domingo, 12 de julho de 2009

O síndroma de viver



Em 1949, George Orwell publicou o citadíssimo romance “1984”, retrato de uma sociedade totalitarista. A maioria dos leitores reconheceu, nele, o que parecia evidente: a denúncia da ditadura comunista. Sobre essa data, correram sessenta anos e passaram vinte anos desde a queda do muro de Berlim e as suas consequências funestas para a URSS. Naturalmente, milhões de pessoas suspiraram de alívio. Hoje, que pensam essas pessoas? O universo concentracionário morreu, definitivamente? Nada o indica. Ao totalitarismo que, então, se desfez com o muro de Berlim, substituiu-se outro: o do neo-liberalismo. Reforçou-se a concentração do capital, aumentou a exclusão social, abriram-se as portas a um novo esclavagismo. Em S. Tomé e Príncipe, há uma taberninha cujo nome é de velha e sofrida sabedoria: ‘A Vida Custa’. E o preço brutal, o cinzento da vida injusta, a luta desesperada pelo pão nosso de cada dia, há muito que foi além das fronteiras da martirizada África.

Enquanto se discute, sem grandes esperanças, o que o G-8 discutiu, em L’Aquila, (e receando que não se tenha ido mais longe de um “espectacular” debate sobre o sexo dos anjos), aponto um exemplo (aliás dois) da condição humana transformada em gado usado, ao sabor do dono: a companhia irlandesa de aviação, Ryanair, projecta vender bilhetes a metade do preço a quem aceite viajar de pé; a OMS (Organização Mundial de Saúde) denuncia o perigo mortal de viajar nos aviões superlotados, onde passageiro é sardinha enlatada –e diagnostica o síndroma da classe turística. Uma vez que a vida custa e não se vêem melhoras, a maleita não fica por aí: do que nós sofremos é do síndroma de vivermos em condições sub-humanas. Massificados. Encurralados. Formatados.

A nova encíclica do Papa representa um acontecimento incontornável ligada como está ao futuro da Igreja e à dramática crise que vivemos


Encíclica contundente
El Vaticano dio a conocer la tercera encíclica de Benedicto XVI, Caritas in veritate, la víspera de la cumbre del G-8 en L'Aquila y dos días antes de su encuentro con el presidente Obama. El momento elegido no fue indiferente: el documento recoge la posición papal sobre la crisis económica y sus efectos sobre los más desfavorecidos. En lo fundamental, Benedicto XVI reafirma y pone al día los principios de doctrina social establecidos en el Concilio Vaticano II, donde el joven Ratzinger participó en la elaboración de las bases teológicas que guiaron aquel sínodo decisivo.
El lenguaje con el que Benedicto XVI se refiere a los problemas económicos y a sus posibles remedios es de una claridad y una contundencia infrecuentes para los usos del Vaticano. El Papa no sólo hace mención de los valores éticos que deben guiar la gestión política y económica, sino que se pronuncia a favor de un papel activo del Estado. Los objetivos, e incluso los instrumentos, aparecen enunciados con idéntica precisión: para conseguir el desarme, la seguridad alimentaria, la salvaguardia del medio ambiente o la regulación de los flujos migratorios, establece la encíclica, es necesaria una autoridad política mundial que se atenga a los principios de solidaridad y subsidiariedad. Y también las críticas a las instituciones están expresadas sin rodeos: a los sindicatos de los países ricos les reprocha su falta de atención a las consecuencias de sus decisiones sobre el Tercer Mundo, y a los organismos internacionales consagrados al desarrollo el hecho de que "los pobres sirvan para mantener viva la vida dispendiosa de los aparatos burocráticos".
El énfasis papal en subrayar los elementos de continuidad con el Vaticano II ha llevado a ver esta encíclica como un inesperado giro a la izquierda de la Iglesia, interpretación desmentida por sus portavoces. Para el Papa, la doctrina social sólo tiene sentido si se desarrolla en el seno de la verdad única. Con Caritas in veritate, Ratzinger ha querido, sin duda, afirmar el compromiso de la Iglesia con quienes más están padeciendo los efectos de la crisis; pero pretende sobre todo distinguir este compromiso del que mantienen fuerzas políticas o sociales que proponen soluciones parecidas a las suyas, sólo que al margen de cualquier preocupación trascendente. La encíclica no es el documento de un reformador social, sino de un teólogo que busca en la actual crisis económica un terreno para reafirmar su fe.

