sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O caso dos gastos nos gabinetes governamentais



Relatório do Tribunal de Contas:

William Turner abre as portas do abstraccionismo

"Nascer do sol, com um barco entre promontórios", 1940/50, óleo de William Turner

E aqui termina a minha evocação do grande pintor João Navarro Hogan (1914-1988)

"Paisagem", 1962, óleo de João Navarro Hogan


 As idas ao Convento ensinaram-me, tal qual me ensinou o convívio com José Régio, Tomaz de Figueiredo, João Gaspar Simões -e com outro Mestre que não quero esquecer: Jorge Barradas. A simplicidade? A humanidade? Tudo isso e, depois, a marcar -a obrigar-, a humildade. 

Minha filha Gui, minha afilhada Margarida Vidal, quase crianças, acompanharam-me em algumas das visitas e recordam-nas, hoje, como um adolescente recorda certas histórias, certos livros, certos filmes: o atelier de Hogan e de Virgílio Domingos pertence ao mundo maravilhoso, nessa idade ainda impoluto, esperançoso, inocente, em que o impossível não cabe. Assim recordam o pintor de quem, além das obras, lhes ficou a transparência e a bondade do olhar. Tantas vezes indefeso, tantas vezes duro. 

Julgo que Hogan não lia os Patinhas e os Mickeys por causa da qualidade gráfica; ele nunca deixou de poder participar da inocência, nem envelheceu. Se atentarmos na figurinha de St.º Antão, creio que conseguimos distinguir a delicadeza reservada e a poesia inflexível, a humildade e a coragem dos que se recusam a arregimentar-se –muito de João Navarro Hogan.            
           
 Guardo alguns trabalhos de Hogan, comprados a prestações e a preços quase simbólicos. Uma das telas (um óleo de 1972) intrigou -e intriga- Aldo Zari, pintor veneziano, que já expôs em Portugal, nomeadamente, na Cooperativa Árvore, no Porto. Virava-a e revirava-a e dizia-me:
 
“-Mas o que é isto?! Devia era estar ao contrário! O que está em cima devia estar em baixo e o que está em baixo devia estar em cima!”
           
E, quando ficava em nossa casa, em Roma, durante a noite, às escondidas, ia virar o quadro de pernas para o ar. Se, na manhã seguinte, eu lhe chamava a atenção, exclamava:
           
“-Ora, ora! Assim é que é!”
            
Descobri a resposta e deu-ma o próprio Hogan:
          
 “Antigamente, ia para o campo (...). Hoje tenho a fotografia, e lá procuro alguma coisa que me impressione bastante. (...) Pego depois nos slides e trabalho. Ponho slides ao contrário, azul em cima, e, às vezes, dá” (1).
            
Ao longo dos anos que viajei com o pintor -em Itália, em África, em Israel- e constatei que o admiram, tenho-me perguntado: atingiu ele o renome internacional que merece? Receio que não.
            
Isso incomodava -incomodaria- Hogan? Não há nenhum artista que não busque o reconhecimento, mas Hogan vivia no seu mundo e, antes do mais, esse lhe importava e tudo lhe sacrificou. Ardia no seu mundo (aquele mesmo em que recebia e procurava entender os outros), discretamente excessivo. Os médicos aconselharam-lhe moderação. Procurou obedecer mas depressa se impacientou:
            
“-Agora já só pinto borradas...”
            
E riu, de troça amarga:
            
“-Estou a ficar académico!...”
            
Pouco durou a cura -e as últimas telas que mostra o precioso Catálogo, depuradas, essenciais, retomam a tragédia do início, agora tocada por lirismo pungente, quase de aceitação.
            
            
Um dia –Hogan, sempre modesto e desinteressado, preocupava-nos a todos-, sugeri-lhe:
            
“-Homem, você agora está a a ganhar dinheiro, acautele o futuro! Trate de investir!”
            
Ele olhou-me, espantado. Eu não percebia?
            
“-Investir? Sei lá o que isso é! Ponho o dinheiro na Caixa e chega!...”

(1)            in Catálogo, p. 95

transcrito de Memórias, José Régio e Outros Escritores

"Fraternidade", 1956, xilogravura de João Navarro Hogan

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Viny Reilly: depois de duas crises cardíacas está à beira da miséria

João Navarro Hogan -II

"Paisagem", 1970, óleo de João Navarro Hogan



Todos nós sabemos que o artista se equilibra na obra e que essa harmonia o salva, lhe cura as vertigens e o afasta do poço. Da loucura? Hogan é muito claro:

“Tive e tenho Mário Eloy como um dos grandes pintores portugueses.
                
Quando jovem, lembro-me quanto a sua pintura era desconsiderada, em loucura. Mas, para perceber Mário Eloy, é preciso alguma vez ter aberto as portas à visceral loucura que nos faz andar ou ficar imóveis” (1).
                
Como ela -a loucura, ou a visão louca das coisas- atravessa, marca a sua, dele Hogan, melhor pintura!
                 
