
Em 1949, George Orwell publicou o citadíssimo romance “1984”, retrato de uma sociedade totalitarista. A maioria dos leitores reconheceu, nele, o que parecia evidente: a denúncia da ditadura comunista. Sobre essa data, correram sessenta anos e passaram vinte anos desde a queda do muro de Berlim e as suas consequências funestas para a URSS. Naturalmente, milhões de pessoas suspiraram de alívio. Hoje, que pensam essas pessoas? O universo concentracionário morreu, definitivamente? Nada o indica. Ao totalitarismo que, então, se desfez com o muro de Berlim, substituiu-se outro: o do neo-liberalismo. Reforçou-se a concentração do capital, aumentou a exclusão social, abriram-se as portas a um novo esclavagismo. Em S. Tomé e Príncipe, há uma taberninha cujo nome é de velha e sofrida sabedoria: ‘A Vida Custa’. E o preço brutal, o cinzento da vida injusta, a luta desesperada pelo pão nosso de cada dia, há muito que foi além das fronteiras da martirizada África.
Enquanto se discute, sem grandes esperanças, o que o G-8 discutiu, em L’Aquila, (e receando que não se tenha ido mais longe de um “espectacular” debate sobre o sexo dos anjos), aponto um exemplo (aliás dois) da condição humana transformada em gado usado, ao sabor do dono: a companhia irlandesa de aviação, Ryanair, projecta vender bilhetes a metade do preço a quem aceite viajar de pé; a OMS (Organização Mundial de Saúde) denuncia o perigo mortal de viajar nos aviões superlotados, onde passageiro é sardinha enlatada –e diagnostica o síndroma da classe turística. Uma vez que a vida custa e não se vêem melhoras, a maleita não fica por aí: do que nós sofremos é do síndroma de vivermos em condições sub-humanas. Massificados. Encurralados. Formatados.






