quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Ainda antes de partir (o que será díficil em tempo tão agitado, brutal e carregado de ódio e injustiça...)


O voo de Ícaro ou a liberdade como tesouro

Eis Stefan Zweig (Viena, 1888-Petrópolis, Brasil, 1942), obrigado a abandonar a sua terra e a sua cidade, por judeu.

Um autor superficial? Não sei: foi um sucesso universal, objecto de inveja e antipatias, foi um humanista superior, exemplar.

Max Ophüls adaptou-lhe a deliciosa novela, Carta de uma desconhecida e deixou um dos filmes (1948) mais belos e profundos que me calhou ver, no saudoso Cine-Teatro da Guarda, e ainda hoje retomo, muitas e muitas vezes, mais que não seja para seguir a genial Joan Fontaine e ouvir-lhe a inesquecível e belíssima voz; Roberto Rosselini, em 1954, adaptou O medo, com a magistral Ingrid Bergman; e outros realizadores, que deixo de parte, para não cansar a tua paciência.

Porém, o que aqui me traz é uma frase de Zweig, na obra sobre Montaigne, que Lavinia Mazzuchetti cita, no prefácio à excelente tradução que fez, em italiano, da interessantíssima obra, Il mondo de ieri (Oscar Mondadori, Roma, 2014), publicada póstuma, isto é, depois do suicídio, como poderás confirmar na notícia abaixo:

“Só aquele que consegue preservar a própria liberdade em quanto diz respeito a tudo e a todos que observa, só esse guarda e multiplica a liberdade sobre a terra.”

Esta frase lapidar cai tal qual bóia de salvação, ou lâmina que denuncia, neste tempo de seguir os outros e não ousar contrariá-los. Neste tempo de rebanhos e de “marias que vão com as outras”.

Ou ainda pior: neste tempo de hipocrisia e covardia.

Esta frase, que, adiante, Zweig, nos confia, na autobiografia incompleta:

Um artista sente-se melhor e à vontade, mais vivamente inspirado, onde o apreciam ou mesmo o sobrevalorizam.”

Um artista isolado, a meio de uma selva de esfomeados de êxito, sofre e arrisca-se a retrair-se.

De facto, nos cinco anos de Telavive, no precioso café, que já não existe, o Dizza, na Frishman, esquina com a Dizengoff -a rua bem amada do nosso saudoso cão Zac-, no Dizza, que mereceu uma reportagem no RTP, rodeado de calorosas e generosas amigas e amigos, que muito me acarinharam, estimularam e apoiaram, escrevi seis livros…

Isto não é um aparte: é um doloroso desabafo…


Notícias:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Stefan_Zweig


Stefan Zweig, 1930, na Riviera francesa


Casa de Stefan Zweig em Petrópolis, Brasil

5 comentários:

  1. Tem razão no que diz...

    Lá escreveu seis ( bons) livros.
    E aqui os seus amigos que o apoiam e admiram também estão à espera que escreva o(s) próximo(s)!

    Um beijinho e um bom dia :)

    (A casa da foto é muito bonita!)

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    1. Tem razão, caríssima amiga... vamos a ver! Preciso de paz e sossego. Um beijo grande e bem haja pela sua extraordinária amizade!

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  2. Manuel, vai gostar imenso de ler O Mundo de Ontem...
    É um livro magnífico!
    Carta a uma desconhecida ainda não li... será para breve!
    Um autor superficial? Não concordo.

    Um autor a ler, sem dúvida!

    Um beijo.:))

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  3. Manuel,

    Gostei deste apontamento e das citações de peso que partilhou.

    Gostei muito dos livros que li da sua lavra.

    Julgo que virá a ter sucesso com o que está para vir.

    Beijinho de uma admiradora. :))

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  4. Olá amigo,

    Este desabafo seu fez-me lembrar o último romance do Stefan Zweig que li "Novela de Xadrez" e de que gostei, já que o não acho um escritor menor, antes pelo contrário.
    O Manel vai apaziguar só quando começar a escrever e está quase a fazê-lo, caso contrário não se sentiria assim, é o frenesim de quem tem que escrever por ser urgente. Boas férias e um abraço amigo

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