, óleo de Illya Repin (1844-1930)
Deixei o gabinete trabalho e instalei-me na sala de onde vejo a árvore, um enorme salgueiro velhinho, que atinge os trinta metros e se alimenta do ribeirinho condenado à morte.
Este lugar, onde vivo
agora, chamou-se Quinta da Carreira e era, na infância de minha mãe, há
quantos anos?, cem?, um paraíso, repleto de flores, de árvores e arbustos, um
cheiro especial, delicioso, que minha mãe recordava, com a melancolia dos seus
olhos, certas vezes…
E vejo a árvore -a árvore
de Raúl Brandão e o seu mistério- a árvore, indiferente à morte, grito de vida, serena,
silenciosa, se o vento a não a agita, bela.
Mas, o que esconde a sua
beleza?
“Meu Amor, o segredo da vida não desponta por aí, à nossa volta, ao querer
dos nossos desejos.
Não
me perguntes o que ele é, não sei responder-te. Mas se me disseres que está
realmente em nós, deixas-me com a certeza de que a certeza desse segredo fica
aumentada.
E
apetece-me logo -imenso- falar-te em Amor, e, mal lá chego, nem posso já
dizer-te aquilo que eu julgava saber. Também, nem me importo. É que o segredo
da vida se mistura -imenso- àquilo que me apetece chamar-lhe logo Amor.
E
para os segredo adivinhados não nos bastam -porquê?...- as palavras aprendidas.”
Carlos Tinoco in Correspondência Frustrada, Livraria
Bertrand, 1942 (póstumo e único livro do autor)
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Já por diversas vezes
aqui trouxe Carlos Tinoco. Quem se lembra dele (se ainda vivem aqueles que o
conheceram)? Quem o leu? Quem se recorda dessa promessa, em muitas páginas muito mais que promessa?
E é o horror a esse
esquecimento que me leva a tentar arrancá-lo ao silêncio, à indiferença.
Carlos Tinoco é um dos
muitos que o galope dos canibalistas, que se sucedem e se devoram, uns aos
outros, apaga.
Pois, aqui vos deixo
essa alma que nasceu, cresceu, cedo partiu e buscava o sentido da vida –que a
árvore, o salgueiro ali em frente, sabe, esconde… ou ilustra.
Isto é, a árvore que diz,
na majestade delicada, na maravilha dos seus braços acolhedores: “A vida é isto. E é já tanto! Por que perguntas?”

Sim, a descoberta do sentido das coisas nem sempre está só nas pessoas, está nas árvores, nos animais... Tal como dia a tua árvore:
ResponderEliminar"Isto é, a árvore que diz, na majestade delicada, na maravilha dos seus braços acolhedores: “A vida é isto. E é já tanto! Por que perguntas?”
Lindo texto de Carlos Tinoco, esquecido.
E ainda bem que traz aqui estes textos tão bonitos, já que de outra forma nunca os poderíamos ler.
ResponderEliminarO sentido das coisas encontra-se em cada uma delas, se calhar, enquanto cumprem a missão do seu ciclo de vida: pessoas, animais, árvores, natureza...
Um bom domingo para os dois:)
Beijinhos:)
Isabel, Isso mesmo! E cumprem o seu ciclo de vida, com prazer... Cumprem a sua obrigação: mostrarem a Vida. Boa semana que vem!
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