quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Veneza, Trieste e o Corvo de Allan Poe


As razões do corvo


O regresso a Veneza -o breve, brevíssimo regresso- que não durou mais de quatro dias do passado Outubro, foi um choque brutal, a magoar-me fundo.

Há 30 anos que ali não vinha; onde estava tudo o que fora: a cidade, os amigos, as osterie, a soberana beleza?

Aquilo que me rodeava era um circo pobre, uma insuportável feira.

Centenas e centenas de gentes, de tendas, de cafés e restaurantes.

Veneza, onde estava?

Onde a paz, o silêncio, o mistério?

Caira-lhe em cima o exército de barbari, há tanto tempo denunciados por Alberto d’Amico na canção -Arriva i barbari-, palavras que arrepiavam os amantes da cidade?

Sim: tinham chegado os bárbaros.

Não só os meus mortos eu chorava: chorava Veneza –chorava-me a mim próprio.

Roubaram-me a jóia.

Não via o corvo de Allan Poe, mas ouvia-o –e de que maneira!

“Never more!”

Ligaram-me ao passado e à violada Veneza, as duas únicas pessoas que encontrei: Rosanna Marcato e Nicoletta Trentin, ambas com a memória de dois grandes amigos mortos: Aldo Zari e Giorgio Trentin. O resto era-me nada –Veneza ausentara-se.

Arrisquei a visita a Burano: a ilha dos pescadores, dos merletti, das casinhas pintadas, de Umberto Moggioli, da escola artística de Burano, ei-la a vender merletti e bordados importados da China, ei-la sufocada pelos turistas, que tudo destroem, pelos restaurantes e cafés inumanos, apontados à bolsa de cada um.

“Never more.”

Refugiei-me noutro lugar: em Trieste, a cidade que Jan Morris recorda muito bem, no livro Trieste and the Meaning of Nowhere.

Já a visitara duas vezes: em 1975 e em 1983. É a cidade de Italo Svevo e Umberto Saba; a cidade mestiça de italianos, austríacos, judeus, eslavos…

A cidade que esconde o tesouro que pressentimos e jamais possuímos –mas, desde o primeiro instante, entra em nós.

É arriscado falar dela: arriverano i barbari, que já a espreitam.

Direi, apenas, que me acalmou e afastou o corvo.


Never more? Nunca mais o quê?

A vida está aí, à tua frente –e este instante é eterno, como todos, e disso terás consciência enquanto viveres.

Jane Morris cita o poeta americano Wallace Stevens:

“Sou o mundo que percorri: aquilo que vi, ouvi e experimentei desabrochou em mim próprio.”


As meninas de Trieste

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A resposta que nunca chega





PALAVRAS

Palavras, atirei-as
Como quem joga pedras, lança flores.
Abriram fendas nas areias.
Suscitaram carícias e furores.

Sobre mim recaíram
Pesadas de multíplices sentidos.
Tenho os lábios que um dia as proferiram
E os dedos que as gravaram –já feridos.

Tintas de sangue as restituo aos ventos.
Prestidigitador que sou de sons, palavras.
Dá-lhes novos alentos,
Fogo sonoro que em mim lavras!

Errantes lá por solidões imensas,
Com asas no seu peso, à recaída
Me tragam, ágeis, densas,
A resposta final que me é devida.

in Colheita da Tarde, Volume Póstumo organizado por Alberto de Serpa, Brasília Editora, 1971 (esta poesia foi publicada em “Horizonte”, Artes-Letras do Jornal do Oeste, 4ª série, nº 479, Rio Maior, 9 de Junho de 1969. Com data “Vila do Conde, Abril de 69. Régio morreu no dia 22 de Dezembro de 1969)




José Régio na intimidade


Casa onde José Régio viveu, em Portalegre, hoje afogada por um monstruoso Centro Cultural que não só esconde Régio como agride o largo belíssimo onde o meteram. Podes ver as costas do tal Centro, bem encostadinhas à Casa Museu de um dos maiores escritores portuguseses...


Na sequência da viagem ao mundo maravilhoso italiano, levei a minha companheira de viagens, dias, meses, anos, ao longo da vida, trouxe-a à sua terra, outra pequena e discreta maravilha, Portalegre.

Calhou encontrar à venda no admirável Museu da Tapeçarias, um livro que nos devolve José Régio, na intimidade: Correspondência Familiar Cartas A Seus Pais, Introdução Notas de António Ventura, edição Caleidoscópio, 2ª edição.

E devolve mesmo: no livro reaparece um grande poeta no seu dia-a-dia, na simplicidade e… na complexidade.

Os que admiram e estima Régio deveriam lê-lo.

Aqui transcrevo duas passagens, qual delas a mais interessante e sempre em cartas para a mãe, que tanto amava:

Podemos lembrar sempre os que partiram sem que isso nos tire o gosto de vivermos para os que ainda nos restam, -pois estes são os que verdadeiramente precisam de nós.” (20.Janeiro.1940)

E, à margem da dor da partida dos que se ama, a dor de ver cortado o direito de escrever:

“O meu livro, embora publicado, tem-me tomado muito tempo porque tenho de o mandar a este e à quele… Mas não estou não estou descontente, porque parece que se vai vendendo menos-mal.” (25. Novembro.1934)

Durou muitíssimo pouco a alegria de ver o seu livro tão procurado: a censura salazarista proibiu-o e os volumes foram confiscados.


    

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A caminho do Alentejo lugar de esperança



Chegado há três dias do mundo maravilhoso, isto é, da Itália, quase já recansado por esta confusão e vigarização dos Cavacos, Coelhos & Cia, parto para outro mundo maravilhoso, o Alentejo, a ver se me resoxigeno…


Até breve, melhor d’alma, espero…  

domingo, 25 de outubro de 2015

Um assassino chamado Turismo


O assalto a Veneza...


O assalto de turistas vai destruindo Veneza.

Massas de milhares e milhares de gente que escurece Veneza.

Que a diminui, que a banaliza, que a apaga.

Barcos imensos com milhares e milhares de plácidos analfabetos, 
que olham para Veneza como boi para palácio.

Há 10 anos, Veneza tinha 75 000 venezianos, hoje anda à volta dos 45000.

Veneza tornou-se insuportável para os venezianos e para aqueles que realmente a amam e entendem.


Veneza arrisca transformar-se num imenso supermercado de tralhas feitas para ignorantes e de obras de arte que as massas tapam ou nunca irão perceber.