Editorial do El Pais de hoje

O dia de hoje: a sinceridade é de respeitar em todas as obras e pode ser até grande valor de um escritor menor




Manuel Ribeiro (1878-1941) escreveu coisas sérias. É um autor menor? Sim, não se compara, por exemplo, a outros novelistas alentejanos, como os “grandes” Fialho de Almeida e Manuel da Fonseca, não atinge as alturas do Noel Teles, de ‘Terra Campa’... E, no entanto, no seu romance que leio, ‘A Planície Heróica’ (a capa, reproduzida acima, é da autoria de Bernardo Marques), há qualidade que justifica tentar arrancá-lo ao esquecimento: a sinceridade. Manuel Ribeiro obedece ao imperativo íntimo e conta uma história que não pode deixar de contar –está-lhe dentro, viveu a realidade que descreve, apaixonou-se por ela e expressa-a. Ora essa ‘razão de ser’ do livro representa um inestimável valor. E porquê? Em primeiro lugar, porque a verdade da intenção é de admirar, estimar, respeitar; depois, porque no nosso tempo -este, agora e aqui- proliferam os falsários da escrita: nomes de quem ‘fabrica produtos’ que se adaptam à exigências do mercado e, para isso, plagiam, cambalhotam, emporcalham, de olho na pornografia que vende.

‘A Planície Heróica’, escrito em 1927, constitui, também, um notável testemunho do Baixo Alentejo, denuncia as brutais injustiças sociais de um Alentejo ferido, que talvez ainda estejam longe de completa solução. Manuel Ribeiro, que foi anarquista, libertário, preso político, exilado, e se converteu ao catolicismo, cumpriu uma existência singela, na sua aldeia de Albernoa, freguesia de Beja. Deixou obra, relativamente, vasta, generosa, amassada no barro precioso e bom de uma exigência moral que o acompanhou ao longo da vida e foi raiz da sua obstinada intervenção social. Os seus romances são denúncias corajosas, gritos de alma, sinais de amor verdadeiro à vida e ao próximo.

Amigo: vale a pena revisitá-lo. Deixando, é certo, a crítica fria em casa e substituindo-a por aquilo a que Régio chamava a crítica compreensiva e..., acrescento eu, ‘simpática’... Afinal, de pseudo-génios está a nossa praça literata cheia... Honra aos escritores honestos, ainda que menores!

sábado, 11 de julho de 2009

O dia de hoje: as confidências e a nossa verdade verdadeira as palavras que limitam e a insinceridade





Foi nessa torre -ao fundo da imagem ao lado-, retirado do mundo, que Michel de Montaigne (Bordéus, 1533-1592), filho de um rico comerciante e de uma judia portuguesa, Antoinette de Loupe [Lopes], escreveu um dos livros mais ricos do humanismo renascentista: os ‘Ensaios’. Observou-se, abriu-se, expôs-se. Com a franqueza possível –cerceada, afinal, pelo arco da coragem de cada um, no acto de expor-se.

Não há descrição mais difícil, nem mais útil, do que a descrição de nós próprios’. E isso porque ‘cada homem encerra, em si, toda a humana condição’ e, descer nessa, exige inteligência, intuição e paciência.

Depois, a natureza humana revela-se em constante mutação: em movimento. E a certo ponto, é Montaigne quem diz: ‘eu não descrevo o ser, descrevo a passagem’.

O universo dos ‘Ensaios’ do bordalês é de tal modo complexo, que nunca se esgota –ninguém, até hoje, deu por finda a sua leitura ou por definitiva a sua explicação. Humildemente, toca-nos limitar-nos e dar pequeninos passos, quando nos aproximamos dele.

E, hoje, vou buscar esta passagem, do III, e último, Livro dos ‘Ensaios’: ‘Às vezes, tenho a impressão de estar a trair a história da minha vida. Estas declarações públicas [‘Ensaios’] obrigam-me a seguir certo caminho e a desmentir a minha [verdadeira] imagem.

Aquilo que me alertou a curiosidade foi o seguinte (e é, julgo, o que pretende dizer Montaigne): enquanto escrevemos, vamos condicionando a nossa atitude, porque o que escrevemos nos obriga a ser-lhe fiel. Porque nos obriga a sermos coerentes e a procedermos de acordo com o que ficou escrito. Ora o homem revela-se em movimento e o preconceito (a ideia feita, porque, escrevendo, fomos transmitindo uma ideia, uma imagem de nós próprios) tolhe, adultera o movimento. E das duas uma: ou mentimos, para não chocar o leitor, que espera de nós fidelidade ao anteriormente escrito; ou, para não desiludir o leitor e não parecermos incoerentes, forçamo-nos a uma conduta que não corresponde à nossa verdade profunda.

Em suma: somos prisioneiros das nossas palavras. Então, que será feito da nossa ‘sinceridade’? Que pensas, amigo que me lês?