E a figura, miníma, frágil -assustada figura humana, que parece ir a recolher-se, a resguardar-se- volta em Tentações de Stº Antão, de 1974. O mundo, em redor, é silêncio, indiferença, distância. Pobre do santo que carrega o destino! E que leva consigo o desejo. Porque as formas dos quadros de Hogan são sensuais e quentes. Até onde se pode acreditar nelas?
                
Creio que a sua alma era um vendaval que procurava esconder com a disciplina de artesão –título que de certeza muito prezava. Claramente o aponta Virgílio Domingues, nas palavras generosas -comovidas, ainda que se contenha- dedicadas ao camarada de atelier:

“(...) um saber de ofício todo feito de rigor, de consciência, de sentido de responsabilidade. São qualidades que Hogan não assumia como um código moral que se impôs, mas que era a sua maneira natural de estar na vida, sensível até nas relações que estabelecia com as outras pessoas” (2).
           
Aponta, também, Virgílio Domingues a fidalguia do seu trato. Muitas vezes o visitei no atelier do antigo Convento dos Marianos. O que se trazia de lá? Alegria: o reconforto de assistir ao trabalho de um homem verdadeiro. Autêntico. Justifica-se especialmente o adjectivo, ao falarmos de Hogan. Da entrada à saída, tínhamos a certeza de assistir a uma cerimónia importante: no caso, à cerimónia dos pincéis e das telas, das espátulas –sacrifício necessário à vida daquele homem. Escrevo a palavra -sacrifício- porque a impressão de religiosidade pairava no reduzido estúdio. Não dizia, porém, respeito ao Convento: envolvia Hogan e as suas obras. Religioso um artista tão carnalmente ligado à terra?
         
 “A minha paisagem nasce dentro e debaixo da terra. O céu nunca me interessou e às vezes até o corto.
          
Fascina-me o constante e imperceptível movimento do espaço tangível e essa vida interior da terra, das rochas e das falésias, que a minha pintura quer desocultar” (3).
          
De certeza? É da terra que St.º Antão procura resguardar-se ou do céu? O que é que se move e se agita, tenso e a explodir, debaixo da terra? No coração dos homens? Cortou o céu St.º Antão? Não o quis olhar -pois que Hogan, nessa obra, não o omitiu e o assinalou, baliza da harmonia, sinal de  pureza e descanso, mas distante? E de que lhe serviu fugir-lhe, se ele –céu, que é também terra, vulcânico e metamórfico, céu em movimento, a ferver na busca de si próprio, voltou a visitá-lo, a invadi-lo, a tentá-lo, agora próximo, a correr-lhe no sangue, incorpado em formas esplêndidas ou lascivas, fantasmas delicados ou monstros sufocantes?
          
Contemporâneos da obra-prima Tentações de St.º Antão -síntese de uma vida de criador- trabalhos como O Jardim das Delícias e outros sem título, em que a alegria renascentista de viver contraria a tragédia da maioria das suas gravuras. E, nessas, o céu aparece azul e com pássaros.
          
Onde está a verdade?
          
Não sei responder –e pouco importa dizer onde. O que sabemos é que existe –e tortura-nos o modo como se expõe e escapa.
           
          
(Evoco João Navarro Hogan apoiando-me em muito pouco: na memória, numa gravura –Florença, 1967, a única obra que, depois de Roma, me acompanhou em S. Tomé e me acompanha, agora, em Telavive- e no Catálogo que venho a citar, muito bem programado, organizado e seleccionado por José Sommer Ribeiro e Maria Helena de Freitas. Faço, pois, o melhor que posso, tento expressar a impressão de grandeza que me deixou o artista.)

Notas:

(1)            Catálogo, p.28
(2)            Catálogo, p. 15
(3)            Catálogo, p. 103

continuação do texto in Memórias, José Régio e Outros Escritores


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

João Navarro Hogan: abrir o ano lembrando um grande pintor -I

João Navarro Hogan: auto-retrato


Se falei de “candura” a propósito de Tomaz de Figueiredo, deverei referi-la, ao recordar João Navarro Hogan. O pintor chegava à Brasileira por volta das cinco da tarde, já noutro mundo –ou mais fundamente no seu. Vestido às três pancadas, olhos inchados, o cigarro pendurado da boca, trazia nos bolsos do casaco deformado revistas de histórias aos quadradinhos: o Patinhas, o Rato Mickey. Os suspensórios seguravam-lhe mal as calças amarrotadas e a barriga inchada. Sorria e não tenho a certeza de que reconhecesse as pessoas ou se olhava para dentro. Reservado? Talvez –porque não era capaz nem do comércio mundano nem de café e não queria destoar ou sobressair. Mas, sim, creio que via tudo e observava, com ironia discreta.

              
“-Ó João! Então lê o Tio Patinhas?!...”
              
Não sei se me disse a verdade, quando respondeu:
              
“-É por causa da qualidade gráfica... Para aprender...”
              
E apontava os bonecos, com os dedos sujos das tintas e encorreados.
              
