quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Dia dos Namorados -para a M.J.


"O passeio", 1917-1918, óleo de Marc Chagall


Amor

Amo-te muito, muito!
Reluz o paraíso
Num teu olhar furtuito,
Num teu fugaz sorriso

Quando em silêncio finges
Que um beijo foi furtado,
E o rosto desmaiado
De cor de rosa tinges,

Dir-se-á que a rosa deve
Assim ficar com pejo
Quando a furtar-lhe um beijo
O zéfiro se atreve!

E às vezes te assalta
Não sei que ideia, jovem,
Que o rosto se te esmalta
De lágrimas que chovem;

Que fogo é que em ti lavra
E as forças te aniquila,
Que choras, mas tranquila,
E nem uma palavra?...

Oh! Se essa mudez tua
É como a que eu conservo
Lá quando à noite observo
O que no céu flutua;

Ou quando à luz que adoro,
Às horas do infinito,
Nas rochas de granito
Os braços cruzo e choro,

Amamo-nos! Não cabe
Em nossa pobre língua
O que a alma sente, à míngua
De voz… que só Deus sabe!

João de Deus in Alma Minha Gentil, Antologia da Poesia de Amor Portuguesa, Organizada por José Régio e Alberto de Serpa, Portugália Editora, 1957

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