Júlio Dinis (1839-1871)
Júlio Dinis vem, hoje,
a Sobre o Risco, por uma razão: a
lucidez com que aponta a um grande amigo ferido na alma, triste,
desinteressado, Custódio Passos, a saída, a maneira de se recuperar:
“Não
preciso dizer-te a impressão dolorosa que me causou a tua carta. Antes de a
abrir já conhecia a triste notícia que ela continha, e a sua leitura acabou por
me magoar, por profundo e justificado desalento que denunciava em ti.
Pela
primeira vez faltei a teu lado nesses dias de luto, por que tantas vezes temos
passado.
(…)
Persiste pois em mim, a ansiedade neste ponto. Eu não ouso dar conselhos,
porque acho tão incertos todos os caminhos no mundo, que não sei qual se deva aconselhar.
Contudo, a tua vida tem sido até hoje uma consequência de sacrifícios
realizados com a maior abnegação.
É
tempo de viveres para ti. O coração já não te impõe deveres; ainda mesmo quando
pudesses ser egoísta, já ninguém tinha o direito de o estranhar. Tinhas obtido
bem caro o direito de o ser. Mas não está no teu carácter ir tão longe e receio
até que fiques muito àquem do que exigem de ti a saúde do corpo e a tranquilidade
de espírito.
Acredita
que temo deveras que o desalento nem te deixe lutar contra a espécie de
fatalidade que te tem perseguido. Toma
uma resolução, rompe o círculo em que tens vivido, adquire hábitos novos.***
É uma necessidade urgente para ti. Deus queira que se realize.”
in Júlio Dinis, Cartas e Esboços Literários, Livraria
Civilização, s.d., Porto
Júlio Dinis, aliás,
José Joaquim Guilherme Coelho (1839-1871) nasceu no Porto, filho de José
Joaquim Gomes Coelho, de Ovar, e Ana Constança Potter, tripeira, filha de pai e
mãe ingleses.
Morreu Júlio Dinis aos
32 anos –e deixou o suficiente para que se deva considerar um inovador do
romance português e um admirável escritor. Rural? Ora, deita para o lado: com a
leitura atenta dos mestres da Literatura inglesa, de Milton e Shakespeare a
Jane Austen e Dickens, por exemplo -tantas das grandes novelistas inglesas não
procuraram o “rural”? que fez o enorme Thomas Hardy?...- ele
abriu janelas ao romance português e só não foi mais longe porque a morte
chegou antes do tempo.
Eça de Queirós assinalou
a morte de Júlio Dinis com uma simpática frase:
“viveu de leve,
escreveu de leve, morreu de leve”.
O admirável romancista
da obra-prima Os Maias enganou-se:
Júlio Dinis viveu dura e profundamente, a sofrer a consciência do “inferno é
aqui” (que Camilo denuncia em O Bem e o
Mal) e a dividi-lo com os outros, cobrindo-os, num gesto de insuperável
humanidade, com o manto da sua doçura, ternura, amor.
Manto esse a esconder a
revolta: Júlio Dinis, denunciava, assim, e a
contrario, todo o mal, onda tremenda a afogar-nos e a revelar-se em nós ao
modo de pequenos diabinhos soltos nas almas.
Foi o autor de A Morgadinha dos Canaviais um psicólogo
superior, e não duvido que, a viver os anos que é uso viver, teria ido bem mais
além de Eça de Queirós.
E, já agora, sou eu
quem te aconselha: procura o melhor ensaio/biografia sobre Júlio Dinis, até
hoje escrito, em Portugal:







