sábado, 12 de julho de 2014

Se a vida não fosse o desastre que é...

"Jardim dos prazeres terrestres, pormenor", de Hieronymos Bosch


(Senti vontade de colocar, aqui, este post de há cerca de quatro anos...)

Escrevo estas linhas a ver a fotografia de Tony Blair e o seu cansaço. Pobre homem, que os outros homens mordem! Velho, antes do tempo; dizem-me que bem instalado. Que instalação é a dele? 

Thomas Hardy, Mestre, numa das obras-primas, escreveu mais do que uma, salva-o: ‘Essa gente não sabe o que perdeu.’

Mas (na fotografia) parece que alguns sabem: sofrem com o perdido.

Quem sabe das alminhas de cada um? Até das que pecam? Seguem caminhos especiais: os deles. E Deus que os guarde –que os entenda. O José Pires Sanches, homem do Rochoso e poeta contra vontade, dizia, há pouco e com pressa para ir almoçar: “Há gente que não pode lavar a cara porque o sabão não aguenta a porcaria”.

E volto a Burano: agora, sei: era a pureza que ia lá buscar. A transparência, o infinito da laguna, o retrato da bela mulher, assinado Moggioli, que sorte teve ele em conhecê-la!

Era o peixe fresco, no Da Romano.

Era a companhia do pintor mais pobre e mais puro de Veneza: Aldo Zari.

Ah!, meu Deus, se a o dia a dia não fosse esta porcaria; se os ladrões fossem presos; se aos pobres de espírito fosse dita a verdade e satisfeita a sede; se alguém, se Deus!, pegasse na Lorenza e em Andrea e os reunisse...

se o pecado original fosse anulado no Supremo Tribunal das Estrelas Livres,

se ao nosso cão Zac fosse permitido voltar à vida,

se a Camões fosse restituído o olho,

se a Sá-Carneiro lhe dessem Paris,

se a lareira fosse eleita Bem Universal,

se ao vivo (às galinhas, aos coelhos, à bicharada) se desse de comer,

se o homem não fosse humilhado...

se Dostoievski fosse votado santo,

se o deixassem falar com Camilo,

se o génio de João Navarro Hogan o levasse, morto como está, e esticadinho, com o exemplar do Patinhas, que sempre trazia no bolso, bem guardado, quando aparecia, aí pelas cinco da tarde (quase as do Lorca), na Brasileira, se o levasse Deus (se calhar já levou) para o pé do Principezinho de Saint-Exupéry, que trazia a Lua debaixo do braço, ou de Turner, ou de Van Gogh...

se a Beleza fosse consagrada,

se Benedetto Marcello tocasse, outra vez, o Anónimo Veneziano,

se a mulher de Bach o arrancasse à morte,

se Gauguin desinfectasse o ambiente que lhe impingiu a sífilis,

se Alexandre Dumas nos mandasse de volta os mosqueteiros,

se Santa Comba e Boliqueime tivessem sido expurgadas e o bicho da mediocridade fosse impedido de se representar a morder a franja do sonho, todos os dias que se baba,

se houvesse um Anjo Bom, com asas brancas e um retrato de gente no coração,

uma Anja, uma Mãe, uma daquelas quatro do Michelangelo, até a última, a Pietà de Milão,

capazes de nos enxugarem o suor,

se houvesse um sacristão, velhinho, com a roupa a cheirar à arca,

se houvesse uma tia Doroteia de Júlio Dinis,

ou uma Beatriz, que me compunha a cama, na Guarda, há 60 anos!,

se houvesse a Laura de Petrarca,

ou os nunca-amantes fossem capazes de amar como Florbela Espanca,

se nos deixassem ter a nossa terra,

Portugal,

e respeitá-la,

se não nos ensinassem a ser uns bandalhos,

se a nossa porta estivesse sempre aberta,

entre quem é!,

se um bucho de ossos fosse um bucho de ossos,

se o vinho do Redondo continuasse nos 14º graus,

se as mulheres do Minho ainda fossem clarinhas,

se em Montalegre a malta nunca deixasse de ser mais forte que os All Blacks da Nova Zelândia,

se ainda se vendessem jornais,

se ainda se fizessem descontos para amigos...

ou se oferecessem a bica...

se não tivessem as virgens medo -e só desejo- de serem desvirgadas,

se, no coração do dia, as coisas fossem tão simples como a flor,

se Bom Dia ainda fosse Bom Dia,

se avida não fosse a merda que aceitamos!,

isto que recomeça agora, hoje, aqui -a vida!- seria outra coisa!

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