quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Um país condenado a ser espoliado e a afogar-se em abulia?


John Bull dispara sobre os portugueses e reclama a posse de África (desenho de Bordalo Pinheiro, 1890)

Em 11 de Janeiro de 1890, o Ultimatum inglês (1), na forma de Memorando, impõe-nos desistirmos, a favor da Inglaterra, do território africano entre Angola e Moçambique.

Obviamente, aceitamos –e revelamo-nos um país de tuta e meia, decadente, e sem voz no capítulo internacional.

É no Porto que se cria a Liga Patriótica do Norte (2), disposta a denunciar o regime doente e o atraso cultural do país.
Cultural ou político?

As duas coisas –porque a política depende da Cultura do povo.

Antero de Quental adere à Liga e escreve estas palavras proféticas e irrealizadas, até hoje -de urgente concretização:

“[é indispensável] um plano de emancipação económica, de restauração das forças produtoras, do levantamento do nível intelectual e de garantia e defesa da integridade nacional, plano de ordem, justiça e moralidade sociais, que significaria, ao mesmo tempo, a emenda dos passados erros e a esperança de um futuro em que Portugal retomasse entre as nações civilizadas um lugar digno das suas nobres tradições.” (citado por João Gaspar Simões in Antero de Quental, Editorial Presença, Lisboa, 1962)

Aqui te deixo as palavras de Antero -e que medites nelas e no trágico   que é repetirem-se incompetências, má fé e decadência nacional.

(1) http://pt.wikipedia.org/wiki/Ultimato_brit%C3%A2nico_de_1890

(2) http://www.infopedia.pt/$liga-patriotica-do-norte

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Em doloroso tempo de mudança

Não há razão nenhuma para não acreditares que podes construir uma vida digna: depende de ti...


Nada ficará como estava e, certamente, não se recomporá a sociedade segundo os desejos daqueles que insistem em reconstruir e consolidar quanto nos atirou para a voragem inumana do presente.

Certamente, o capitalismo financeiro cederá o lugar a uma sociedade menos injusta.

Pois é, amigo –sou um optimista.

Mas o meu optimismo-esperança reforça-o a agonia evidente do sistema que levou o mundo a este descalabro e a esta sangria.

Basta olhar a Europa, a América.

Vivemos tempo infectado –e as doenças têm de curar-se.

Nos finais do século XIX, Antero de Quental apontava a urgência de uma “transformação social, moral e política dos povos.”

A transformação aconteceu –pouco a pouco e aos soluços, construiu-se sobre erros e reacções brutais, entre outras, o fascismo e o nazismo da primeira metade do século XX.

Venceram-se o fascismo e o nazismo, mas o totalitarismo, agora com o rabo sentado no cifrão, foi voltando, foi-se insinuando, lançou o mundo na pobreza, na miséria, na fome.

Fez o nosso dia-a-dia e cobriu-te de angústia, o medo remexeu a tua alma e quis-te abúlico e desesperado.

E não desiste, não desistiu.

Ora lê (e pensa em Portugal):

“Desgraçadamente, os nossos dirigentes estão completamente ultrapassados, incapazes, hoje, de apresentar um diagnóstico justo da situação e incapazes de trazer soluções concretas e à altura do problema. Tudo se passa como se uma pequena oligarquia, preocupada apenas com o seu futuro imediato, nos comandasse.” (Manifesto Roosevelt***)

Na verdade, ao procurarem apagar o fogo, à custa de milhões de pessoas, vão enterrando a faca em si próprios e, ratos que são de um navio a naufragar, ao procurarem afogar-nos a nós, afogam-se a si próprios.

Subir à flor da água, salvar uma vida digna de ser vivida –depende de ti e do teu querer.

***http://www.roosevelt2012.fr/


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O riso amargo: há ainda alguma coisa para levar a sério?

in Público de hoje

Branquinho da Fonseca volta a Israel


Branquinho da Fonseca (1905-1974)

Em 2009, a Editora Maba, de Telavive, publicou duas novelas de Branquinho da Fonseca, O Barão e Rio Turvo, com um Posfácio meu, e traduzidos, para o hebraico, por Dalit Lahav.

Agora, a revista Mitan, ligada à Sociedade de Autores de Israel, publicou As Mão Frias, conto de Branquinho da Fonseca incluído no volume intitulado Rio Turvo (1ª edição, Editorial Inquérito, 1945), mais uma vez traduzido por Dalit Lahav e acompanhado de um texto meu sobre o autor.

Aquele que considero um dos melhores novelistas de língua portuguesa reafirma a sua presença na língua bíblica e num país onde a Cultura ocupa o primeiro lugar.

Sem o entusiasmo e o amor à Literatura Portuguesa, cultivados por Dalit Lahav, dedicada lusófona, nada se poderia ter feito.

Branquinho da Fonseca -hoje, praticamente ignorado, entre nós, triste, vergonhoso sinal de um momento marcado pela vulgaridade e o canibalismo literato- é um grande escritor contemporâneo.



E O Barão, Rio Turvo, As Mãos Frias fazem parte do que de melhor, de superior, de magistral tem a nossa ficção narrativa.




Capa da revista Mitan, onde vem publicado As Mãos Frias, conto de Branquinho da Fonseca

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Amor, loucura, poesia...


Óleo de Claude Monet, 1873


Pétala de Rosa

Pétala de rosa! Olha
Do velho poeta, não rias;
Guarda-a na folha
Do livro que se lê todos os dias.

Amor, não o sacies,
Não venhas a perdê-lo;
Põe pelo sinal um fio de cabelo
Na carta que me envies.

Foges-me da vida:
E na menina dos olhos,
Achada ou perdida,
Ali sempre te encontre, de sonho vestida.

Que importa o sol tão alto,
Que dê a luz do dia?
O sonho, seja irmão da loucura,
É o que dá poesia.

Afonso Duarte in O anjo da morte e outros poemas, Obra Poética de Afonso Duarte, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1956 (em apêndice, um estudo de Carlos de Oliveira e João José Cochofel, Afonso Duarte e a sua obra, Apontamentos biobibliográficos, tiragem de 600 exemplares)

Nota: dada a dificuldade em encontrar não só esse volume como, também, as obras de Afonso Duarte, aconselho-te o excelente Afonso Duarte, Obra Poética, Introdução, fixação do texto, registo de variantes e apêndice de José Carlos Seabra Pereira, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 2008.

domingo, 6 de janeiro de 2013

O medo

in Público de hoje

A flor

Obra do artista japonês Hiroshige Utagawa (1797-1858)

Prelúdio

Levanta-se e da rocha a flor esmagada
Mais dura do que a rocha e cristalina.
Raízes, caule, pétalas, angústia.

Raízes para sempre ali cravadas,
Caule verticalmente inexorável,
Pétalas miraculosas: pura água.

Minhas mãos são chagas
Para te colher…
Minhas mãos são chamas,
Pedaços de gelo…

Levanta-se da rocha a flor esmagada.

Cristovam Pavia (1933-1968) in 35 Poemas, Moraes Editores,1959