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Vale a pena ler a Editorial de 'El Pais' sobre a badalada cimeira de L'Aquila



Modestos resultados

La cumbre del G-8 en L'Aquila ha superado en parte los malos augurios que precedieron a su celebración. A la distancia entre las diversas posiciones de partida se sumaban los problemas internos del anfitrión, Silvio Berlusconi, y las dificultades añadidas por el hecho de convocarse en una región devastada por un reciente terremoto. De ahí que se acogiera con cierta sorpresa el que, finalmente, los dirigentes de las mayores economías del mundo pudieran acordar una reducción del 80% antes de 2050 en las emisiones que provocan el efecto invernadero, invitando al resto de los países a hacerlo en un 50% durante el mismo periodo. El secretario general de Naciones Unidas, Ban Ki-moon, ha considerado insuficiente el compromiso. Tiene razón si únicamente se atiende a las cifras; el aspecto positivo reside en que la nueva Administración norteamericana no sólo ha asumido el principio de la lucha contra el cambio climático, sino que ha aceptado cuantificar sus primeros compromisos.
El análisis de la crisis económica, segundo gran asunto de la reunión, se saldó con un nuevo llamamiento a la prudencia y al realismo. Los líderes del G-8 confirmaron la existencia de signos de mejora en la economía mundial, pero insistieron en que el futuro sigue siendo incierto y en que las políticas acordadas en el seno del G-20 deben mantenerse hasta consolidar la recuperación. Uno de los riesgos mayores sigue siendo el proteccionismo, y de ahí que renovaran su compromiso con los mercados abiertos. La propuesta estadounidense de crear un fondo de ayuda a la agricultura destinado a garantizar la seguridad alimentaria era importante porque venía a demostrar que Obama entiende los foros multilaterales de manera distinta de su predecesor: no son necesariamente límites al poder de Estados Unidos sino que pueden servir como instrumento adicional para reforzarlo.
El G-8 abordó, además, una de las primeras preocupaciones de la agenda internacional norteamericana: la proliferación nuclear y, en concreto, los programas atómicos de Corea del Norte y de Irán. Los líderes de las principales economías mundiales están de acuerdo en el riesgo que representan estos programas, pero difieren en la intensidad de la estrategia. Obama sigue concediendo una oportunidad al diálogo, y tal vez no le falta razón: en 2010 tendrá lugar la revisión del Tratado de No Proliferación, por lo que esa fecha es a la vez el límite para una eventual salida negociada y el inicio de la cuenta atrás para la adopción de cualquier otra respuesta.
Aunque sin grandes resultados, la cumbre de L'Aquila ha servido para mantener viva la voluntad de cooperación internacional ante los graves problemas del momento. La reunión ha cumplido un cierto papel que no puede ser despreciado: ha desbrozado el camino que debe llevar al próximo encuentro del G-20 en septiembre y ha afianzado el nuevo tipo de liderazgo internacional que ha decidido ejercer Estados Unidos.

O dia de hoje: saudades para Fernanda Botelho...



A páginas tantas verifiquei a data de publicação de ‘Sense and Sensibility’, um dos romances admiráveis da inglesa Jane Austen, que leio, rendido à sua riqueza: 1811. Ao tempo, que romances ou novelas se publicavam, por cá? Nada ou quase nada que valesse. Almeida Garrett tinha 12 anos e Herculano..., 1 ano. Camilo ia demorar a chegar. O nosso romance amadureceu tarde e andou, sempre, um pouco ao Deus dará.

Seja como for, nos anos 50 -e muito na linha da lição ‘presencista’- afirmaram-se nomes de qualidade: Natália Nunes, Augusto Abelaira e... Fernanda Botelho.

Enunciei-os ao correr da tecla, não esqueci os neo-realistas, que deixaram obra apreciável: Soeiro Pereira Gomes (‘Esteiros’ é um romance incontornável), Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira (este não descurou o tal exemplo ‘presencista’).

José Cardoso Pires foi um ‘caso’ e trabalhou, felizmente (com êxito), um ‘realismo socialista’ ortodoxo o bastante para afastar albardas dogmáticas.

Ora, na chamada ‘geração de 50’ sobressai um nome incompreensivelmente calado: o de Fernanda Botelho. Os seus romances são do melhor que se escreveu na nossa Literatura de hoje. Irei mais longe: nenhum romancista vivo (exceptuada a singularíssima Agustina) lhe chega aos calcanhares. Aqui a lembro, com muita admiração e saudade (honrou-me com a sua generosa e fina amizade) para que a procurem e a leiam.

O nosso romance é, afinal, muito mais do que o paleio vazio dos plumitivos publicitariamente valorizados...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Uma frase (talvez certíssima que acham?) escrita por Nietzsche acerca de Dostoievski (na foto)



‘A descoberta de Dostoievski foi, para mim, mais importante do que a de Stendhal: ele é o único que me ensina qualquer coisa de psicologia’ (in O Crespúsculo dos Ídolos’).