O voo de Ícaro ou a liberdade como tesouro
Eis Stefan Zweig (Viena,
1888-Petrópolis, Brasil, 1942), obrigado a abandonar a sua terra e a sua cidade,
por judeu.
Um autor superficial?
Não sei: foi um sucesso universal, objecto de inveja e antipatias, foi um
humanista superior, exemplar.
Max Ophüls adaptou-lhe
a deliciosa novela, Carta de uma
desconhecida e deixou um dos filmes (1948) mais belos e profundos que me
calhou ver, no saudoso Cine-Teatro da Guarda, e ainda hoje retomo, muitas e
muitas vezes, mais que não seja para seguir a genial Joan Fontaine e ouvir-lhe
a inesquecível e belíssima voz; Roberto Rosselini, em 1954, adaptou O medo, com a magistral Ingrid Bergman;
e outros realizadores, que deixo de parte, para não cansar a tua paciência.
Porém, o que aqui me traz
é uma frase de Zweig, na obra sobre Montaigne, que Lavinia Mazzuchetti cita, no
prefácio à excelente tradução que fez, em italiano, da interessantíssima obra, Il mondo de ieri (Oscar Mondadori, Roma,
2014), publicada póstuma, isto é, depois do suicídio, como poderás confirmar na
notícia abaixo:
“Só aquele que consegue
preservar a própria liberdade em quanto diz respeito a tudo e a todos que
observa, só esse guarda e multiplica a liberdade sobre a terra.”
Esta frase lapidar cai
tal qual bóia de salvação, ou lâmina que denuncia, neste tempo de seguir os
outros e não ousar contrariá-los. Neste tempo de rebanhos e de “marias que vão
com as outras”.
Ou ainda pior: neste
tempo de hipocrisia e covardia.
Esta frase, que,
adiante, Zweig, nos confia, na autobiografia incompleta:
“Um artista sente-se melhor e à vontade, mais
vivamente inspirado, onde o apreciam ou mesmo o sobrevalorizam.”
Um artista isolado, a
meio de uma selva de esfomeados de êxito, sofre e arrisca-se a retrair-se.
De facto, nos cinco
anos de Telavive, no precioso café, que já não existe, o Dizza, na Frishman, esquina com a Dizengoff -a rua bem amada do nosso
saudoso cão Zac-, no Dizza, que
mereceu uma reportagem no RTP, rodeado de calorosas e generosas amigas e amigos,
que muito me acarinharam, estimularam e apoiaram, escrevi seis livros…
Isto não é um aparte: é
um doloroso desabafo…
Notícias:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Stefan_Zweig



Tem razão no que diz...
ResponderEliminarLá escreveu seis ( bons) livros.
E aqui os seus amigos que o apoiam e admiram também estão à espera que escreva o(s) próximo(s)!
Um beijinho e um bom dia :)
(A casa da foto é muito bonita!)
Tem razão, caríssima amiga... vamos a ver! Preciso de paz e sossego. Um beijo grande e bem haja pela sua extraordinária amizade!
EliminarManuel, vai gostar imenso de ler O Mundo de Ontem...
ResponderEliminarÉ um livro magnífico!
Carta a uma desconhecida ainda não li... será para breve!
Um autor superficial? Não concordo.
Um autor a ler, sem dúvida!
Um beijo.:))
Manuel,
ResponderEliminarGostei deste apontamento e das citações de peso que partilhou.
Gostei muito dos livros que li da sua lavra.
Julgo que virá a ter sucesso com o que está para vir.
Beijinho de uma admiradora. :))
Olá amigo,
ResponderEliminarEste desabafo seu fez-me lembrar o último romance do Stefan Zweig que li "Novela de Xadrez" e de que gostei, já que o não acho um escritor menor, antes pelo contrário.
O Manel vai apaziguar só quando começar a escrever e está quase a fazê-lo, caso contrário não se sentiria assim, é o frenesim de quem tem que escrever por ser urgente. Boas férias e um abraço amigo