Esperavam-no Virgílio Domingues, Júlio Pereira, o “Júlio Tanoeiro”, a mesa de Hogan era outra, desviada da mesa de Tomaz de Figueiredo, de Segurado e de Jorge Barradas, onde se sentava, às vezes, Abel Manta.
              
Não virá a propósito –ou virá?, não pensaria Hogan o mesmo?-, mas aponto o comentário de Abel Manta, num fim de tarde, à esquina da Livraria Sá da Costa:
               
“-Sabe que mais? Isto é um país do caraças! Um país onde o peido é maior do que o cu!”

Na esquina do Gualdino Gomes, o gazeteiro falhado, que João Gaspar Simões detestava, e, dele, me disse:
                
“-Aí tem você o exemplo chapado da “intelectualidade portuguesa”! O Gualdino Gomes! Escreveu meia-dúzia de linhas, encostou-se ao que comeu e ficará na história dos nossos mentideros pela má-língua... Gastava as calças às mesas da Brasileira, a desancar os outros! Sobretudo a troçar daqueles que faziam alguma coisa!”
                
Muito provável. Mas que bem, ainda hoje, certinha na careca de tanto nosso plumitivo a resposta que deu a um dos “génios” do seu tempo o qual lhe perguntara, ansioso:
                
“-E o meu livrinho, Gualdino? O meu livrinho?...”
                
Ele de perna cruzada, a eterna bica à frente, a palitar os dentes amarelecidos do tabaco:
                
“-Desnecessário, meu caro, desnecessário!...”
                
Nunca a arte de Hogan atingiu a violência do sarcasmo e denúncia sociais de Virgílo Domingos; mas o mundo em que vivíamos não o enganava. No dia 26 de Abril de 1974, encontrámo-nos e abraçámo-nos, ao cimo da Rua do Alecrim. De lágrimas nos olhos, exclamou:
                
“-Isto caiu de podre, Manel! Caiu de podre!”
                
Os seus caminhos eram camilianos, trágicos. Sim, ele também conhecia e cultivava o sarcasmo –bem camiliano, repito, e virado contra si próprio:

“A estética neo-realista levou-me até ao lado dramático da figura”, afirmou, e cito o Catálogo da exposição no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Novembro de 1992 (1).

Terá levado -e encontramo-las, as figuras dramáticas, nos óleos dos anos cinquenta-; mas o artista soltou-se delas e foi direito ao movimento inexplicável, incaptável, ciclónico, a seguir-lhe as cores e as formas. Depressa as figuras se tornam raras, quando não desaparecem. A paisagem -não escolhe o abstraccionismo-, que se aproxima da mancha pura, do contraste e harmonização de cores, obceca-o.
               
 “A minha paisagem só aparentemente é uma repetição. Como num labirinto, ela é dominada por uma obsessão de percorrer algo que só se pode ir descobrindo, algo que jamais tem fim. Eu sei que não tem fim” (2).
                
Percorrer algo, perseguir algo. Libertar-se nessa correria?

“Ao princípio as minhas paisagens eram mais de espectáculo. Hoje são mais de subconsciente” (3).
               
No entanto, Hogan esclarece:

“Eu pinto de um modo muito planeado. Começo pela construção geral e só depois vou indo aos detalhes. Uma mobília também se faz assim. Não se vai começar pelo pé da cadeira (4).

E lembrará:

“Trabalhei na marcenaria até aos anos 60” (5).

Notas:

(1)            Catálogo, p. 35
(2)            ibidem, p.61
(3)            ibidem, p.103
(4)            ibidem, p.45
(5)            ibidem, p.111

no meu livro Memórias, José Régio e Outros Escritores, edições
quasi/Círculo Católico D'Óperários de Vila do Conde, 2001

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

E aí está 2013!

Aldo Zari (1944-2011), 1997, Museo Nuovo Rinascimento, Veneza: presente!


Cantares de Janeiro

Alegrai-vos pecadores
Que já é nascida a Aurora!
A janeira que cantamos
É para Nossa Senhora.

Alegrai-vos pecadores
Que já é nascida a Lua!
A janeira que pedimos
É para a Mãe de Jesus.

Inda agora aqui cheguei
E já pus o pé na escada
Logo meu coração disse
Aqui mora gente honrada.

Viva lá senhor…
Que bem lhe diz o chapéu!
Quando vai para a Igreja
Parece um anjo no céu.

Viva lá senhora…
Raminho de salsa crua,
Debaixo da sua cama
Nasce o Sol e põe-se a Lua.

Levante-se d’aí senhora
Desse banco de cortiça
Venha-nos dar a janeira
Ou de morcela ou chouriça.

Levante-se d’aí senhora
Desse banquinho de prata
Venha-nos dar a janeira
Que está um frio que mata.

Deitemos-lhe a despedida
Por cima do laranjal
Viva um e vivam dois,
Vivam todos em geral.

(De Vale de La Mula, Almeida, Guarda)

Transcrito por Afonso Duarte in O Ciclo do Natal na Literatura Oral Portuguesa, Barcelos, 1936