"Jardim dos prazeres terrestres, pormenor", de Hieronymos Bosch
(Senti vontade de colocar, aqui, este post de há cerca de quatro anos...)
Escrevo estas linhas a ver a fotografia de Tony Blair e o seu cansaço. Pobre homem, que os outros homens mordem! Velho, antes do tempo; dizem-me que bem instalado. Que instalação é a dele?
Thomas Hardy, Mestre, numa das obras-primas, escreveu mais do que uma, salva-o: ‘Essa gente não sabe o que perdeu.’
(Senti vontade de colocar, aqui, este post de há cerca de quatro anos...)
Escrevo estas linhas a ver a fotografia de Tony Blair e o seu cansaço. Pobre homem, que os outros homens mordem! Velho, antes do tempo; dizem-me que bem instalado. Que instalação é a dele?
Thomas Hardy, Mestre, numa das obras-primas, escreveu mais do que uma, salva-o: ‘Essa gente não sabe o que perdeu.’
Mas (na fotografia) parece que alguns sabem: sofrem com o perdido.
Quem sabe das alminhas de cada um? Até das que pecam? Seguem caminhos especiais: os deles. E Deus que os guarde –que os entenda. O José Pires Sanches, homem do Rochoso e poeta contra vontade, dizia, há pouco e com pressa para ir almoçar: “Há gente que não pode lavar a cara porque o sabão não aguenta a porcaria”.
E volto a Burano: agora, sei: era a pureza que ia lá buscar. A transparência, o infinito da laguna, o retrato da bela mulher, assinado Moggioli, que sorte teve ele em conhecê-la!
Era o peixe fresco, no Da Romano.
Era a companhia do pintor mais pobre e mais puro de Veneza: Aldo Zari.
Ah!, meu Deus, se a o dia a dia não fosse esta porcaria; se os ladrões fossem presos; se aos pobres de espírito fosse dita a verdade e satisfeita a sede; se alguém, se Deus!, pegasse na Lorenza e em Andrea e os reunisse...
se o pecado original fosse anulado no Supremo Tribunal das Estrelas Livres,
se ao nosso cão Zac fosse permitido voltar à vida,
se a Camões fosse restituído o olho,
se a Sá-Carneiro lhe dessem Paris,
se a lareira fosse eleita Bem Universal,
se ao vivo (às galinhas, aos coelhos, à bicharada) se desse de comer,
se o homem não fosse humilhado...
se Dostoievski fosse votado santo,
se o deixassem falar com Camilo,
se o génio de João Navarro Hogan o levasse, morto como está, e esticadinho, com o exemplar do Patinhas, que sempre trazia no bolso, bem guardado, quando aparecia, aí pelas cinco da tarde (quase as do Lorca), na Brasileira, se o levasse Deus (se calhar já levou) para o pé do Principezinho de Saint-Exupéry, que trazia a Lua debaixo do braço, ou de Turner, ou de Van Gogh...
Quem sabe das alminhas de cada um? Até das que pecam? Seguem caminhos especiais: os deles. E Deus que os guarde –que os entenda. O José Pires Sanches, homem do Rochoso e poeta contra vontade, dizia, há pouco e com pressa para ir almoçar: “Há gente que não pode lavar a cara porque o sabão não aguenta a porcaria”.
E volto a Burano: agora, sei: era a pureza que ia lá buscar. A transparência, o infinito da laguna, o retrato da bela mulher, assinado Moggioli, que sorte teve ele em conhecê-la!
Era o peixe fresco, no Da Romano.
Era a companhia do pintor mais pobre e mais puro de Veneza: Aldo Zari.
Ah!, meu Deus, se a o dia a dia não fosse esta porcaria; se os ladrões fossem presos; se aos pobres de espírito fosse dita a verdade e satisfeita a sede; se alguém, se Deus!, pegasse na Lorenza e em Andrea e os reunisse...
se o pecado original fosse anulado no Supremo Tribunal das Estrelas Livres,
se ao nosso cão Zac fosse permitido voltar à vida,
se a Camões fosse restituído o olho,
se a Sá-Carneiro lhe dessem Paris,
se a lareira fosse eleita Bem Universal,
se ao vivo (às galinhas, aos coelhos, à bicharada) se desse de comer,
se o homem não fosse humilhado...
se Dostoievski fosse votado santo,
se o deixassem falar com Camilo,
se o génio de João Navarro Hogan o levasse, morto como está, e esticadinho, com o exemplar do Patinhas, que sempre trazia no bolso, bem guardado, quando aparecia, aí pelas cinco da tarde (quase as do Lorca), na Brasileira, se o levasse Deus (se calhar já levou) para o pé do Principezinho de Saint-Exupéry, que trazia a Lua debaixo do braço, ou de Turner, ou de Van Gogh...
se a Beleza fosse consagrada,
se Benedetto Marcello tocasse, outra vez, o Anónimo Veneziano,
se a mulher de Bach o arrancasse à morte,
se Gauguin desinfectasse o ambiente que lhe impingiu a sífilis,
se Alexandre Dumas nos mandasse de volta os mosqueteiros,
se Santa Comba e Boliqueime tivessem sido expurgadas e o bicho da mediocridade fosse impedido de se representar a morder a franja do sonho, todos os dias que se baba,
se houvesse um Anjo Bom, com asas brancas e um retrato de gente no coração,
uma Anja, uma Mãe, uma daquelas quatro do Michelangelo, até a última, a Pietà de Milão,
capazes de nos enxugarem o suor,
se houvesse um sacristão, velhinho, com a roupa a cheirar à arca,
se houvesse uma tia Doroteia de Júlio Dinis,
ou uma Beatriz, que me compunha a cama, na Guarda, há 60 anos!,
se houvesse a Laura de Petrarca,
ou os nunca-amantes fossem capazes de amar como Florbela Espanca,
se nos deixassem ter a nossa terra,
Portugal,
e respeitá-la,
se não nos ensinassem a ser uns bandalhos,
se a nossa porta estivesse sempre aberta,
entre quem é!,
se um bucho de ossos fosse um bucho de ossos,
se o vinho do Redondo continuasse nos 14º graus,
se as mulheres do Minho ainda fossem clarinhas,
se em Montalegre a malta nunca deixasse de ser mais forte que os All Blacks da Nova Zelândia,
se ainda se vendessem jornais,
se ainda se fizessem descontos para amigos...
ou se oferecessem a bica...
se não tivessem as virgens medo -e só desejo- de serem desvirgadas,
se, no coração do dia, as coisas fossem tão simples como a flor,
se Bom Dia ainda fosse Bom Dia,
se avida não fosse a merda que aceitamos!,
se avida não fosse a merda que aceitamos!,
isto que recomeça agora, hoje, aqui -a vida!- seria outra coisa!

Gostei muito, muito muito.
ResponderEliminarGrande abraço
Gostei imenso deste post e parece ter sido escrito agora. Está actual!
ResponderEliminarSe...
Um beijinho e bom domingo:)
Manuel,
ResponderEliminarEstou sem palavras.
Gostei mas gostei muitíssimo desta ode.
Beijinho.
lenço de papel, obrigado! Grande abraço!
ResponderEliminarsabel, é verdade, nada mudou! Um beijo.
ResponderEliminarIsabel, é verdade! Um abraço forte!
ResponderEliminarAna, fico muito contente. Um grande abraço!
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